OPINIÃO
12/08/2014 13:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Lugar onde o sonho do negro é não ser negro

Quando um grupo de meninas começa a discutir raça pelo cabelo elas estão fazendo política! A luta não é pelo aplauso, a luta não é para ditar que a sociedade tem que ver o cabelo, a pele de negro como bonito, mas vê-lo como GENTE.

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Fui comprar o presente do meu pai atrasado e achei que ia sofrer violência física por ódio ao meu cabelo. Hoje moro numa área perigosa do Rio de Janeiro, conflito polícia x tráfico rola diariamente. Não tem hora. Tem dia que posso vir para casa e tem dia que não posso. Tem dia que tem corpo no chão na esquina às 18h. Aqui não pode vacilar, não rola de ficar arranjando confusão nem discutir com alguém mesmo que você esteja certo. Aqui você ouve qualquer parada e tem que ficar calado. Viver à base do medo de falar.

Fui comprar uma lembrança pro meu pai na praça aqui de casa e 7 moleques começaram a me humilhar. Eu nunca os vi na vida. Nem olhei para eles. Mas só de parar na frente deles, eles sentiram a obrigação de me falar textos completamente racistas e machistas. Todos relacionados ao meu cabelo. De "vai lavar esse cabelo" a "se o cabelo tá assim imagine a buceta".

Saí de perto. Firme. Mas o caminho era aquele, eu precisaria passar perto deles. Passei de novo decidida a agir. Era tudo ou nada. Eles podiam me bater, era a única coisa que consegui pensar. Mas fui decidida que não daria um tapa.

Passei na frente deles. Estavam lá: os sete. Assim que me viram, "olha ela!" Alertando os outros anônimos que estavam perto deles. Claro, quanto mais gente olhar, maior o constrangimento. E eles começaram outra série de humilhações. Eu parei na frente deles, reta, firme, e comecei a olhar no olho de cada um. Em silêncio. Pude sentir o gosto amargo da boca deles em cada olhar. Dois não aguentaram, desviaram o olhar. Fiquei em pé um minuto imóvel esperando qualquer som. O silêncio era absoluto. Eles ficaram apavorados. Mexi na bolsa, peguei meu celular e tentei ligar. Não ligava de jeito nenhum, estava apagado. Em 10 segundos, antes mesmo de colocar o celular na bolsa (fiz toda ação olhando para eles), não restou nenhum. Pegaram o primeiro ônibus que apareceu. "Melhor a gente se adiantar", disse um deles. Apavorados, olhos arregalados. Eles também tem medo.

Quando a gente fala de política pública para a juventude negra, a gente fala disso também. Quando a gente fala de autoestima, o pensamento as vezes, pra quem NUNCA vai entender, se não passar por isso, o que é ser humilhado em praça pública por ser mulher ou homem, preta ou preto livre de hidróxido de sódio, depois de mais de dez anos de dor FÍSICA, sempre fica no campo superficial da beleza externa, essa que a gente diz que é fugaz, que é vaidade. Mas não. Quando um grupo de meninas começa a discutir raça pelo cabelo elas estão fazendo política! Quando aquele pessoal que vocês dizem "ah, esse é o grupo que reclama de tudo" pede que essa galera, juventude negra favelada, que ela se veja mais nos meios de comunicação, nos espaços, nas redes, ocupando espaços por direito, é por isso também. É bonito ouvir que visibilidade gera direitos, mas sem política só gera ódio. É massa ver na novela, é bonito ver na televisão. Mas aqui, na vida, o papo é outro.

Subi a rua chorando de soluçar. Meu pai tava descendo a rua indo buscar o frango assado com batata pra gente ter um almoço dos Dia dos Pais. Ele ficou apavorado quando me viu chorando. Eu disse: "7 meninos me humilharam." Ele disse: "eles te bateram?" Eu disse que não. Ele respondeu: "Ô, minha filha, não enfraquece. Fique forte. Tu é uma mulher forte, vai ligar para isso? Se adianta que eu vou pegar um frango ali e já volto."

Mas eu ligo. Não só pelo que ouvi, mas porque sei que esses sete moleques pretos, pobres e favelados são diariamente humilhados pelo Estado, pela publicidade, consumidos pelo ódio adquirido pela pressão social que eles encaram. Esse é o Rio que a gente tem, esse é o Brasil, um lugar onde o sonho do negro é não ser negro. Tem muito ódio, tem extermínio na cidade. Como pode um preto humilhar um preto? Como pode alguém humilhar alguém que nunca viu na vida, nunca trocou uma palavra? Tem muita luta pela frente. A gente tem que seguir forte, não deixando para trás as prioridades. A luta não é pelo aplauso, a luta não é para ditar que a sociedade tem que ver o cabelo, a pele de negro como bonito, mas vê-lo como GENTE. E gente, vocês sabem, é para respeitar. No mais, respeitem NOSSOS cabelos crespos, ok?

Ok. Pronto, falei. Chama. Axé para quem é de axé.

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