OPINIÃO
13/02/2015 15:06 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

O que aconteceu quando meu marido e eu tentamos recriar uma cena de '50 Tons de Cinza'

Com a adaptação para o cinema, decidi dar outra chance ao livro. Afinal, um livro de pseudo-BDSM descrito como "mummy porn" (pornô para mamães) não poderia ser tão ruim assim, certo? Eu poderia até chamar meu marido para encenarmos uma das cenas de sexo. Nós dois fizemos teatro na faculdade, então não deveria ser tão difícil representar Christian e Anastasia, certo?

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Love heart made from a pair of thumbcuffs

Por Thien-Kim Lam

O único vinho que tínhamos era uma garrafa de Pinot Noir barato, presente do chefe de meu marido no Natal. Era horrível, mas meu marido estava disposto a encarar o vinho pelo bem de nós dois e tomar um cálice, em sua representação do papel de Christian Grey.

Sim, o bilionário Christian Grey, da famosa (ou infame?) obra erótica de E.L. James que tomou conta da nação três anos atrás. Enquanto muitas de minhas amigas leram Cinquenta Tons de Cinza de uma só vez, interrompendo a leitura apenas para descongelar um macarrão orgânico com queijo para o jantar das crianças, até agora eu só tinha conseguido ler duas ou três páginas antes de rir tanto que as lágrimas manchavam as palavras. Não sou novata em matéria de literatura erótica, mas o texto de James era tosco e imaturo demais para meu gosto.

Ou foi o que pensei.

Com a adaptação para o cinema prestes a estrear, decidi dar outra chance ao livro. Afinal, um livro de pseudo-BDSM descrito como "mummy porn" (pornô para mamães) não poderia ser tão ruim assim, certo? Eu poderia até chamar meu marido para encenarmos uma das cenas de sexo. Nós dois fizemos teatro na faculdade, então não deveria ser tão difícil representar Christian e Anastasia, certo?

Depois de folhear a primeira metade do livro, optei pela cena de sexo do capítulo 12 (principalmente porque eu não aguentava ler mais e porque a cena não exigiria muitos "acessórios"). Nesta cena, Anastasia acaba de voltar de fazer cooper, usando seu moletom velho de ginástica e, imaginamos, suas calcinhas de algodão do tipo "vovó", quando Christian chega ao apartamento dela de surpresa. Para responder a um e-mail irritado que ela mandou, ele veio pessoalmente para lhe mostrar quem é que manda. Spoiler alert: quem manda é Christian.

Para preparar nossa dramatização, escrevi um resuminho da cena para que meu marido soubesse o que fazer:

1. Amarrar Anastasia (eu) à cama com gravata cinza de seda.

2. Puxar minha camiseta para cobrir meu rosto.

3. Sair do quarto e buscar um cálice de vinho com cubos de gelo (aparte: por que diabos um connoisseur de vinho colocaria gelo no vinho?)

4. Trocar cuspe, beijos, vinho + gelo, boca a boca.

5. Derramar vinho em meu umbigo (estou supondo que o umbigo de Anastasia seja para dentro e feliz que o meu também é. Parece crucial para a cena.)

6. Beijar meu corpo todo.

7. Transar estilo cachorrinho.

Resumindo: tenho que estar amarrada à cama, vendada pelo fato de minha camiseta cobrir meu rosto e ser atiçada com vinho e gelo sobre meu corpo. Depois disso, meu marido vai colocar vinho em meu umbigo e eu não posso derramar nada, senão Christian, ou meu marido, não me deixará chegar ao orgasmo. Mas infelizmente Anastasia (eu) se contorce demais e derrama o vinho. Christian a atiça mais um pouco e então a põe de quatro (ainda amarrada à cama) para a melhor transa de sua vida. Todo o mundo chega ao final feliz.

Ok, podemos fazer isso. Podemos ser Anastasia e Christian.

Optamos por uma gravata vermelha de poliéster que meu marido só usa uma vez por ano (eu achei que um estampado escocês não seria um look bacana para meus pulsos). Vesti uma legging e uma camiseta velha, cheia de furos. Algo parecido com calça de moletom e calcinha de vovó. O único outro acessório necessário seria um cálice de vinho com gelo. Isso mesmo, vinho com gelo. Não ponho gelo no meu vinho desde a época em que tomava Boone's Farm nas festas do nosso grupo de teatro na faculdade, então, em lugar do Pinot Noir ácido, sugeri usarmos o uísque escocês single malt que meu marido toma.

