OPINIÃO
07/03/2014 19:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Os hereges de Santa Cruz

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Enrique Coimbra, ou como ele mesmo diz na internet, e por onde passa, Enrique Sem H, tem 21 anos, mora na Praia da Brisa, na Zona Oeste do Rio, e lançou semana passada o livro Os Hereges de Santa Cruz, uma história sobre bruxaria, drogas, juventude, fúria e imortalidade. Hoje, escreve para o site Discípulos de Peter Pan, voltou a escrever seus livros e mantém vídeos no Vlog "Sem H". Escreve e ilustra quadrinhos desde pequeno e os 15, lançou a Série Literária Lado B na internet, que são e-books sobre descoberta sexual inspirados na série The O.C. "Quase um The O.C. gay misturado com De Repente Califórnia (Shelter, 2007)", disse ele.

Até o ano passado, Enrique estudava Design Gráfico para "fazer a vida valer com um diploma", como diz. "Aprendi que a gente só é bem-sucedido se tiver um", disse Enrique, que já foi estagiário de uma empresa de design e recebia um bom salário, mas isso não dava conta de seus desejos. "Estava infeliz porque não tinha tempo e cada vez me distanciava dos meus sonhos".

Uma das antigas vontades dele era ser ator de cinema, interrompida quando percebeu que faria parte de sua rotina lidar com o ego dos outros e com o próprio. "Me fez mais mal do que bem. Confesso que a falta de dinheiro e a distância (sair de Sepetiba, onde moro, para Botafogo) me desanimaram. Acredito que a vida só vale a pena quando a gente tem o que precisa por perto, não tendo de pegar um ônibus de R$ 3,00 para levar 3 horas pra chegar ao destino", afirmou.

Por ter certas dificuldades em contar sobre sua vida, angústias e desafios para outras pessoas, Enrique acredita que escrever não é só o que gosta de fazer. Ele também utiliza esse recurso por uma necessidade. "Eu tenho que escrever, não é muito uma opção. Apesar de sociável quando necessário (e bastante pela internet), tenho dificuldades para me abrir com as pessoas sobre o que sinto. Quando uma história nasce, geralmente em livros inteiros e não em contos, vêm de algo que vivi mas não conto pra ninguém. Sou imaginativo, prefiro idealizar relacionamentos, por exemplo, do que vivê-los de verdade. Por isso, preciso escrever pra não ficar maluco, compartilhar essa intimidade criativa, ver se alguém se identifica", revelou.

Apaixonado por bruxas e pela estética de filmes como Jovens Bruxas (The Craft, 1996), Escalofrío (Escalofrío, 1978), Enrique durante suas leituras sempre notou personagens que vivem todo o excesso e no desfecho da história, querer inverter a situação.

Em um dia despretensioso, assistiu ao filme Os Garotos Perdidos (The Lost Boys), e teve os primeiros insights para escrever o seu livro. "O filme é sobre vampiros adolescentes que andam de jaquetas de couro, correndo sobre motos, morando numa praia e completamente fora da linha, diferente do que vemos hoje -- personagens querendo entrar na linha. Senti falta disso nas minhas leituras, de criaturas imortais que querem viver do excesso, do que a capacidade de não morrer ou envelhecer pode oferecer".

Diante disso, ele resolveu juntar as peças do que viu e remixou a estética de filmes como VHS (VHS, 2012) e A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999) e trouxe tudo para a periferia, onde ele mora, entre Sepetiba, Santa Cruz e Praia da Brisa (que é sub-bairro de Guaratiba). "Quis criar protagonistas desgraçados, pobres de dinheiro, pobres de utopias, que acham que as coisas só valeriam se pudessem manipular o mundo horrível ao redor ao comando de suas vontades. Se tornarem deuses. Isso acontece quando Écio, Guido e Thaísa esbarram com cinco motoqueiros bizarros, exagerados nas drogas e atitudes, imorais e imortais, que oferecem essa possibilidade a eles. Afinal, se você tivesse 20 anos, se tivesse desistido do colégio por repetir o 3º ano pela terceira vez por causa da ressaca que não te deixa levantar da cama, e se sua família fosse completamente desfuncional, acreditar que feitiçaria poderia mudar sua rotina pra melhor não seria uma ótima desculpa pra vender a própria alma?" Questionou.

Para o escritor, a maioria das histórias no campo da literatura que curte, é sempre jovem adulto ou adulto demais, de classe media e classe media alta, que não o contempla, o que não o faz viajar. "Eu queria um livro que eu pudesse ler e dizer: se eu estudar magia, vou poder fazer isso! Não é como Harry Potter (que eu amo). Não tem varinha, não tem show de luzes. Tem teorias do mundo real sobre a alma, inspirações em religiões como Kardecismo e Wicca, esoterismo, Goetia e Alta Magia. Como adoro ler sobre o oculto e amo a estética, achei que era o momento de escrever o livro que eu gostaria de ler".

