OPINIÃO
28/12/2015 19:01 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Quem são os realizadores?

Eu sou Yasmin Thayná, uma realizadora há sete anos. Sou da Baixada Fluminense, de Nova Iguaçu e vi no cinema uma possibilidade de romper com toda a ideia de pobreza que sempre me foi colocada durante a minha vida.

Chris Stein via Getty Images
Studio portrait of woman holding clapperboard, with shadow behind

Publico aqui a carta que escrevi à Semana dos Realizadores, que foi realizado no final do mês passado, aqui no Rio de Janeiro. O festival, em sua sétima edição, levou a discussão "Construção e desconstrução do feminino/masculino no cinema brasileiro contemporâneo", onde das 7 mulheres presentes no debate, apenas uma era negra, Isabel Martins Zua, atriz e bailarina portuguesa.

Um salve todo mundo da Semana dos Realizadores! Eu sou Yasmin Thayná, uma realizadora há sete anos. Sou da Baixada Fluminense, de Nova Iguaçu e vi no cinema uma possibilidade de romper com toda a ideia de pobreza que sempre me foi colocada durante a minha vida. Escrevo de Cabo Verde, aqui no Continente Africano, pois vim exibir o KBELA num Festival de cinema internacional aqui. Eu e mais 3 mulheres negras realizadoras do Brasil. E por isso não pude estar presente hoje com vocês.

Quero dizer que eu gostaria que a nossa discussão pudesse ser mais no sentido de construir e encaminhar ideias para a gente diversificar o cenário do cinema nacional, por mais estranho que seja afirmar isso, já que vivemos num país com tantos povos, línguas, culturas, pessoas. Mas me parece que no cinema isso ainda não se expressa da maneira que deveria. Para exemplificar, a Semana dos Realizadores não tem nessa edição nenhuma mulher negra realizadora, e eu fiz questão de olhar todos os rostos dos realizadores desse ano. Vi um número significativo de mulheres (brancas) e fiquei feliz que o filme que abre o festival é de André Novais, quem admiro e falo sempre.

Minha proposta para os vossos curadores não é que vocês a partir de agora olhem os rostos, cor e gênero dos cineastas que se inscrevem na Semana dos Realizadores antes de assistir aos filmes, mas que todos os realizadores que estiverem presentes nessa sala e que realmente estejam interessados a mudar essa representação e representatividade dentro do cinema nacional, pensem e FAÇAM ALGUMA COISA em relação a isso.

Não afirmo que é de responsabilidade da curadoria da Semana dos Realizadores o fato de não haver cineastas negras em evidência no cenário, mas é de nossa responsabilidade, nós que fazemos cinema, nos perguntarmos quantos negros e negras compõem os nossos sets de filmagem. Quantos cineastas negros e negras conhecemos e sabemos referenciar numa roda de conversa. Não adianta vocês falarem 10 nomes de realizadores que se encaixam nesse perfil se somos 57% da população brasileira sendo a maioria desses 57% composta por mulheres negras. E não adianta falar 10 nomes para dizer que tem sim cineastas negros se o olhar do cinema brasileiro é esmagadoramente branco e masculino. Se o Fundo Setorial do Audiovisual contempla IGUALMENTE pessoas nesse perfil, o que NÃO REPRESENTA o Brasil.

Me espanta o fato da Zua ser a única mulher negra na mesa que discute o feminino no Brasil e se ela representa exatamente a maioria das mulheres que compõem o país. Mas ela além de não estar na programação do festival ainda é a ÚNICA na mesa de discussão. O filme que se destacou no Brasil esse ano sem dúvidas é o de Ana Muylaert. E entre tantas questões, a que grita em nossos ouvidos é a discussão do privilégio.

O meu desejo é que vocês, que eu acredito que estejam mais a fim de mudar essa parada, pensem no privilégio que vocês têm e construam algo para que tenham mais mulheres negras na cadeia produtiva do cinema. Porque elas existem, mas vocês não se importam. Vocês se quer estão conectados com elas.

O Brasil de Todas as Telas não pode ser só branco. Proponho: o que vamos fazer para que o Brasil de todas as telas seja de todas as telas mesmo? Eu tenho a esperança que essa pode ser uma conversa produtiva e que vai mudar este cenário. Eu volto logo mais para o Brasil e quero continuar construindo dessa conversa de hoje e com quem estiver a fim de pensar em DIREITOS porque nenhuma pessoa nesse país que queira fazer cinema e exibir suas produções deve ser privado DO DIREITO de fazer cinema pelo seu gênero ou cor de pele. A dignidade de uns é a dignidade de todos!

Praia, 22 de novembro de 2015.

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