OPINIÃO
12/05/2014 17:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Os excluídos do TED Fellows

Reprodução/YouTube

Sexta, dia 9 de maio, tentei participar do TED Fellows, que aconteceu na Urca, no Instituto Europeu de Design. Recebi um convite da organização com a seguinte descrição.

"O programa TED Fellows reúne jovens inovadores de todo o mundo para compartilhar seus trabalhos, participar da comunidade TED, e desenvolver novas habilidades. A cada ano, membros da organização TED selecionam quarenta indivíduos (os Fellows), os convidando para uma conferência privada em conjunção com o TED ou TED Global. A conferência dos Fellows oferece acesso a uma rede de contatos exclusiva, workshops de desenvolvimento de capacidades oferecidos por especialistas mundiais, e a chance de apresentar seus trabalhos para a comunidade TED em uma palestra dada no palco, que é filmada e considerada para a plataforma TED.com.

Os TED Fellows representam todas as disciplinas, incluindo tecnologia, entretenimento, design, ciências, medicina, artes, fotojornalismo, cinema e direitos humanos, para citar alguns. Desde que o programa foi iniciado em 2009, 329 Fellows de 85 países participaram de uma conferência TED ou TEDGlobal, incluindo fellows do México, Costa Rica, Chile, Brasil, Venezuela, Equador e Espanha. O programa TED Fellows é uma família global, e nós encorajamos especialmente candidatos latino-americanos a se inscreverem para concorrerem a uma vaga entre os TED Fellows do TEDGlobal 2014 que ocorrerá no Rio de Janeiro, Brasil*.

Como resultado do programa, os TED Fellows receberam milhares de dólares em financiamentos, tanto sob a forma de investimentos quanto de doações. Muitos receberam prêmios de prestígio, e/ou conseguiram contratos com agentes de palestrantes ou ainda para lançarem livros. 52 palestras dos TED Fellows foram adicionadas ao conteúdo da plataforma TED.com, com mais de 25 milhões de visualizações coletivamente. Os TED Fellows reportaram ainda maior claridade a respeito de suas missões, auto-estima aumentada e um novo senso de sustentabilidade financeira e de balanço entre trabalho e vida pessoal. Acima de tudo, os Fellows desenvolveram colaborações importantes uns com os outros e permanecem como parte da comunidade integrada e ativa de TED Fellows muito além do ano em que participam da conferência em si."

Essa descrição mostra a importância de se ocupar o evento. Ocupar no sentido de participação de novas pessoas, novos empreendedores, novos fazedores. Quando eu digo novo é novo mesmo, pessoas que estão impactando sem ter, ao menos, um investimento financeiro ou "capacitação" oferecida por pessoas externas. Essas pessoas que viabilizam suas ações na correria, com os amigos, promovendo, de verdade, as trocas entre pares, conseguindo colocar desejo e força coletiva em ações de grande impacto social, de transformação do lugar e da vida de muitos indivíduos.

Não estou falando de uma pessoa de classe média, criado na zona sul, que frequenta o Instituto Europeu de Design e desde pequeno está inserido nas grandes redes, podendo fazer o que quer, sem precisar perder noite de sono tornando os seus próprios desejos em sonhos coletivos para mudar não só a própria vida, mas a de quem compartilha a mesma rua com ele. Importante ressaltar que assim que cheguei, percebi, apenas, dois negros no local de convidados: eu e o Bruno do Capão. A Ana Paula chegou depois para somar na participação das mulheres negras que nunca participam desse tipo de construção porque são invisibilizadas pela própria produção desses eventos. Ser mulher já é, em muitos casos, ser invisibilizada. Imagina ser mulher negra?

Compartilhei a frustração com o Diego Bion, de Nova Iguaçu, do Cineclube Buraco do Getulio, o Cadu Barcelos, cineasta do Complexo da Maré, Ana Paula Lisboa, do Complexo da Maré, empreendedora na Grife Páprica, Bruno Capão, do Capão Redondo, Criativista do Ateliê Sustenta CaPão, São Paulo, e com o Anderson Dinho, da Universidade da Correria, morador de Cascadura aqui no Rio, e quem também produziu o TEDxMaré.


