OPINIÃO
30/10/2014 17:10 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Minha mãe foi dar uma entrevista e o que aconteceu, nem eu esperava

Eu sempre evito falar publicamente sobre a minha mãe por questões profissionais - já que nunca quis ser conhecido como "o filho de". Porém, acho que depois dessa entrevista, é meu dever de filho me posicionar.

Reprodução/Youtube

Eu sempre evito falar publicamente sobre a minha mãe por questões profissionais - já que nunca quis ser conhecido como "o filho de". Porém, acho que depois dessa entrevista, é meu dever de filho me posicionar.

Nesse último domingo de eleições, estava indo votar quando recebi uma ligação da minha mãe. Ela me contou que quando entrou na cabine de votação, algo aconteceu que a fez chorar. Fiquei preocupado, mas compreendi por saber que sua história com a política sempre foi um assunto muito delicado.

Aos 20 anos de idade, minha mãe ensinava teatro na escola e, como uma jovem politicamente bastante engajada, também fazia teatro político. Um dia minha mãe desapareceu. Meus avós não sabiam de seu paradeiro até descobrirem que ela fora sequestrada, presa e estava sendo torturada pelo governo brasileiro.

Devido ao ocorrido de domingo, ela foi convidada para participar do programa "Agora é Tarde". Ela me ligou preocupada, com dúvida se valia a pena. Minha mãe não queria se tornar motivo de chacota nacional pelo que havia acontecido. Conversamos bastante e ela decidiu que poderia ser uma boa oportunidade para explicar o que realmente houve.

Assisti ao programa e admito: me surpreendi com um dos detalhes. Eu sabia de muito do que aconteceu e de outros detalhes que ela não pode falar devido ao tempo limitado da entrevista. É difícil descobrir que sua mãe foi estuprada. Diversas vezes. Ainda mais pelo Estado - que deveria ter como missão proteger o cidadão.

Conversei com ela após o programa, e ela me confirmou, compreensivelmente abalada. Fiquei com uma sensação de muita raiva, tristeza e impotência.

É necessário ter muita coragem para falar em público sobre esses abusos que ela sofreu na ditadura e mostrar que aquilo não era uma brincadeira. Infelizmente, existem muitas pessoas hoje em dia que, ignorantemente, falam: "Nossa, mas no tempo da ditadura era tão melhor". A falta de consciência dessa população me assusta.

Estupro não é brincadeira. Tortura não é brincadeira. Assassinato não é brincadeira. Tudo isso sendo feito pelo governo do país, não é brincadeira.

Tenho muito orgulho de minha mãe por ter dado este depoimento em rede nacional. É fundamental que a população aprenda e/ou seja sempre lembrada do que o nosso governo praticou. Agradeço também ao Rafinha Bastos por tratar a situação com a seriedade e delicadeza necessárias.

Te amo demais, mãe - e não só por ter me dado a vida e me criado fazendo o melhor que você sempre pode fazer. Você é um ser humano excepcional e participou ativamente da luta que conquistou, para mim e para todos os brasileiros, a liberdade de expressão. Você é uma verdadeira sobrevivente.

O Batman e o Super-Homem são legais, mas os verdadeiros heróis para mim são pessoas que, como você, lutaram por direitos que hoje protegem todos nós. Há não muito tempo atrás, eu poderia perder a vida por apenas sussurrar minhas opiniões - agora estou aqui a postar aqui meus pensamentos. Muito obrigado.

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