Agora imagine você totalmente isolado do mundo inteiro, virtual e real, durante 4 semanas, abandonando a faculdade e o seu trabalho. Foi nesse ritmo que Enrique escreveu 350 páginas de uma só vez, tornando, assim, viável seu projeto literário. "Abandonei tudo só pra fazer isso e administrar meu site, o Discípulos de Peter Pan (DDPP), aceitei a falta de dinheiro de não poder sair ou me distrair com outras coisas ficando em casa e apostando num sonho, numa necessidade e na vontade de, um dia, sobreviver disso", disse Enrique que não precisou de nenhuma editora para colocar sua história no mundo. "Sinceramente, publicação independente não me incomoda ou faz com que eu me sinta menor. Acredito no cenário virtual e na honestidade de publicações próprias, que, quase sempre, é sinônimo de amadorismo, mas já li grandes obras dessa maneira", afirmou.

O livro carrega o nome de um dos bairros mais afastados do Centro do Rio de Janeiro, Santa Cruz. Essa escolha aconteceu por dois motivos: por querer ler uma história que não existia sob a temática que adora e que se passasse perto de onde vive. "Geralmente, livros assim vêm de fora, dos Estados Unidos. E as personagens sempre são da classe média/alta, por volta dos 15 anos e femininas. Eu quis me relacionar com a realidade da periferia onde vivo, com a falta de dinheiro, a falta de esperanças acadêmicas, com problemas sérios dentro de casa e as maneiras de se entorpecer para não sentir esse peso. E, convenhamos, falar de heresia e bruxaria num bairro chamado Santa Cruz, com peso histórico católico, casou muito bem", disse Enrique.

O corpo do software das histórias de Enrique é composto pela organização dos personagens e sinopses bem definidas quando começa a planejar escrever. "Monto todas as sinopses de todos os capítulos, faço a 'bíblia' das personagens com seus perfis e imagens, tudo num caderno dedicado. No computador, romantizo o 'esqueleto' do universo. É mais fácil assim porque não existe esse negócio de 'trava' criativa. Tendo as sinopses em mãos e toda a história definida, o que mudar vai acontecer naturalmente, quando ela 'tomar vida' e as personagens agirem sozinhas, de acordo com suas personalidades", contou.

Os Hereges de Santa Cruz é a história de três jovens, Écio, Thaísa e Guido, que possuem, aproximadamente, 20 anos, e sempre foram apontados como as aberrações do bairro por andarem de preto, matarem aula para beber vodca de baixa qualidade e ouvirem rock. Segundo o autor, os jovens usam isso como armadura porque se sentem à parte do ambiente em que vivem, diferentes da cultura da periferia, sendo julgados, inclusive, pelas suas famílias. Para melhorarem o modo de viver, passam a estudar e praticar magia na esperança de, um dia, conseguirem manipular a realidade ao redor, darem certo na vida e devolverem em dobro tudo o que as pessoas fizeram contra eles. "Esbarram com motoqueiros numa feira de religiões alternativas, passam a beber e se drogarem juntos, correndo de moto. Até descobrirem que os caras são imortais e querem dar essa 'vantagem' de presente para os três. Claro que há um preço salgado, mas estavam acostumados com uma rotina salgada. Então aceitam a possibilidade e abusam dela. Mas a natureza arranja seus jeitos de manter o equilíbrio: tudo que vai, volta. E eles não estão perto de santos. Estão mais para hereges. No meio disso têm muitos espíritos, velas, tabuleiro Ouija, cigarros, brigas e questionamentos sobre o que é liberdade".

Além dos Hereges, Enrique disse que o "Discípulos de Peter Pan" é o site que mudou sua vida. Por querer se tornar uma pessoa melhor, passou a compartilhar os aprendizados da vida na internet. "O retorno tem aumentado e isso me completa. Falo de comportamento, novas perspectivas para apreciar a vida pelo lado mais positivo, pensando menos em dinheiro e carência", disse ele que, além dos Discípulos, alimenta o O Vlog Sem H no YouTube. "É como o DDPP, só que mais pessoal, onde sou mais incisivo com certos assuntos, sempre relacionado à vida e contato com outras pessoas (pois tenho dificuldades para conviver com elas). E agora vem 'Os Hereges de Santa Cruz', que marca minha estreia no mercado. Pretendo lançar mais 2 ou 3 ainda esse ano, incluindo a segunda parte desse título (tive de dividir porque ficou grande e o foco é vender pela internet com o preço mais baixo possível)", finalizou.

Para saber mais sobre o livro, acesse: http://www.osheregesdesantacruz.tk/

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