OPINIÃO
28/11/2014 13:55 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Meu lindo psicopata

Em nosso encontro, a conversa girou em torno do que giram em torno as conversas em primeiros encontros: um pouco de artes, algo sobre viagens e trilhas pouco exploradas e anedotas pouco engraçadas e autocondescendentes que contamos mais para preencher o vazio do que para se relacionar com o outro do outro lado da mesa.

Sam Edwards via Getty Images

É tanto diálogo interno com superegos e outros entes que o mundo do lado de fora acaba ficando em segundo plano. O problema é que a realidade não suporta ser ignorada e sua reação costuma ser cruel. Neste caso específico, eu caminhava, como se livre fosse, por uma ciclovia de São Paulo quando fui abatida por uma bike.

Estatelada e vermelha de humilhação, mal me dei por mim fui erguida pelos braços bem formados do ciclista atropelador. Corei.

- Você arranhou o joelho, mas não parece nada grave. Quer ir pro hospital assim mesmo?

- Eu? Não...

Me sentia adormecida e hipnotizada pelo olhar ligeiramente estrábico daquele homem que me carregava para fora da ciclofaixa, como uma cinderela grunge.

Olhei para os meus joelhos; eles sangravam. O ciclista deslumbrante me depositou no chão e juntou meus objetos íntimos espalhados pelo asfalto, dentre eles, uma caixa de Prozac, lexotans e um pacote de absorventes. A minha vida é assim.

- Quer uma carona?, ele olhou para a máquina mortífera.

Com medo de estragar aquele momento de perfeição, o que inevitavelmente aconteceria, preferi me despedir ali.

- Tá bom. Mas cê tem que fazer um curativo.

Os olhos dele sorriam um sorriso estrábico e já pareciam estar acostumados aos danos que causavam. Antes dele sair pedalando para o infinito, resolvi apostar todas as fichas.

- Talvez eu possa te processar. Me dá o seu número?

Ele riu.

- Talvez eu possa te processar. Você está na ciclovia. Repara que é a única pedestre?

Não desanimei.

- Temos que resolver isso de forma amigável. Eu proponho um drinque. Me dá seu número?

Salvei o número e mandei um 'obrigada ☺'. Com o objetivo de sempre parecer uma mulher normal, de hábitos normais, tão louca quanto qualquer outra.

Passei o resto do dia em completo delírio. Quem era aquele homem? Esqueci de perguntar o nome, o que tornava impossível a feitura de um dossiê digital.

De pijama, deitada sozinha na cama, já devidamente esparadrapada, ouço o celular bipar. A chance de ser uma mensagem do belo ciclista estrábico me dá calafrios. "Sua vadia, vou te comer toda" é o que diz a missiva telefônica. Sim, o número era o dele. Fiquei confusa.

Chequei o Quiroga do dia e a conjunção Marte - Saturno em escorpião, que indica golpes de estado e conflitos armados, me tranquilizou: o celular do ciclista só pode ter caído no acidente e ter sido encontrado por um delinquentezinho qualquer. Agora era esperar que ele recuperasse a linha.

Dois dias e alguns lexotans depois, confiante de que a questão do celular já estaria resolvida, mandei novo 'oi, tudo bem?'; sempre casual. Ele respondeu me chamando para sair (!) e, para não estragar nada, abdiquei de perguntas irrelevantes.

Em nosso encontro, a conversa girou em torno do que giram em torno as conversas em primeiros encontros: um pouco de artes, algo sobre viagens e trilhas pouco exploradas e anedotas pouco engraçadas e autocondescendentes que contamos mais para preencher o vazio do que para se relacionar com o outro do outro lado da mesa. Ele foi gentil e educado. Comemos moules frites e tomamos bordeaux. No táxi, de volta, ele se despediu ao me deixar na porta e eu fiquei um tanto atordoada. Não quer jogar uma partida de xadrez? Ele hesitou mas subiu.

Ele gostava de jazz e sabia fazer massagem. A noite foi perfeita.

(Continua no próximo post)

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