OPINIÃO
10/10/2018 17:06 -03 | Atualizado 10/10/2018 17:06 -03

Está ficando cada vez mais difícil falar sobre vinhos

"Vinhos podem ser um respiro em meio a tantos discursos. É possível falar sob um viés político e econômico, mas é necessário falar sobre vinhos de uma forma leve e divertida, até para conter tantos pensamentos estressantes."

Red wine glass on wooden desk at
artisteer via Getty Images
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Vamos falar sobre vinhos?

Não.

Primeiro vamos falar sobre política.

É impossível deixar de lado a crise política-econômica-eleitoral-cultural-social que estamos enfrentando. Todos os assuntos que pipocam nas redes sociais, nas conversas de trabalho (com cautela) e nos grupos de família pairam em torno da urgência em resolver o caos no Brasil.

E logo se vê a gravidade dos problemas quando os discursos passam a se retroalimentar:

- E você vai votar em quem?
- Não sei, mas um museu pegou fogo e acho que foi criminoso... também, olha como anda a segurança do país! Enquanto uns andam de carro blindado, outros morrem na fila do SUS.
- Mas não tem como pagar um plano de saúde com esse desemprego todo! É preciso investir no ensino público!
- O que se pode fazer?
- É melhor esperar as eleições!
- Mas e você vai votar em quem?

Será que é preciso ser muito corajoso, superficial ou politicamente incorreto para querer falar sobre vinhos em tempos de crise?

Sinceramente, não dá para falar de problemas o tempo inteiro. Eles existem, precisamos de um plano para enfrentá-los a longo prazo e precisamos fazer a nossa parte. Mas que haja tempo para se falar de outras coisas. Melhor: que haja tempo para se falar de tudo um pouco.

Vinhos podem ser um respiro em meio a tantos discursos. É possível falar sob um viés político e econômico, mas é necessário falar sobre vinhos de uma forma leve e divertida, até para conter tantos pensamentos estressantes sobre como estamos e para onde estamos indo.

Então, vamos falar sobre vinhos?

Não.

Agora vamos falar sobre preços.

Você já viu o valor dos vinhos ultimamente? Se R$40 já serviu para pagar um bom vinho, hoje R$40 é uma parcela das compras. Os inúmeros reajustes, impostos e jogadas de marketing elevaram o preço do vinho de uma forma tão absurda que o ato de comprá-lo mudou de nome: agora se chama investir.

Alguns vinhos que já elogiamos no blog passam (e, às vezes, passam longe) dos R$100. Portanto, indicar alguma coisa para os nossos amigos e leitores, inclusive vinhos nacionais, é um desafio, porque nem sempre o que nós consideramos gostoso está ao alcance de quem gostaria de compartilhar a experiência. E indicar algo que seja bom e que caiba no bolso da maioria está difícil de encontrar.

Se o nicho que consome vinhos no Brasil é pequeno, o número pessoas que tem condições de investir mais do que R$100 em uma garrafa é ainda menor. O argumento de que "vinho é coisa de elite" está ficando cada vez mais impossível de combater, principalmente quando o preço está como está.

A expressão "contra fatos não há argumentos" destaca a infeliz realidade do setor no país.

Considerando isso, o que resta para quem ama vinhos e não quer beber qualquer coisa é aprender a comprar. Negociar para baratear o frete, adquirir vinhos em maior quantidade para conseguir um bom desconto, visitar produtores e feiras de vinhos para reduzir os intermediários ou pedir para o amigo que está indo viajar para que ele traga algo que dê para pagar sem ter que hipotecar a casa.

Beber vinhos é uma delícia, mas o custo está altíssimo. Falar de vinhos é tão delicioso quanto bebê-los, mas a crise amargou o discurso. Será que é melhor esperar as eleições?

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.