OPINIÃO
14/10/2018 10:16 -03 | Atualizado 14/10/2018 10:16 -03

O que você acha dos vinhos de mesa?

Não se pode afirmar que todo vinho fino é bom, do mesmo jeito que não dá para dizer que todo vinho de mesa é ruim.

 A maioria dos brasileiros que consomem vinhos optam pelos vinhos de mesa
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A maioria dos brasileiros que consomem vinhos optam pelos vinhos de mesa

Você sabe o que é um vinho de mesa?

Bom, a nossa legislação sobre vinhos é um pouco confusa. Segundo o artigo 9º da Lei n. 7678/1988, vinho de mesa é o vinho com teor alcoólico de 8,6% a 14% em volume, podendo conter até uma atmosfera de pressão a 20ºC.

No parágrafo 2º desse artigo, há uma disposição mais específica sobre os vinhos finos, que são aqueles de teor alcoólico de 8,6% a 14% em volume, elaborado mediante processos tecnológicos adequados que assegurem a otimização de suas características sensoriais e exclusivamente de variedades Vitis vinífera do grupo Nobres, a serem definidas em regulamento.

Mais a fundo, vê-se que há 2 tipos de vinhos de mesa previstos em lei (artigo 9º, parágrafos 3° e 4°):

-Vinhos de mesa de uvas viníferas (Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay, etc.), que são os chamados vinhos finos; e

-Vinhos de mesa de uvas americanas e/ou híbridas (Isabel, Niágara, Lorena, etc.), que são convencionalmente chamados de vinhos de mesa.

Por fim, o parágrafo 6º desse artigo expressa que no rótulo do vinho fino será facultado o uso simultâneo da expressão 'de mesa'.

Ou seja: ao pegar um vinho da prateleira, se estiver escrito no rótulo vinho de mesa fino, vinho fino de mesa ou vinho fino, trata-se de um exemplar feito com uvas viníferas. Se houver, apenas, vinho de mesa, isso quer dizer que é um vinho elaborado com uvas americanas e/ou híbridas.

Os conceitos podem soar insignificantes, mas é muito importante reconhecê-los na hora das compras. Os vinhos finos e os vinhos de mesa são completamente distintos e por uma questão óbvia: se as uvas, que são a matéria-prima principal do vinho, são diferentes, logo a bebida resultante não será a mesma.

Na prática, qual é a diferença entre os vinhos?

No geral, as uvas americanas dão origem a vinhos de aromas e de sabor mais simples, fortemente associados a um suco de uva fortificado. Esses vinhos são produzidos no Brasil há bastante tempo, influenciando gerações de consumidores. Dentro dessa categoria há nuances de doçura, com destaque para famosos suaves (em que há adição de açúcar).

As uvas viníferas, por sua vez, dão origem a vinhos finos que costumam ter sabor e aromas mais complexos, a ponto do paladar de muitos brasileiros estranhar. Considerando o teor de açúcar, eles podem ser secos, meio-secos e doces (naturalmente, sem adição de açúcar). A produção desse tipo de vinho é recente, se comparada aos vinhos de mesa.

Diante dessas características, não se pode afirmar que todo vinho fino é bom, pois é possível encontrar produtos de qualidade baixíssima sendo produzidos em todo o lugar. E o mesmo acontece com os vinhos de mesa, que têm o seu público cativo e as suas preferências.

Considerando as diferenças, qual desses vinhos você acha que predomina no cenário brasileiro?

Segundo a UVIBRA, só no ano de 2017 foram comercializados no país cerca de 173 milhões de litros de vinhos de mesa e, apenas, 15 milhões de litros de vinhos finos nacionais.

Portanto, a maioria dos brasileiros que consomem vinhos nacionais optam pelos vinhos de mesa. E, apesar da falta de dados nesse sentido, sabe-se, pelo bate-papo e pela convivência, que os vinhos de mesa suave alcançam uma boa parte desse nicho.

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Alguns fatores podem justificar esses números: questões de hábito e/ou culturais, sabor familiar da uva, baixo preço ou até a facilidade de acesso, já que os vinhos de mesa circulam por todas as regiões do país.

Independentemente dos motivos e apesar de ser a imensa maioria, o que se percebe é que os consumidores de vinho de mesa não são encorajados a experimentarem outros sabores. Pelo contrário: eles costumam ser menosprezados, sobretudo pelo público que consome vinhos finos.

Na verdade, quem ama vinhos convive com um certo desprezo o tempo todo, até quando opta pelos vinhos de uvas viníferas. A não ser que você beba a mesma coisa que a outra pessoa bebe, o desdém pelas suas opções é explícito. E se a outra pessoa for um especialista, o desdém é, ainda por cima, sem vergonha.

Comportamentos desse tipo criam um abismo entre os vinhos e o consumidor brasileiro e são essas atitudes de desprezo que dificultam a introdução de bons vinhos finos no cenário nacional e que ajudam a manter as estatísticas da forma como elas estão.

Os vinhos finos brasileiros, por exemplo, poderiam conquistar uma boa parte desse público, caso o preço fosse mais convidativo e a apresentação fosse mais acolhedora.

Só que hoje não se tem nem uma coisa e nem outra. Muitos brasileiros ainda acham que só existem vinhos de mesa suave no país e os poucos que consomem vinhos finos investem nos importados, pois acham que são melhores e mais baratos. Destaque para o Chile, de quem importamos mais de 51 milhões de litros de vinho só no ano passado.

Afinal, o que fazer?

Se a ideia é manter um grupo seleto de pessoas que entendem de vinhos, bebem e frequentam eventos caríssimos, que as atuais táticas de marketing se perpetuem. Porém, se a ideia é conquistar um público maior e fazer com que os vinhos finos nacionais e importados de melhor qualidade ganhem espaço na mesa dos brasileiros, então o discurso precisa mudar.

Meu primeiro vinho foi de mesa e em garrafão, experiência muito semelhante a de outros conterrâneos. Fui atrás dos vinhos finos não por estímulo de alguém, mas por pura curiosidade. Hoje o meu paladar foi conquistado e, desde então, não experimentei nenhum vinho de mesa que tenha gerado o mesmo efeito de prazer que os finos geram, apesar de estar sempre à disposição para experimentar novas propostas. Na teoria, não pertenço a um grupo. Na prática, sou uma consumidora de vinhos finos que não consegue ver um sinal de inteligência de mercado enquanto as atitudes prepotentes persistirem.

Qual é a sua opinião sobre o assunto?