OPINIÃO
05/12/2014 11:55 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

O que a morte de Michael Brown e a guerra às drogas têm em comum

Anadolu Agency via Getty Images
WASHINGTON, DC - DECEMBER 04 : Protesters demonstrate on the streets of Washington during a protest after two grand juries decided not to indict the police officers involved in the deaths of Michael Brown in Ferguson, Mo. and Eric Garner in New York, N.Y. in Washington, D.C. on December 4, 2014. (Photo by Samuel Corum/Anadolu Agency/Getty Images)

Esta semana em Ferguson, Missouri, participei de uma delegação de ministros religiosos para me erguer em solidariedade a milhares de organizadores e manifestantes que denunciam a injustiça praticada pela justiça dos EUA na semana passada. A notícia de que mais um policial branco saiu totalmente livre depois de matar um jovem negro foi um golpe debilitante, aplicado pela mão de um sistema de justiça criminal no qual eu deveria acreditar e confiar.

Muitos podem perguntar -- o que a morte de Michael Brown e a guerra às drogas nos EUA têm em comum? Minha resposta é simples: as vidas negras são importantes. E além das leis da escravidão e de Jim Crow [leis de segregação racial aplicadas no sul dos EUA entre 1876 e 1965] nenhuma outra política social ajudou tanto a desvalorizar as vidas dos negros quanto a guerra às drogas nos EUA.

Nos últimos 40 anos, arruinamos a vida de milhões de jovens negros, homens e mulheres, trancando-os atrás das grades, tornando seus futuros irrelevantes para o crescimento e o desenvolvimento dos EUA. Apesar do uso de drogas ser semelhante entre negros e brancos, os afro-americanos são presos com frequência 13 vezes maior que os brancos. Segundo Michelle Alexander, autora de The New Jim Crow: Mass Incarceration in the Age of Colorblindness [O novo Jim Crow: Encarceramento em massa na era do daltonismo], "há mais homens afro-americanos na prisão e na cadeia, ou em liberdade condicional ou provisória, do que havia escravos antes do início da Guerra Civil".

Se a vida dos negros importasse, os EUA reparariam esse sistema defeituoso e manteriam as famílias negras intactas, deixando de arruinar tranquilamente seus futuros por causa da simples posse de droga. Tornamo-nos complacentes e permitimos que nossos políticos aprovassem leis e políticas que tornam descartáveis as vidas de negros e pardos. Para piorar as coisas, utilizamos o uso de drogas e as políticas antidrogas como armas para demonizar e desvalorizar nossos seres amados. Por isso, usarei meu tempo em Ferguson para lembrar aos que estão reunidos lá que a vida dos negros é importante -- mesmo as de negros que usam e vendem drogas.

Estou em Ferguson carregando a bandeira do Fim à Guerra das Drogas. Acredito firmemente que a guerra dos EUA às drogas se tornou a base de nosso atual sistema de justiça defeituoso. A guerra às drogas incentivou os departamentos de polícia a transformar as comunidades de cor em campos de batalha, permitiu que os policiais se envolvam em combate aberto com jovens negros, homens e mulheres, parando, revistando e detendo-os com pouca ou nenhuma repercussão. Em todo o país, as cadeias e as prisões estão cheias com o futuro da América, e devemos nos revoltar.

Deixamos de notar esse monstro de três pernas porque ele se disfarçou de justiça e está mascarado de moralidade. Está na hora de pôr fim às políticas antidrogas que servem para desumanizar ainda mais as pessoas. Devemos parar de deter e prender jovens negros por crimes pequenos ligados a drogas, devemos reinvestir os recursos da guerra às drogas em comunidades marginalizadas, devemos pôr fim às sentenças mínimas obrigatórias, devemos trabalhar para reduzir as verbas da Agência de Repressão às Drogas e investir em um sistema de saúde pública que atenda os que necessitam de tratamento e outros serviços para lidar com seu uso de drogas.

Como disse certa vez o doutor Martin Luther King: "É na escuridão que as estrelas brilham mais". Eu acredito que este momento escuro na história do sistema de justiça criminal dos EUA trará ao primeiro plano os mais inteligentes organizadores e reformadores para desenvolver soluções que reafirmem a humanidade negra.

Pôr fim à guerra às drogas nos EUA é hoje uma parte central do discurso nacional sobre justiça, compaixão e dignidade.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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