OPINIÃO
24/10/2014 19:54 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Solidão é senhora

Guilherme Yagui/Flickr
doce fossa.

Eu estou só; o senhor no boteco está só; até a Dilma, com todos os seus assessores e estrategistas, no fundo, está só. Me dei conta disso alguns dias depois de ligar para minha amiga Betina. Eu andava sem sentido pelo centro de São Paulo enquanto chorava pitangas sobre a minha mais recente desilusão (leia-se: a prostituta do Rio Grande do Sul que fingiu ser um ex-namorado palestino e levou o que eu tinha de dinheiro e dignidade). Ouvi algumas interjeições de espanto da minha interlocutora e continuei a narrativa ritmada pelas minhas respirações curtas e rápidas.

Depois de alguns minutos de falação ininterrupta, me dei conta da inevitável condição humana: eu estava só, com um celular contra a orelha. Nem ruído, nem clique; eu falava com ninguém. Já acostumada às idiossincrasias da telefonia celular nacional, deixei o aparelho no bolso da calça jeans skinny. Nem eu liguei, nem Betina voltou a telefonar. Parei em frente à Praça Dom José Gaspar e fui invadida como heras num muro pelo mal estar que vem acoplado à realidade. Eu era um ponto preto sem conexões, perdido no centro de São Paulo; invadido por heras.

Me dei conta de que não conversava mais do que algumas palavras com um ser que tinha sangue correndo nas veias há mais tempo do que podia lembrar. No dia anterior, me confidenciei a uma barata que passeava pelo meu banheiro. Vi que precisava de ajuda quando ela foi-se pelo ralo e me senti abandonada.

É estranho sentir falta de alguém que não existia. Mas afeto e memória moldam a nossa percepção (até que se possa viajar na velocidade da luz), sempre míope.

Mesmo que eu não tivesse doado todo o meu dinheiro para os falsos amigos e simpatizantes da Jihad, não conseguia me imaginar em lugar nenhum (viajar não é mudar o cenário da solidão?). Cancelei as férias em Salvador. A alegria contagiante da cidade poderia ser um choque, talvez fatal, para minha depressão. E daí quem eu seria?

Tentei lembrar do quanto fui feliz em Buenos Aires com L.Z., no hotel barato em San Telmo que cheirava a mofo. Eu estava apaixonada. As mulheres e homens no lobby pareciam ser de uma outra época, indefinida, com seus chapéus e roupas atemporais. Era um alívio não estar entre contemporâneos. Lembro de pensar, quando L.Z. saiu para comprar media lunas e dois cortados e esperei no quarto, como era bom ficar sozinha com a minha solidão. Foi um momento de poesia que me tomou por alguns minutos. Depois, passou.

(Queridos leitores, se julgarem o texto incompreensível, por favor, se refiram aos publicados anteriormente, neste Brasil Post. Se a questão persistir, peço perdão, mas não sei o que dizer. Às vezes é difícil mesmo se fazer compreensível nesta era da comunicação.)

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