OPINIÃO
03/02/2015 15:37 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

O que vamos fazer com as esperanças enormes dos cubanos?

As expectativas criadas são tão altas e tão dificilmente alcançáveis no curto prazo que muitos podem se decepcionar. Não há como a realidade corresponder a tais fantasias extravagantes de transformação. O nível de deterioração existente em Cuba requer recursos enormes e transformações urgentes para ser superado. O tempo é essencial, mas o governo cubano ainda não manifestou nenhuma vontade política real de que o novo cenário beneficie um espectro amplo da sociedade cubana.

"Qualquer frustração é filha de um excesso de expectativas".

Um gafanhoto da espécie "Esperanza" (esperança). (Silvia Corbelle)

Assim compartilhei meus temores com parlamentares norte-americanos que visitaram Cuba em janeiro. A frase visava destacar o fluxo de ilusões desencadeado na população desde o 17 de dezembro. O anúncio da restauração das relações diplomáticas entre Cuba e os Estados Unidos gerou neste país um ressurgimento de um sentimento perdido havia décadas: a esperança.

Mas as expectativas criadas são tão altas e tão dificilmente alcançáveis no curto prazo que muitos podem se decepcionar. Não há como a realidade corresponder a tais fantasias extravagantes de transformação. O nível de deterioração existente em Cuba requer recursos enormes e transformações urgentes para ser superado. O tempo é essencial, mas o governo cubano ainda não manifestou nenhuma vontade política real de que o novo cenário beneficie um espectro amplo da sociedade cubana.

Antes do 17 de dezembro, cada pessoa estava focada sobre aspirações em sua própria área de interesses e necessidades. Um velho engenheiro de locomotivas, que assistiu ao desmonte da ferrovia da qual falava com enorme orgulho, hoje fala: "Vocês vão ver... até trem-bala vamos ter". Se você lhe perguntar de onde vem essa convicção, ele lhe dirá que "quando los yumas - os americanos - começarem a chegar, vão melhorar os transportes e com certeza nos trarão investimentos para melhorar as linhas de trem e comprar os vagões de última geração". Os sonhos dele ganham a forma de uma serpente de ferro atravessando a ilha, reluzente e veloz.

Há outros cujas ilusões assumem a leveza de um kilobyte. Um rapaz de 20 anos que só conhece a internet por algumas poucas horas de conexão lenta e cara numa sala de internet Nauta diz que até o final do ano "vamos ter serviços de dados em nossos celulares". Sua certeza não nasce de qualquer informação classificada à qual ele porventura tenha acesso, mas porque, como ele explica, "Obama já falou que sim, as empresas de telecomunicações podem negociar com Cuba, então o que está faltando para eu poder me conectar ao Facebook e ao Skype o dia inteiro não é nada, nada".

A grande obsessão nacional, a comida, também encontra espaço nos sonhos imaginativos das últimas semanas. Uma dona-de-casa que se descreve como "farta de ter de cozinhar sempre a mesma coisa, porque não há mais nada", projetou suas ilusões sobre a chegada de mercadorias do norte. "Alguns produtos que sumiram vão reaparecer. As geladeiras das lojas não vão ficar vazias, como agora." As previsões dela são diretas e claras; ela antevê o sabor perdido da carne bovina, a textura do óleo e o aroma de uma cebola dourando na panela.

Os pequenos empreendedores não ficam muito atrás. Para o dono de um restaurante particular luxuoso no bairro de Vedado, a esperança assume a forma de um ferry-boat que ligue Havana à Flórida. "Vai chegar logo, e então vamos poder trazer carros, importados grandes e alimentos frescos para nosso cardápio", ele explica com uma convicção que provoca certa negação angustiada. Ele dá a impressão de que um salão cheio de comensais, com bebidas, garrafas de vinho e iluminação suave, vai atravessar o mar e chegar ao novo espaço que ele está construindo ao lado de seu restaurante.

Enquanto as expectativas crescem como um balão prestes a estourar, outros contribuem para elas com projeções do campo artístico e criativo. Um amigo, produtor privado de cinema, acredita que em breve "Hollywood pode filmar aqui, e os talentos cubanos finalmente terão os recursos para encarar grandes produções". Para esse artista do cinema, "o que está faltando é um apito de largada para autorizar as produções independentes e permitir que tenhamos investidores dos EUA".

Entre a dissidência e a sociedade civil, muitos se preparam para legalizar seus grupos ou partidos na primeira oportunidade. Entre os esperançosos, eles são os mais cautelosos, porque sabem que a torneira das liberdades políticas será a última a se abrir... se chegar a ser aberta. Eles projetam sua própria transição da "fase ilegal, clandestina e heroica" à etapa da "oposição legal, pública e inteligente". E não deixemos de mencionar as ilusões que chegaram à academia cubana, às escolas e outras instituições oficiais, onde as pessoas estão lustrando suas ideias antigas de mergulhar com tudo na arena da política a partir do momento em que o sistema unipartidário for uma lembrança ruim do passado.

Todas essas esperanças, nascidas no Dia de São Lázaro e alimentadas por visitas de parlamentares e negociadores americanos a Cuba, agora são uma faca de dois gumes para o governo da ilha. Por um lado, a presença de tantas ilusões lhe compra tempo e situa o horizonte ao final de um longo processo de conversações entre as duas administrações, algo que pode se arrastar por anos. Por outro lado, o desapontamento decorrente da frustração ou do adiamento desses sonhos será focado diretamente sobre a Praça da Revolução.

A indignação provocada por tal frustração será voltada não contra Obama, mas contra Raul Castro. Ele tem consciência disso, e nas últimas semanas seus porta-vozes vêm ressaltando a importância de moderar as expectativas que lotam as ruas do país inteiro. Estão tentando prever que tudo ficará mais ou menos igual e que muitas expectativas não poderão ser atendidas. Mas não há nada mais difícil que combater sonhos. O peso simbólico do início do "degelo" entre Davi e Golias não pode ser amenizado com chamados por calma nem com discursos enérgicos que apontem para uma suspensão das negociações.

Quando os meses se passarem e o "trem-bala" não chegar, a internet continuar impossível, as geladeiras das lojas ainda estiverem tão vazias quanto estão hoje, as regras da Alfândega continuarem a bloquear a importação privada de bens comerciais, o Instituto Cubano da Arte e Indústria Cinematográfica (ICAIC) conservar seu monopólio sobre a produção cinematográfica e ser membro de um partido de oposição ainda resultar em repressão oficial e estigmatização ideológica... quando a bolha dos sonhos estourar e as expectativas excessivas gerarem frustração coletiva, o que vai acontecer? Talvez nasça disso a energia necessária para impulsionar mudanças.

14ymedio, o primeiro veículo noticioso cubano digital diário e independente, publicado diretamente a partir da ilha, pode ser acessado aqui em espanhol. Há traduções de artigos selecionados em inglês, aqui.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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