OPINIÃO
19/06/2014 11:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

O marido da analista (parte 3)

Imagino a analista, deitada no próprio divã, sem mais pacientes pelo dia, bebendo de uma garrafa de Wild Turkey, um bourbon do sul dos Estados Unidos, como se fosse mamadeira. E chorando feito criança.

Espero sentada a ligação da psicanalista. Alguma notícia é iminente. Nem que seja para um sinto muito, não será possível te encaixar na minha agenda. Deixei recado no dia que se seguiu à nossa primeira sessão. Um total de dez dias se passaram. Talvez eu nunca tenha ficado tão ansiosa por uma ligação. Mas é pouco provável.

O telefone toca, eu atendo o sem fio, ao lado da cama. Mas, não. O toque chatérrimo, que raramente ouço depois do advento do whatsapp continua, vindo de alguma brecha do sofá, na sala. Levanto as almofadas - ha! (está junto do pacote de jujubas que comi anteontem) Número desconhecido. Alô! Uma voz embargada diz Vitória, é Ana Schnappel. Não me movo que é para não perder o sinal. Pode estar no consultório às 18h, hoje? Sim, posso. Ela pede desculpas pela demora em retornar e desliga.

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EU: Fui criada por um travesti, meu tio Pablo. Minha mãe ficou bem pirada depois de me parir na linha cinza (Jubilee line) do metrô londrino, por conta do atentado do IRA; daí viemos para São Paulo e fiquei morando com ele. Eles, na verdade: meu tio Pablo e o namorado, Luís Roberto, à época funcionário do Banco do Brasil.

Começo a segunda sessão com esse relato, deitada no divã. Muito melhor do que o tête-à-tête da primeira. Em não tão livre associação, aproveito o gancho para dizer que a grana é curta.

ELA: No final falamos sobre isso. Mas não se preocupe.

EU: Daí minha mãe foi para a Índia e ficamos sem contato por alguns anos. Recebi algumas cartas; mandei alguns desenhos e pedidos de bebês elefantes de presente. Meu pai sumiu logo depois do atentado em Londres; ficamos anos sem saber dele, até que o vimos, tio Pablo e eu, numa reportagem da BBC sobre pubs em Cardiff, inadvertidamente virando uma Guinness, sozinho, no balcão do velho 'The Butchers Arms'.

Dúvida: falo do L.Z? Falar de mim é, de qualquer maneira, falar dele: as pessoas que amamos passam a constituir as sinapses por onde circulam as memórias que são criadas. Reais ou fictícias. Li isso em algum lugar. E, há três dias, ele me escreveu.

Mal pude crer quando vi seu nome em negrito na caixa de e-mails. Não abri. Comprei meu almoço (ana maria com toddynho) e voltei para o computador. Numa falsa calma, abri dois outros e-mails sem importância - uma fatura de cartão de crédito e uma negativa para uma tentativa de emprego em editora portuguesa - que lá também estavam. E só aí cliquei em seu nome, o coração já retumbante.

EU: Depois de meses de silêncio, chegou há uns dias a mensagem: inadvertidamente, você me veio à cabeça. Saudades.

ELA: Inadvertidamente??, num tom que me assusta. Ana respira fundo e continua, mais suave, retomando sua persona analítica. Estamos falando do seu marido?

Percebi durante nosso encontro no Franz Café o quanto L.Z. gostava de usar essa palavra. Deve tê-la repetido umas 3 vezes. A verdade é que 'inadvertidamente' não estava no e-mail que eu recebi dele. Usei por canalhice. Com ou sem a advertência, a mensagem não podia ser mais indiferente: oi, voltei. Vamos marcar algo. L.Z.

(Repararam que não há perguntas, tipo, tudo bem com você?, nem sugestão de datas para um encontro? Bem vindo ao show 'relações com sociopatas' ).

EU: É. Do meu marido.

ELA: E como você se sentiu lendo essas palavras??

Ela soava atordoada.

EU: Fiquei feliz que ele não me esqueceu completamente.

ELA: 'Inadvertidamente', sem querer, foi a primeira palavra que ele usou. Não parece dizer que não houve a escolha de pensar em você? E por que você sente que pode ser esquecida tão facilmente, Vitória?

Veja bem. Se há um tipo de homem que eu conheço é o 'narcisista patológico'. Basicamente, ele, o narcisista patológico (Np) tem tudo o que me falta. Ele poderia me completar. Só que não. E a luta para ganhar do Np o que ele certamente tem e se nega a me dar passa a reger a minha vida. E as brigas terríveis, que envolvem humilhações e deleites, acabam por me separar do Np somente quando um de nós (ele) se muda para um país africano. Ou, quando surge um novo Np clamando por ser minha outra metade neurótica, com ofertas infindáveis de novas dinâmicas doentias.

EU: Só me importa que ele queira me ver.

Digo isso com maldade que ela lê como defesa.

ELA: E você, o que quer, Vitória?

EU: Ser amada seria um bom começo.

ELA: Você já pensou na possibilidade desse homem não saber amar? Há pessoas que apenas provocam o amor nos outros, mas não amam.

EU (irônica): É culpa do capitalismo. E da falta da figura paterna. Já li sobre o assunto. O ego se desintegra, não é isso? Mas daí penso que o Stálin era psicopata e socialista, além de ter tido pai até a adolescência. Também é possível. E quem ficou sem pai nem mãe e vive numa pseudodemocracia?

Silêncio.

ELA: Não é nada fácil ficar sem pai nem mãe, Vitória. Mas você está aí: inteira. Como era sua relação com seu tio e o namorado dele?

EU: Eles me davam o que podiam mas eram os próprios uns fodidos, sem lugar no mundo. Na escola, eu era de poucos amigos. Meu tio Pablo vinha me pegar todos os dias à tarde, antes de ir pro trabalho - um show de drags na Frei Caneca que lembro até hoje de cor. Eu não tinha vergonha, mas as outras crianças me sacaneavam e um daqueles pais que carregava valise chegou a dar uma cantada no meu tio enquanto eu comprava paçoca no baleiro. Depois meu tio me contou, rindo. Eu tinha oito.

O meu marido, ele... tem outras.

ELA: Isso parece te incomodar.

EU: Não te incomodaria?

ELA: Me incomodaria que você tivesse outra analista enquanto nos vemos. Mas nosso tempo acabou por hoje, Vitória.

Eu me levanto do divã, mas não estou pronta para ir.

EU: Não me sinto nada inteira.

ELA: Qual seria um valor confortável para você pagar?

Não sei responder.

EU: Preciso fazer contas.

ELA: Me manda notícias, ok? Nos vemos na próxima semana? Te espero.

Fico irritada sem saber por que e saio, com um meio sorriso e olhos baixos. Ela bate a porta e o jeito brusco com que tranca me dá a sensação de ter sido repelida. Colo minha orelha esquerda na janela de vidro, os olhos fixos no elevador - atenta para não ser pega pelo próximo paciente.

Ouço a voz dela, trêmula, numa ligação . Claro, você dormiu no escritório ontem! Inadvertidamente!? Sensacional! As crianças ficaram te esperando; foram dormir deprimidas, desamparadas. Seu merda! Liga lá pra casa e fala com elas.

Com quem será que ele estava ontem à noite? Entro no elevador e o condutor é um anão uniformizado, de olhar deprimido.

Imagino a analista, deitada no próprio divã, sem mais pacientes pelo dia, bebendo de uma garrafa de Wild Turkey, um bourbon do sul dos Estados Unidos, como se fosse mamadeira. E chorando feito criança.

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