OPINIÃO
29/02/2016 16:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

O que a Glória Pires e o Oscar nos ensinaram sobre racismo e meritocracia

Já tem alguns meses que a gente vem assistindo a mobilização em torno do Oscar 2016 (o que algumas pessoas e jornalistas gostam de nomear como "polêmica").

Acredito que boa parte das pessoas que se mantiveram informadas sobre a questão, esbarraram em textos relacionados à ausência de negros indicados para as premiações desta edição, visto que 2015 foi um ano com alguns filmes protagonizados por excelentes atrizes e atores negros.

Tanto é que a academia, responsável pelos indicados e vencedores do prêmio, reagiu e assumiu que a questão da "diversidade" era importante, e assim um debate qualificado rolou no mundo inteiro por alguns dias em relação a isso.

Não só um debate, como também uma grande mobilização entre famosos cineastas, atrizes e atores negros e negras a um possível "boicote" ao prêmio.

Acredito que esse episódio possibilitou aquele momento mágico de "parar para refletir" na vida de muitas pessoas que talvez nunca antes tiveram a chance de fazer esse recorte para entender que é sim importante discutir e pensar sobre racismo, já que, tradicionalmente, as narrativas globais sempre foram protagonizadas e dirigidas por pessoas brancas.

Ontem eu assisti a noite de premiação do Oscar pela Rede Globo. E dei bastante risada, assim como boa parte, acredito eu, dos que assistiram por lá e se manifestaram nas redes sociais criando, curtindo e compartilhando na rede memes, gifs, entre outras imagens e textos. Alguns deles em sua maioria sobre a atriz Glória Pires, que foi escalada para comentar a premiação.

Pires disse durante seus comentários que "não assistiu alguns filmes" e que "não era capaz de opinar" sobre determinados aspectos.

Veja bem: estamos falando da Rede Globo, uma emissora que, em seu discurso, sempre prezou pela qualificação de seus conteúdos e sempre apostou em pessoas de excelência profissional, ainda mais tratando-se de "comentaristas".

Essa função pressupõe um ambiente de reflexões qualificadas sobre determinados pontos que, de fato, acrescentem algo para quem está assistindo. O espectador espera que o profissional acrescente algo e ajude a perceber certas nuances sobre o que está assistindo.

Pois bem.

E como não relacionar isso com a questão racial?

De cara eu ri e até fiz piada nas redes sociais, dizendo "você pode trocar Glória Pires pela voz da mulher do Google, por exemplo".

Mas, depois, pensei:

Achamos engraçado a Glória Pires, em sua condição de comentarista do Oscar 2016, dizer com a maior segurança do mundo que não assistiu aos filmes e que não é capaz de comentá-los.

Mas se fosse um negro ou uma negra fazendo a mesma coisa, a reação seria outra.

E eu tenho alguns motivos para afirmar isso.

Lembro de um discurso que sempre aparece quando apontamos a ausência de negros nesses espaços.

O clássico é: "se o negro quer estar lá, é só estudar e se qualificar que consegue."

Mas Glória Pires pode não ter visto nenhum filme. Ela mesma pode, inclusive, jogar na cara do Brasil inteiro que "não é capaz" de comentar sobre determinados pontos e mesmo assim estar num lugar de comentarista qualificada.

Por que para uns a qualificação importa e para outros não? Por que a Glória Pires se sente confortável de dizer que não é capaz de exercer sua função, enquanto um negro precisa o tempo todo se mostrar bastante qualificado e impecável nessas e outras situações?

Tem uma parte da música "Vida é desafio" dos Racionais MC's que o Mano Brown diz assim:

"Tem que acreditar.

Desde cedo a mãe da gente fala assim:

'Filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor.'

Aí passado alguns anos eu pensei:

Como fazer duas vezes melhor, se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses... por tudo que aconteceu?

Duas vezes melhor como?

Ou melhora ou ser o melhor ou o pior de uma vez.

E sempre foi assim.

Você vai escolher o que tiver mais perto de você,

O que tiver dentro da sua realidade.

Você vai ser duas vezes melhor como?

Quem inventou isso aí?

Quem foi o pilantra que inventou isso aí?

Acorda pra vida rapaz"

É impensável um negro reproduzir em rede nacional a mesma postura de Glória Pires e as pessoas acharem que "tudo bem".

Ninguém relacionou o péssimo desempenho dela com o fato dela ser branca.

Aliás, a gente não viu a ciência querendo provar que o cérebro do branco era inferior ao do negro.

Foi o contrário. E o que determinou isso foi a cor de pele das pessoas.

Quem domina os espaços de poder pode até dizer por aí em situações em que é confrontado que "somos todos humanos e que a cor não importa", mas nunca de fato acreditou e nem pratica isso de verdade.

O trecho que destaquei da música dos Racionais explica exatamente o motivo pelo qual estou levantando essa bola.

Não dá para achar que ficaria por isso mesmo se fosse um negro no lugar da Glória Pires com a mesma postura que ela teve.

Ouso arriscar (por ser negra e conviver com situações como essa diariamente) que sendo um comentarista negro, muitas das piadas reforçariam sim, com toda certeza, a questão da pessoa ser negra, pois historicamente o negro sempre foi essa pessoa que "não é capaz" de estar em certas posições, ainda sendo ele alguém "qualificado".

Nós, negros, não podemos ser apenas qualificados. Temos que, desde cedo, passar por uma violência que é ter que viver com a ideia de ser melhor sempre. Ter a certeza na vida de que não tem segunda chance, que não pode "dar bola fora", que não pode errar.

A ideia de que precisa ser impecável e ser qualificado duas vezes.

E, muitas vezes, o que vem primeiro, infelizmente (como assistimos ontem mesmo em rede nacional), não é uma qualificação exigida pelo mercado. Mas sim uma "qualificação" relacionada ao fator "cor de pele."

Quem você é vai determinar qual é o tipo de qualificação você vai precisar ter. E quando eu digo "quem você é" não estou falando de "você como pessoa, caráter, personalidade, profissional", apenas. Estou falando quem você é no seguinte sentido: negro ou branco.

Pode crer: se você for negro, ser qualificado vai ter peso dois na sua vida.

A questão principal que levanto aqui é essa: por que os brancos podem usufruir desse privilégio que é ser totalmente desqualificado e a gente normalizar isso, enquanto o mínimo que um negro pode ser é impecável duas vezes?

Percebe que a relação é diferente?

E por que a gente precisa acreditar que não existe diferença?

Por que a gente precisa engolir discurso de que a cor não importa quando apenas rimos da Glória Pires e eliminamos da vida profissional terrestre qualquer negro que tiver uma atitude como a dela?

Qualquer pessoa negra pode se deparar com isso em algum momento da vida. Você, negro, pode ter mestrado, doutorado, pós doutorado, ter estudado em Princeton, Stanford, Haward, MIT. Mas se você for negro, vai precisar continuar provando, todos os dias, que você é qualificado.

A regra do jogo diz que diploma e qualificação nenhuma no mundo, hoje, é capaz de te livrar dessa situação. Sendo negro e ocupando um espaço de poder falar e ser ouvido, você não pode não ser capaz de ser, no mínimo, impecável duas vezes ao comentar sobre algum assunto.

A Glória Pires não. Ela pode. As pessoas brancas podem.

E a gente precisa mudar isso.

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