LGBT
22/03/2018 17:44 -03 | Atualizado 22/03/2018 17:45 -03

RuPaul está reforçando a própria questão que seu programa deveria combater

"Drag não é performance. Gênero, sim."

Andrew Kelly / Reuters

Novamente envolvido em polêmica acirrada em torno de declarações transfóbicas, parece que RuPaul e seu império de reality show continuam a ignorar o mais importante: drag não é performance. Gênero, sim.

Num perfil dele publicado recentemente pelo The Guardian, RuPaul diz à jornalista Decca Aitkenhead que não deixaria que mulheres trans competissem em seu programa "RuPaul's Drag Race". E em um tuite subsequente ele parece ter comparado a ideia de participantes de seu programa que fizeram a transição de gênero ou estavam fazendo enquanto participavam do programa a atletas que competem depois de tomar drogas que melhoram seu desempenho.

Mesmo assim, Aitkenhead elogia o radicalismo de RuPaul, apontando para sua recusa, por exemplo, em aderir às normas de gênero tradicionais ou para sua insistência em que as identidades são múltiplas e fluidas. "Acho que identidades são como moedas ou como sistemas de valores – ou seja, não existe apenas uma", fala RuPaul no artigo. Mas o que ele e a entrevistadora deixaram de entender é que, como o dinheiro, o gênero é um construto social que só adquire realidade graças à nossa fé coletiva em seu valor. Se você abrir a cortina, verá que não há nada por trás da performance.

Para qualquer pessoa que já teve que encarar a retórica impenetrável do livro Problemas de Gênero, de Judith Butler, em um curso na universidade e emergiu disso convencido do potencial da teoria da autora, o fenômeno que é o programa "Drag Race" representava um momento de esperança, quando não motivo para festejar. Como muitos outros fãs, eu queria muito que RuPaul fosse um grande defensor da justiça queer. Por mais que isso fosse ingenuidade, esperava que o programa jogasse para o alto os roteiros que a cultura patriarcal nos impõe e inaugurasse uma nova era de representação, livre da bagagem misógina tão onipresente em outros programas de TV.

Parece que nem todos são convidados para brincar no mundo glamuroso de "Drag Race".

Não me entenda mal: "Drag Race" vem abrindo caminhos de muitas maneiras, uma das quais é seu sucesso crítico em levar o ethos da subcultura gay para o discurso mainstream. Hoje não é incomum encontrar homens héteros em bares falando em "shade" (destilar veneno) e gritando "yass, queen!" para a tela enquanto assistem ao programa ao lado de seus amigos gays.

No entanto, apesar da capacidade do "Drag Race" de animar o espectador com uma mensagem de amor por si mesmo e de atuar como uma força para o bem, os comentários de improviso que RuPaul fez sobre pessoas transgênero já nos decepcionaram em mais de uma ocasião. Ao policiar os limites da inclusão, ele comete o tipo de violência simbólica de gênero contra o qual seu programa deveria supostamente se rebelar.

Quando, por exemplo, ele diz na mesma entrevista que "a partir do momento em que você começa a transformar seu corpo... o drag assume uma conotação diferente", isso expõe uma visão muito limitada das possibilidades do drag, uma visão que, ironicamente, tem sua raiz na biologia. Enquanto a entrevistadora critica "a seriedade militante do movimento transgênero", é a insistência de RuPaul sobre a autenticidade corpórea que é contraditória, na verdade, e diametralmente oposta à ideia do drag. Parece que nem todos são convidados para brincar no mundo glamuroso de "Drag Race".

O problema central de "Drag Race" e das relações de gênero, de maneira mais ampla, não é um problema de autenticidade e imitação, como sugerem os comentários equivocados de RuPaul. São os binários claramente dicotomizados que sustentam os sistemas de gênero opressores. O espaço artificial entre ele e ela, entre real e fake, sexo biológico e gênero sociológico, é isso o que precisa ser contestado. Se RuPaul empregasse essa visão de gênero mais ampla em seu trabalho, os participantes que disputam uma vaga na próxima temporada seriam avaliados pela qualidade de sua performance – seu carisma, singularidade e talento --, e não por seus órgãos corporais.

Basicamente, o drag expõe o absurdo do gênero.

O potencial radical do drag não está no fato de desestabilizar a masculinidade por meio da simples inversão de papéis. Homens que se vestem de mulheres são algo que, por si só, pode tanto estar a serviço da misoginia quanto constituir um contestação da masculinidade dominante. Dependendo do contexto, o artista pode estar ironizando a frivolidade da feminilidade ou festejando sua atratividade estética – ou, ainda, fazendo as duas coisas ao mesmo tempo.

Basicamente, o drag expõe o absurdo do gênero. Traz à tona a natureza construída do gênero e ridiculariza o poder restritivo que ele exerce sobre nós. Através da hipérbole, o drag parodia a paródia, chamando a atenção para o fato de que todos fazemos uma performance o tempo todo, tenhamos ou não consciência disso. Quando é feito com inteligência, o drag cumpre a função de nos mostrar que o gênero é algo que fazemos, e não algo que somos. Desse modo, ele pode nos indicar uma saída, uma visão de como fazer as coisas de modo diferente e ao mesmo tempo nos divertirmos experimentando.

Isso é algo que RuPaul parece entender, até certo ponto. Tome-se, por exemplo, o slogan muito repetido de sua autobiografia, Lettin It All Hang Out: "Nascemos nus. O resto é drag." Em uma declaração simples, ele consegue captar todo o projeto feminista de subversão de identidade proposto por Butler. Mas com a outra mão ele segura firme a identidade – por mais escorregadia ela possa ser --, com sua posição contraditória de que "o drag perde o aspecto arriscado e o senso de ironia quando não são homens que o fazem".

Embora RuPaul possa não estar injetando feminismo e a teoria queer diretamente nos limites comerciais da televisão a cabo, os participantes do "Drag Race" o estão fazendo. Participantes como Peppermint, Gia Gunn e Ben de la Creme, para citar apenas algumas das vozes que se juntaram ao coro, saíram rapidamente em defesa da comunidade trans, nos recordando do papel vital que ela exerce em nosso movimento pela igualdade de direitos e a justiça social. Os corpos e identidades diversos representados na tela em temporadas sucessivas esclarecem, educam e inspiram uma nova geração de revolucionários dispostos a reconstruir o mundo para que fique com cara mais inclusiva.

RuPaul pode aderir a uma noção mais rígida do que significa ser homem e mulher na sociedade, mas ele não tem a última palavra nesse assunto. Intencionalmente ou não, seu programa deslanchou um movimento cultural que não será barrado, e ideias radicais permeiam inadvertidamente todo o universo do "Drag Race". São as drag queens que o resumem melhor, algo que não chega a surpreender. Como nos recordou a inimitável vencedora da nona temporada, Sasha Velour, no vídeo musical de "C.L.A.T.": "O gênero é um construto. Vamos acabar com ele!".

*Zach é administrador em uma escola de direito de Nova York. Siga-o no Twitter @zach_shultz.

*Este texto foi publicado originalmente no HuffPost US e traduzido do inglês.