Todas essas pessoas que citei foram convidadas. Receberam um e-mail oficial da organização com material todo em português. Não houve qualquer menção em relação ao idioma que seria usado no encontro. Chegamos lá não entendemos nada e ainda recebemos como resposta: estude inglês.

Queríamos sim poder participar da palestra inicial do TED Fellows mas, infelizmente, foi inviável porque nenhum de nós sabíamos inglês. É revoltante. Levantamos, reclamamos no microfone, não deixamos para lá esse assunto. Fomos até a produção e conversamos. Fomos bem acolhidos na conversa pelos organizadores que assumiram o erro e colocaram como possibilidade fazermos eventos como o TEDx em nossos territórios.

Achei ótima a conversa e até mesmo a citação que eles deram sobre o evento que aconteceu em um país na África onde conseguiram fazer com que as pessoas conversassem e entendessem. Claro, todas as pessoas que sabiam inglês participaram. Não vale dizer que um lugar pobre da África participou sem mencionar o fato que várias pessoas como nós, que não sabiam inglês, provavelmente, ficaram de fora.

Acho que o ponto levantado foi: tem muita gente interessada em participar de eventos como esse. É muito gentil nos dar a senha para assistirmos a palestra traduzida, mas o que queremos não é ser telespectadores, é participar ativamente de tudo que foi mencionado no convite: compartilhar nossos trabalhos, participar da comunidade TED, desenvolver novas habilidades, participar da conferência em conjunção com o TED ou TED Global, acessar essa rede de "contatos exclusivos", estar presente nos workshops de desenvolvimento de capacidades oferecidos por especialistas mundiais, entre todas as outras coisas ditas. Não é justo que a barreira inicial do idioma não nos deixe atravessar esse tipo de construção. Não deixar acontecer um encontro entre pessoas que querem conversar por causa do idioma é definir quem pode ou não se encontrar. É a mesma lógica do planejamento geográfico que não foi feito para os encontros. O fato de não sabermos o idioma que é "falado pelo mundo inteiro" traduz todo um problema histórico, que o TEDx ou TED Fellows não vai resolver, mas que poderia ter um olhar mais sensível sobre isso.

Será que vocês não conseguem enxergar que o fato de não falarmos a mesma língua não pode limitar a nossa conversa? E mais, não pode desqualificar o que fazemos.

Como disse o Bruno do Capão: "viabilizei minha vinda em dois dias". Viabilizar voluntários que falem o mesmo idioma que o nosso e nos ajude a entender e passar o que queremos falar é uma possibilidade. Cabe a produção ter bem definido em seu plano que quem sabe inglês também pode participar do TED Fellows. Não é só para a gente, é para vocês terem um alcance maior, poderem chegar em novas pessoas, em outros contextos, em novas redes.

O evento foi produzido em 8 dias, o que não justifica a falta, inclusive, de troca entre os membros brasileiros sentados na plateia que sabiam inglês (a maioria) e não levantaram a mão para ajudar na tradução. Com exceção do Vinicius Machado, do GOMA, Marcos Andrade Brandão e Marconi Pereira, que viabilizaram a nossa conversa com o Tom Rielly, criador do TED Fellows. Cabe a vocês agora pensar em ampliar essa possibilidade. Só assim acreditarei que o TED estará, de fato, colaborando para uma mudança legítima que nós apostamos.

O Romario Regis é da Agência PapaGoiaba em São Gonçalo e não participou do evento porque não foi respondido pela organização, que o convidou e não retornou o contato. Vale a pena ler o texto que ele escreveu sobre.

"Não vou mais em nenhuma empresa, projeto ou consultor que fala que quer ouvir as demandas de minha cidade, mas só quer captar recursos me usando como commodity de informação para seu banco de dados, para se dizer próximo da Classe C e dos jovens realizadores."

E ainda o texto de Diego Bion, do Cineclube Buraco do Getúlio: