OPINIÃO
03/07/2014 13:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Sem amor e sem serifa

Rixipix via Getty Images

Infinitos minutos se passam sem que ele atenda. A internet do meu celular não funciona - sempre a maldita TIM, e, obviamente, não tenho o telefone do L.Z: nossa relação é profunda, única e intimamente pautada em missivas do gmail.

Enquanto espero, tento considerar a minha falta de opções, mas sou logo tomada pela lembrança de um começo/fim de relacionamento há vários anos. Já mencionei a minha dislexia, à época um transtorno, hoje talvez um consolo (Einstein, Agatha Christie e Walt Disney também eram, dizem). Pois bem.

...

Era 2008, quarta-feira de cinzas. Estávamos eu e meu então futuro ex no Bar Lagoa, no Rio. Nos conhecemos dois dias antes, no QG do carnaval carioca. Tive que pedir ao garçom, por gentileza, você teria um cardápio escrito em fonte sem serifa? Qualquer 'helvética' serve. Um parênteses: (detestava helvética, mas entre as sans-serif era das mais difundidas e eu simplesmente não reconhecia, à época, a tipografia serifada). Minha fonte favorita era a Futura; considerada um dos símbolos do modernismo no design gráfico, baseada em princípios rigidamente geométricos, inspirada pelo Bauhaus.

O garçom me olhou franzindo os olhos, como quem diz, dá para estar repetindo? E o então futuro ex veio ao meu socorro. Ou ao do garçom: deixa que eu leio para ela. Dislexia à parte, sempre adorei que me lessem menus, histórias e bilhetes. Me sinto protegida, amada. Outro breve ex (faleceu subitamente aos 27) chegou a me ler partes de Ulysses, do Joyce; e confesso que pouco entendi, apesar de sofrer somente de dislexia deseidética, que consiste em deficiência nas percepções visual e 'gestáltica', que é a percepção do todo como algo maior que a soma das partes. Exemplo: "A+B" não é simplesmente "(A+B)", mas sim um terceiro elemento "C", com características próprias" (e vai, quem não sofre disso?); e outras dificuldades na análise e síntese de fonemas, o que significa, em suma, que lia sílabas, mas dificilmente entendia o todo.

Foi quando o então futuro ex disse ao garçom: deixa que eu leio para ela, que percebi que o fim se aproximava. Minha habilidade perceptiva para tons de voz e entrelinhas é inservamente proporcional à minha dislexia visual. A entonação dele era a de recipiente que tenta inutilmente barrar o amor que vaza. Não sou de me gabar, mas eu praticamente leio pensamentos e o dele era "não a amo; ela é destituída de Gestalt". Vale lembrar que 'gestalt' é um termo alemão de difícil tradução para o português. O termo mais próximo seria 'forma' ou 'configuração'. E a forma como me senti foi: deixei de ser Vitória, esse ser fragmentado em busca de unidade, me tornando um conjunto de números primos: infinitos mas só divisíveis por um e por eles mesmos.

Mesmo já tendo sido seduzida pelo ovo chopê, deixei, metade deleite, metade tristeza, que ele lesse o cardápio até o final. Ele leu, item por item.

Ele era matemático e dava aulas no Instituto Brasileiro de Matemática Pura; me apaixonei na segunda-feira de carnaval. Posso estar forçando a barra, mas olhando em retrospecto, é fácil ver a ligação da Teoria da Relatividade Geral, comprovada em Sobral, no Ceará, cidade natal dele, em 1919, com a nossa relação. Um grupo de cientistas verificou, durante o eclipse solar, que a trajerótica da luz acaba sendo distorcida pela imensa força de gravidade exercida por corpos maciços. Eu 'entortei' ao me aproximar dele e de sua grande massa intelectual: me movi para a sua sombra, por um período muito maior do que qualquer eclipse total: dois longos dias de verão.

Concluí cedo, observando os relacionamentos à minha volta, que encontrar um amor uno, não fragmentado numa paixão aqui, um afeto ali, era de probabilidade pequena.

Decidi pelo ovo pochê.

Ele mastigava salada de batatas e lia uma revista do IMPA: excelentes subterfúgios. Não havia nada a dizer e, mesmo assim, ele disse, antes de engolir e fechar a revista, mas depois de olhar o relógio:

- Preciso ir.

O fim do amor em duas palavras.

Que o amor não é constante eu já sabia, quem não?, mas não antevi equação alternativa. A chance de encontra-lo (o amor) é de um em 285 mil, para qualquer indivíduo, usando a fórmula de Drake (que também serve para estimar a existência de vida extraterrestre). Eu teria mais sorte em outro planeta.

A falta de Gestalt tem seus prós: permite rápidas reconfigurações e instantâneas adaptações ao que é dado. Nossa troca havia se encerrado. Ele agora era presente ex e faria um dia parte do conjunto dos antigos amores dos quais só se tem vaga memória de partes do corpo.

Foi aí que a porta do elevador se abriu. Era L.Z.

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