Opinião

Um não relacionamento

Depois de anos de relacionamentos destrutivos tive a oportunidade de tomar as rédeas da minha vida amorosa neurótica. No dia 29 de agosto de 2013 um não-relacionamento "me salvou".
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Já ouvi dizer que alucinamos 90% do tempo. Os 10% sobrantes formariam a realidade, que ocorre quando pagamos contas no online banking, comemos um bom filé ou temos algum insight sobre a transiência.

Depois de anos de negá-la (a realidade) e de exercer o livre arbítrio por relacionamentos destrutivos - sendo eu emocionalmente anoréxica, só os mais loucos e obsessivos é que se aproximavam de mim -, tive a oportunidade de tomar as rédeas da minha vida amorosa neurótica.

O não-relacionamento que "me salvou" teve início no dia 29 de outubro de 2013.

Conheci o sujeito num fim de tarde em que me encontrava sentada no meio fio, em crise habitual. Ele queria estacionar seu carro exatamente onde eu estava, o que fazia sentido, por ser a única vaga disponível numa dessas ruas infestadas de bares na Vila Madalena. Como dizem os companheiros, eu estava "produtiva" (álcool, pílulas, 3 saquinhos de jujubas), com rímel borrado e minhas velhas botas Doc Martens, fingindo para mim mesma entender o que lia d'A crítica da razão pura de Kant. Eu era um típico ser dos anos 90, atropelado pelas décadas. Ele era um dos precursores da barba hipster que brotou à face de todos os homens entre 25 e 45 com aspirações artísticas nos grandes centros urbanos. Era primavera. À época, parecia reconfortante.

Tivemos uma breve discussão, até que saí de onde estava para que ele pudesse estacionar. O homem barbado cambaleou para fora do carro e perguntou se eu não queria beber algo logo ali. Sentamos num desses bares temáticos e tomamos uns chopes. Não falamos muito. Ele acompanhava com algum destilado e teve conversas no celular, um iPhone da mais nova geração (à época). Papo de bêbado com publicitês criativo; ele era do ramo. No meio tempo, eu escrevia mensagens de texto para mim mesma no meu nokia sem crédito. Ao fim, protestei fingidamente quando ele tirou o seu Visa Platinum e declarou que pagaria a conta toda. Mas só uma vez. Ele me deu carona no que se revelou um Citroen X-sara Picasso, com duas cadeirinhas de bebê no banco de trás. Paramos num motel com bons xampuzinhos para o nécessaire.

Eu não havia depilado; o encontro fora fortuito, afinal. Rônisson, meu superego bicha má, começou o inferno: "É com essa mata fechada que você vai dar, meu bem?" Ainda alterada, pude ignorar suas alfinetadas e prossegui com a atividade sexual. Esse era um bofe que parecia vir das mais densas florestas canadenses de bordo (maple, na língua mátria). Antes dele sair, por via das dúvidas, guardei o seu iPhone (tenho pavor de esperar pela ligação do dia seguinte).

Por quatro dias seguidos, o homem barbado ligou infinitas vezes. Mas nunca retornei, nem mandei mensagem. Ele, claro, acabou desistindo. Havia decidido, naquele momento, que não me envolveria mais com homens complicados. Troquei o chip e dei início a uma relação estável e pré-paga com o smartphone.

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