OPINIÃO
17/10/2014 18:19 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Causa mortis: amor

Tomada pelo medo de mais 'verdades' jogadas em minha cara virtualmente perfilada, tento explicar o ocorrido de forma que os fatos se sobressaiam às minhas interpretações enviesadas e auto-compassivas. Mas não garanto sucesso.

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Volto para declarar o obvio, nem sempre visto a olho nu: o recente Mazen Muhammad não era o mesmo Mazen Muhammad por quem me apaixonei à beira do Mar Mediterrâneo em 2001.

"Esta sua ingenuidade é pura carência embalada por um narcisismo onipotente", decretou Débora, amiga e psicanalista virtual, quando Mazen desapareceu, logo depois de receber o dinheiro no Banco da Palestina. A ideia é que passagens para Salvador fossem compradas por meio da agência de viagens do seu amigo na Cisjordânia. Era minha generosa contribuição para a economia local. Mazen me pagaria a sua parte quando chegássemos na nossa pousada em Itapoã. "Você é uma otária", bradou um anônimo, sobre a minha última troca de WhatsApps com o falso palestino. Além da traição, me restarão os "ãos" da solidão, da incompreensão e da minha própria falta de noção.

Tomada pelo medo de mais 'verdades' jogadas em minha cara virtualmente perfilada, tento explicar o ocorrido de forma que os fatos se sobressaiam às minhas interpretações enviesadas e auto-compassivas. Mas não garanto sucesso.

Todos os perfis virtuais de Mazen Muhammad desapareceram num instante de vertigem. Foi como sair pela porta de casa e dar um passo no vazio, o nada por todos os lados. Realidade ou ficção?

Em minha agendinha preta, o endereço da mãe do verdadeiro Mazen, que mora, como se mais drama fosse ainda aceitável, no bairro de Shuafat, na parte oriental de Jerusalém, onde muitas pedras são atiradas. Quando Mazen morreu da primeira vez, em 2003, fiz luto sozinha: não contatei Aatifa e suas sete filhas - Maleeha, Manaara, Mahdeeya, Maazina, Misbaah, Mudrika e Mu'mina - que haviam me recebido com húmus e azeitonas gigantes numa tarde insuportavelmente quente de agosto dois anos antes. Uma rápida busca na lista telefônica israelense me muniu do resto.

Mazen havia mesmo morrido. Não em 2003, num ataque suicida, mas em 2010, vítima da síndrome do coração partido (também conhecida como cardiopatia). O palestino viveu sete anos sem que eu soubesse. Viveu e amou outras mulheres, algumas delas habitantes das ruas mal iluminadas das redes sociais.

Maazina, que veio ao telefone, ainda me disse que Mazen esteve no Brasil, alguns meses antes do fim, seduzido por uma gaúcha que fazia programa. Seu nome era Kelly Patrícia Kruger e percebi nos seus posts de Facebook os mesmos erros da língua pátria, agora já não tão graciosos, cometidos pelo mais recente Mazen Muhammad. Misbaah pediu que eu mantivesse contato e me adicionou no instagram. O que mais doeu foi saber de Mudrika que o falecido Mazen realmente aprendeu a língua de Camões por amor à prostituta de Porto Alegre que, história trágica, agora usava a identidade do rapaz para arrancar uns trocados de otárias carentes e narcisistas onipotentes, como eu.

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