OPINIÃO
30/04/2014 17:41 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Sobriedade e incertezas

Neste espaço, procuraremos entender a natureza das neuroses e outros assuntos de igual interesse e o que podemos e devemos fazer para mantê-la, sob controle.

Venho, por meio deste post, compartilhar coisas. Tudo começou - diz a narcisista onipotente - quando vim ao mundo, num trem da Jubilee Line (linha cinza) do metrô de Londres, alguns momento antes da estação de Canary Wharf, devido a um suposto atentado terrorista do IRA que parou o 'underground' por algumas horas; justo as horas de trabalho de parto de minha mãe. É fácil concordar que há ironia no fato de meu pai ter sido integrante de tal organização paramilitar. Mas não, não estava a serviço nesse dia.

Posso culpar essa chegada ao mundo pelas minhas neuroses? Até posso, mas seria infrutífero. Jamais deixarei de ser neurótica e, tal qual um alcoólatra, passarei o que resta da minha tediosa existência terrena "em recuperação". O que me resta, o que nos resta? Transformar o drama em 'media event'. Ou, ao menos, em algo que nos dê a impressão de produtividade.

Diferentemente dos mais abençoados pela fortuna, como o psicótico (ahhh, o delírio da vivência de realidades alternas) e do perverso (uhhh, o inominável prazer da ausência completa da culpa), o neurótico jamais experimenta a felicidade. Suplementar à dificuldade de encontrá-la, uma vez diante dela, o neurótico sofre com as suas incontestáveis consequências, que incluem, mas não se limitam a: culpa, mau olhado, movimento das marés e, em última instância, a insignificância de tudo diante do inevitável fim.

Por ocasião de completude dos doze passos dos Neuróticos nem tão Anônimos, faço aqui o que prega o décimo segundo (os passos poderão - ou não - ser objeto de análise posterior): "Tendo experimentado um despertar espiritual graças aos passos anteriores, procurarei transmitir esta mensagem aos neuróticos e praticar esses princípios em todas as minhas atividades".

Neste espaço, procuraremos entender a natureza das neuroses e outros assuntos de igual interesse e o que podemos e devemos fazer para mantê-la, sob controle.

É importante que fique claro que a culpa não se desintegra. Como qualquer matéria/energia, ela se transforma. A culpa que eu antes sentia foi transferida para "o grande outro". É como o Ying e o Yang. Para que eu me sentisse mais leve, tive de reorganizar a balança energética que agora aponta para familiares, amigos, ex-namorados, o governo e instituições afins.

Deve-se considerar que o neurótico em recuperação não é necessariamente mais agradável e passível de afeto que o neurótico ativo. É preciso levar em conta as várias facetas da sobriedade e decidir se ela é a melhor escolha para você.

Quando não for possível ou desejável me utilizar como exemplo, usarei a inicial "N" (não confundir com Np, de Narcisismo patológico, doença por mim considerada oposta/complementar à neurose, na medida em que o N gostaria mesmo é de ser um Np e acaba, via de regra, apaixonando-se e fodendo-se nas mãos do Np de seu afeto, mantendo viva a neurose costumeira). Esse tema será tratado oportunamente.

P.S. Não farei apologia às drogas farmacêuticas; tampouco condenarei o seu uso analéptico e recreativo.