OPINIÃO
19/03/2014 09:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

A Crimeia sempre será ucraniana... Esta é nossa terra e não vamos entregá-la a ninguém!

PETER MUHLY via Getty Images
Yulia Tymoshenko, leader of Ukraine's Batkivshchyna Party, addresses the media during a press conference at the European People's Party (EPP) Congress at the Dublin Convention Centre in Dublin, Ireland, on March 6, 2014. Up to 2,000 delegates arrive in Dublin Thursday for the start of the European Peoples Party (EPP) conference, where the party will vote for its preferred candidate to succeed Jose Manuel Barroso as President of the European Commission. AFP PHOTO / PETER MUHLY (Photo credit should read PETER MUHLY/AFP/Getty Images)

Primeiro, e o mais importante. Não houve nenhum "referendo" na Crimeia em 16 de março. Esse suposto "referendo" foi promovido para acobertar a agressão militar aberta contra a Ucrânia e uma tentativa de anexar parte do território ucraniano.

Nem um único Estado civilizado reconheceu os resultados desse suposto "referendo". Este foi 100% ilegal, e suas consequências legais não valem nada. Esta grande mentira não se sustentará por muito tempo.

Segundo. A Crimeia sempre será ucraniana, apesar de todas as tentativas de seus ocupadores russos. Esta é nossa terra, e não vamos entregá-la a ninguém!

Terceiro. Quero agradecer do fundo do meu coração a todos que estão defendendo os interesses nacionais da Ucrânia na Crimeia nestes tempos dramáticos. Sou grata às Forças Armadas da Ucrânia por seu espírito inquebrantável, sua tolerância, seu heroísmo e patriotismo inacreditáveis. Sou grata aos crimeanos que não apoiaram os separatistas. Sou grata aos tártaros crimeanos, aos voluntários e aos jornalistas.

Graças a vocês está nascendo uma Ucrânia nova, orgulhosa e bela -- um país de heróis! E não há nada que os agressores russos possam fazer quanto a isso. A justiça não demorará a ser restaurada.

Imploro ao Parlamento ucraniano que ratifique urgentemente o Estatuto de Roma, para que a Ucrânia possa apelar para o Tribunal Criminal Internacional, em Haia, e pedir à Corte Constitucional da Ucrânia que tome uma decisão quanto à compatibilidade do Estatuto de Roma com a Constituição da Ucrânia. A Ucrânia precisa apelar urgentemente ao Tribunal Criminal Internacional para que cesse a captura militar da Ucrânia. Todos os envolvidos na agressão militar contra nosso Estado devem ser responsabilizados pessoalmente e internacionalmente.

Sinto pena da população da Crimeia, que se deixou iludir por essa grande mentira e tornou-se vítima de seu próprio descuido e ingenuidade, o que pode lançar sua ilha ensolarada nas trevas. Em pouco tempo o regime russo lhes mostrará que mesmo os subtrópicos podem ter noites polares. Isso pode levar a um desastre humanitário e a consequências imprevisíveis para os crimeanos. Não haverá paraíso econômico. A Rússia não possui os recursos necessários --sua economia se encontra à beira do colapso. Agora que os grandes países do mundo estão impondo as sanções mais rígidas contra a Rússia, amanhã os russos não terão mais interesse na Crimeia e seus habitantes.

Quarto. Sinto pena do povo da Rússia. Ele está sendo conduzido para um abismo totalitário de colapso econômico e espiritual, que anda de mãos dadas com a pobreza e a devastação.

Usando meios degradantes e imorais, o governo russo, com sua propaganda tresloucada em favor da ocupação da Ucrânia, destruiu a noção da verdade. Ele matou o mito da ortodoxia, espiritualidade e caráter sagrado da Rússia e o que pensa ser o papel pessoal positivo desse país na história da humanidade. Em vez disso, o mundo inteiro testemunhou a agressão imoral e injustificada da Rússia, que pôs em risco a convivência pacífica de todas as nações deste planeta.

O regime chegou a anular o papel histórico da Rússia na Segunda Guerra Mundial, transformando-a de libertadora em invasora. Essa perda moral para a Rússia é muito mais trágica que quaisquer perdas materiais possíveis decorrentes das sanções internacionais.

Mas só podemos esperar que uma nova Rússia também esteja nascendo hoje. Não a Rússia de Putin, mas um país que no último fim de semana saiu para a marcha da liberdade. Uma Rússia de Andrey Makarevich usando fita amarela e azul. Uma Rússia de Liya Akhedzhakova, Eldar Ryazanov e Boris Grebenshchikov. A Ucrânia tem um futuro real com uma Rússia como essa.

Quinto. Na Maidan a Ucrânia fez sua opção pró-europeia e conquistou sua primeira vitória na batalha pelos valores europeus, ao tirar a ditadura do poder. Hoje, não obstante todas as dificuldades, nossa união é mais forte que nunca. No dia 21 de março vamos assistir à assinatura do acordo de associação com a UE. É um sucesso para a Ucrânia e não pode ser apagado. Que ninguém duvide de nossa resiliência e determinação.

Fizemos nossa escolha e escolhemos a liberdade.

E mais uma coisa...

A Maidan ucraniana derrubou o despotismo criminoso. O povo venceu. Isso é bom, mas não podemos parar, porque hoje nosso vizinho tirânico quer conquistar a Ucrânia.

Somos um povo pacífico que não opta pela guerra. Mas, se é preciso, podemos fazer mais que apenas nos defender. Talvez até contra nossa vontade, agora a Ucrânia tem uma missão nova e maior: ajudar a quebrar a tirania de nosso Estado vizinho com nosso poder espiritual e moral.

A Ucrânia aprendeu a vencer e hoje possui a arma mais forte do mundo: o poder da vontade, da honra, da verdade e do espírito.

Hoje a Ucrânia não é apenas o centro geográfico da Europa -- é também o centro espiritual da vitória da democracia. O mundo reconheceu isso e se posicionou do lado da Ucrânia.

No sábado passado, Valeriya Novodvorskaya disse que a Rússia democrática está esperando que o exército ucraniano a liberte. É uma metáfora, obviamente, mas contém um grão de realidade.

Não vamos visitar ninguém com tanques e metralhadoras, mas temos um exército diferente. É um exército que não pode ser barrado por fronteiras, trincheiras, fortificações antitanques ou campos minados. É nosso exército ucraniano da liberdade, democracia, dignidade humana e espírito. E ele já está em marcha. A Ucrânia está cumprindo sua missão, que inclui a libertação da Rússia.

Acredito que tudo ficará bem.

Yulia Tymoshenko

P.S. Segundo a lenda, o mestre Kano caminhava pela floresta no inverno e viu dois galhos de árvore cobertos de neve. Um galho grosso se partiu sob o peso da neve, enquanto outro, um galho mais novo, se arcou sob o peso e então se endireitou, atirando a neve para longe. Foi assim que nasceu o judô, uma arte marcial cujo princípio básico é fingir submissão para vencer. Mas apenas fingir. A Ucrânia é aquele galho segundo, mais novo. Acho que há pelo menos um judoca célebre na Rússia que deve conhecer esta parábola.