OPINIÃO
14/08/2014 17:40 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Setembro é o mês mais cruel

David Sanger via Getty Images

Não que tenha sido colocada a questão, mas me parece de bom tom fazer um pequeno sumário do triângulo criado entre mim, L.Z. e Ana, sua mulher e minha então psicanalista. Ambos retornaram à minha vida, naqueles idos. Sendo que ela eu via ao menos uma vez por semana. L.Z. emergia e submergia, como uma lontra em extinção.

Procurei Ana depois de me apaixonar por seu marido L.Z., portador do transtorno de personalidade narcisista, com objetivos pouco claros mesmo para mim. Descobrir quem era a mulher que merecia o amor dele? Desvendar os mistérios de uma relação que eu não podia ter? O fato é que criei um imbróglio e, não sendo psicopata, a culpa que nos separa dos outros animais, embora não sirva para muita coisa, foi pairando sobre mim.

Mas como quis o destino, o caso de Ana e Lucas (o grisalho da saída do cinema), famoso maquiador de TV, que largou por ela seu companheiro de 12 anos, um igualmente famoso ator de novelas, foi parar nos tabloides e L.Z., acostumado ao anonimato reforçado pelo estudo de filósofos nada pop, teve seus 13 minutos de fama. Foi nessa época que o exílio tornou-se sua única saída. Maridos traídos não são bem vistos no nosso país. Sem grandes fortunas, L.Z. procurou refúgio em Buenos Aires, onde cheguei a visitá-lo, e depois em Córdoba, onde o peso pesava mais.

Num momento mulher alfa, disse para L.Z., em frente ao Teatro Colón, numa manhã de sol: "faço análise com a sua mulher." Assim, papo reto. "A Ana?", ele perguntou, decididamente confuso. "Tem outra?", eu devolvi, super cool. Nos olhamos ray-ban aviador em ray-ban wayfarer por alguns segundos. "Você é louca por mim ou só louca?" E daí ele me beijou.

Os quatro dias com L.Z. em Buenos Aires foram os mais felizes da minha vida. Entre boinas, echarpes, hotéis baratos em San Telmo e cigarrillos de quinta, a minha felicidade era palpável na Plaza de Mayo.

O ano era 2002. Trágico para a Argentina; dramático para mim.

Como dizem nossos colegas alcóolatras (ou alcóolicos?), "sair do trilho" faz parte da doença, não da recuperação. E a felicidade foi uma espécie de vírus que me abateu por quatro dias. Pelas razões mais variadas e cuja alavanca foi a chegada do mês de Setembro, na volta a São Paulo, parei de amar L.Z. Assim. Porque setembro é o mês mais cruel e mistura memória e desejo.

Sendo razoavelmente honesta, apesar de manter o charme inacessível, L.Z. perdeu boa parte do appeal depois da separação. Não sei explicar a razão. Algo a ver com o meu desejo do impossível? Da minha inabilidade de amar? Vai saber. A análise com Ana continuou a me dar pistas; tive até insights. Mas consertar - não consertou nada, não.

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