OPINIÃO
26/06/2014 10:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

Uma nova patologia

Sim, é uma relação de algum tipo, mas as estatísticas mostram que 'likes' não se traduzem em 'sex'. A realidade é outra e nunca fui grande fã.

Getty Images

Uma nova patologia: ele não liga ou escreve, mas 'curte' todas as nossas fotos e posts. Sim, é uma relação de algum tipo, mas as estatísticas mostram que 'likes' não se traduzem em 'sex'. A realidade é outra e nunca fui grande fã.

Saí na noite e fiz novos 'amigos'. Por um período de uma semana, tira ou põe, houve crescente intimidade entre mim e um estudante profissional da USP, habitante do Alto de Pinheiros (precisamente na edícula adjacente à casa dos pais) por meio do chat do Facebook: trocamos textos sobre o Derrida que nunca nenhum dos dois leu e jamais lerá, compartilhamos dicas de pequenos restaurantes incríveis e baratos em berlim que nunca fomos e fingimos gostar de jazz atonal. Foi intenso enquanto durou mas a troca de fluidos se resumiu a um beijo na porta do Astronete na noite em que nos conhecemos.

Ana, a analista, mandou mensagem de texto dizendo que sairia de férias e que me ligaria assim que voltasse, em um mês. Uma facada. Acho que nunca me senti tão desimportante. Mas, de novo, é pouco provável. Sabendo que sou paranoica, tendo a contemporizar, o que não quer dizer que eu não esteja de fato sendo perseguida. O timing das férias é bastante estranho. Eu estava começando o tratamento e ela sair assim é um abandono que me transportou para as quartas de final em Guadalajara, ano de 86, quando minha mãe partiu para a Índia e o Sócrates perdeu aquele pênalti.

Resolvi responder o e-mail do L.Z. (não por vingança, como podem pensar, mas por simples carência), apesar de nada na mensagem dele demandar resposta. Ser blasé é muito importante quando se escreve para um amante inconstante; qualquer sinal de interesse ou demonstração de afeto pode ser lido como um surto de loucura. Preservar-se é preciso. Ser sã não é preciso.

Depois de rabiscar palavras num papel, editei-as de forma que meu desespero não ficasse evidente. "oi l.z., houve um canlacemento, então ocorre que por acaso estou livre hoje à noite" (reparem que não há uso de maiúsculas, para um tom nonchalant; a linguagem deve ser o mais próxima possível do corporativês; a data desejada deve ser explicitada e ponto; vai por mim, sei o que estou falando).

Só depois de enviar percebo o erro ortográfico fruto da minha dislexia (distúrbio que escolhi ocultar até agora e que é hoje quase inexistente, tendo sido tratado exaustivamente por psicólogos, pedagogos e fonoaudiólogos). Só me resta esperar que ele não perceba e me munir de desculpas caso a falha venha a ser notada.

Ele sugere (ou melhor, me informa) que nos encontremos em seu escritório, às 21h. Esse e-mail chega às 20h35. Corro para o banho. Como dizia uma colega do "grupo dos Viciados em Amor e Sexo anônimos" (que eu frequentei brevemente pelos excelentes biscoitos e pessoas afetivas) a nossa recuperação pode muitas vezes ser resumida pelo uso ou não uso da gilete. Nas pernas, que fique claro.

Às 21h04 estou cheirosa e sem pelos, tocando a campainha já há quatro minutos. Quatro minutos e trinta segundos...

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.

Para saber mais rápido ainda, clique aqui.