As crianças já estavam dormindo. Reunimos todos os nossos acessórios. O papel com as instruções estava na mesinha de cabeceira de meu marido. Finalmente estávamos prontos para representar nossos papéis, passo a passo:

Primeiro passo: Meu marido amarra a gravada sedosa nos meus pulsos, e só então nos damos conta de que nossa cama não tem nenhum tipo de coluna. Nosso colchão fica no chão, então ele não pode sequer me amarrar a uma perna da cama. Decido erguer os braços sobre minha cabeça e fazer de conta que estão amarrados a uma cabeceira de cama imaginária feita de ferro trabalhado.

Segundo passo: Ele agarra minha camiseta e a puxa para cima, cobrindo meu rosto. "Não consigo respirar!", reclamo, ofegante. Ele afasta a camiseta para deixar minha boca e meu nariz livres. Ufa, que bom, um ar fresco. (Quem disse que o cavalheirismo já morreu?) De repente eu me lembro de outra coisa importante do capítulo 12. "Peraí!", exclamo por trás da camiseta. "No sétimo passo você tem que me dar uma palmada na bunda, como Christian fez. Esqueci de anotar."

Terceiro passo: Eu o ouço pegando a ficha para ler. Dou risada: "Você nem consegue lembrar o que vem agora!" Eu o ouço sair do quarto e ir à cozinha. Ele abre o congelador para buscar cubos de gelo, mas de repente ouço o som de batidas vindo do corredor. É como se ele estivesse dando palmadas. Ah, entendi, ele está dando palmadas nos cubos de gelo. Estão grandes demais para entrar em minha boca ou meu umbigo, então ele os está esmagando com uma colher grande.

Quarto passo: "Sentiu falta de mim?" pergunta meu marido em sua voz que presumo ser de bilionário tarado. "Shhh, não diga nada. Você vai me fazer rir e acabar com o clima." Declaro silêncio pelo restante dos passos. Ele me beija e solta o uísque dourado e friozinho em minha boca. Uau, esse é um scotch de primeira.

Quinto passo: De novo o som da maldita ficha. Esse barulhinho está estragando minha fantasia. Colocando a ficha sobre o criado-mudo, meu marido põe em meu umbigo um pouco de uísque e gelo bem socado. Uau - está GELADO MESMO.

Sexto passo: Neste ponto eu queria poder dizer que seguimos o roteiro, mas meu marido jogou a fichinha fora. Depois de 12 anos de casados, ele conhece todos meus pontos fracos e os que me deixam eletrizada. No calor do momento ele até me deu um tapão na bunda (só um, para não cairmos na gargalhada). Improvisamos bastante e foi um grande sucesso. Aliás, sucessos múltiplos ;)

Depois, quando estava quase adormecendo, meu marido sussurrou: "Acho que Anastasia e Christian não são tão ruins assim, afinal". E sabe de uma coisa? Ele teve razão.

A leitura de Cinquenta Tons de Cinza não me deixou em brasa, como Christian fez com Anastasia, mas...

... experimentar alguma coisa diferente na cama trouxe a diversão de volta à nossa vida sexual, por nos obrigar a ir devagar e curtir cada beijo, cada carícia, mesmo com mau jeito e tudo. Tínhamos entrado numa rotina sem perceber. O fato de meu marido trabalhar muitas horas por dia e de eu ficar até tarde trabalhando de casa significava que geralmente estávamos cansados demais para fazer amor. Quando conseguíamos energia suficiente para transar, o resultado, embora satisfatório, geralmente não era sexo do tipo que deixa você extasiado. Apesar do trabalho de encontrar os acessórios e espancar os cubinhos de gelo, as baixas (muito baixas) expectativas que tínhamos em relação à brincadeira eliminaram a pressão.

Não pretendo ler a outra metade do livro, mas aprendi uma coisa importante com E. L. James:

Conseguir rir quando você transa é tão importante quanto ser capaz de gemer de prazer.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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