OPINIÃO
05/09/2014 17:19 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Amores impossíveis

Vitória e L.Z. se apaixonam. Ele se divorcia de Ana e se casa com Vitória. Os dois têm sucesso em carreiras que acreditam ser muito estimulantes. Até que, um dia, o fim se dá, como se dá sempre e nunca quando se quer.

Noviembre Anita Vela via Getty Images

para Margaret Atwood

A.

Vitória e L.Z. se apaixonam. Ele se divorcia de Ana e se casa com Vitória. Os dois têm sucesso em carreiras que acreditam ser muito estimulantes (L.Z na filosofia; Vitória, na assessoria de imprensa de uma empresa produtora de tubos e conexões de aço). Eles vão morar juntos num loft super charmoso na Vila Madalena e adotam um cão vira-lata. Compram arte. O valor dos imóveis não para de subir. Eles têm uma diarista, a Zete - uma baiana arretada, de Ilhéus. Vitória engravida. É uma dessas grávidas que só ficam mais lindas. Faz yoga e anda de bike pelas ciclovias. Alimenta-se bem, com orgânicos. L.Z. e Vitória não deixam de trepar nem um dia durante a gravidez. Os amigos do casal são incríveis, divertidos, artísticos, cheios de conteúdo. Os fins de semana são gloriosos. Até que, um dia, o fim se dá, como se dá sempre e nunca quando se quer.

B.

Vitória se apaixona por L.Z, mas a coisa não é recíproca. Ela é legal e tudo, mas, sei lá, o timing é ruim, e L.Z. é um narcisista crônico que só pensa nele mesmo. Ele, no entanto, gosta de trepar com Vitória e, como não tem tempo de ir à academia, a atividade sexual propicia o exercício tão importante para combater sua ansiedade com relação à sua carreira que flutua no vácuo. Vitória continua morando na Bela Vista; L.Z, com a mulher, em Higienópolis. Às terças e, às vezes, às quintas L.Z. visita Vitória. Ela sempre prepara algo para comer nos dois dias e, quando ele não vem, ela chora sobre a taça de chardonnay chileno. As noites de terça são importantes para Vitória. Ela toma um banho demorado, se perfuma, usa máscara de cílios. Eles nunca saem. Ela faz um macarrãozinho, eles trepam e ele vai embora enquanto ela lava a louça. Sexo com L.Z. não é tão incrível, mas é um contato, uma proximidade, um retalho de uma relação. E para Vitória, contato humano é necessário para que não percamos a nossa configuração. L.Z. começa a vir com menos frequência. Falta uma terça; não avisa. Vitória chora quase todo dia e sua cara fica péssima, com as pontas dos lábios caídas, olheiras e pele emaciada. No trabalho, todo mundo percebe o quanto Vitória está deprimida, já que ela não usa corretivo. Suas amigas dizem que L.Z. é um filho da puta, que ele não a merece, mas ela não acredita. Uma de suas amigas conta inclusive que o viu no La Tartine com uma morena de cabelos curtos. Vitória fica louca e lembra que Ana, mulher de L.Z. é loira e tem cabelos compridos; o que mais a incomoda não é a morena de cabelos curtos, mas o restaurante. Ele nunca a levou ao La Tartine. Vitória junta todos os rivotris, lexotans e dormonids que encontra e, num ritual shakespeariano, os ingere com uma das garrafas de chardonnay chileno. Ela manda uma mensagem de texto para L.Z. Seu plano é que ele a descubra em tempo, a leve para o Einstein, se arrependa e eles, enfim, virem um casal. Mas nada disso acontece e Vitória morre.

C.

L.Z. se apaixona por Vitória; mas ele é casado e ela é neurótica. Vitória não é tão louca por ele, mas ele está ali, dando aquela inflada no seu ego e ela acaba trepando com ele. Vitória está a fim de um cara que presta serviços de design para sua empresa, o Erick. Mas o Erick é meio porra louca. Eles já saíram, já ficaram e o cara não quer nada muito mais do que isso. L.Z. é um professor de filosofia respeitado, mas Vitória não dá muita bola. Ela gosta do Erick, que é DJ, escultor, blogueiro e toca numa banda que produz um som indefinível.

L.Z. é casado com Ana, que é psicanalista. Eles têm três filhos e um apartamento amplo em Higienópolis, mas L.Z. não é feliz e busca uma mulher que o complete. Vitória, que ele mal conhece, deve ser essa mulher, diz o seu falo.

Um dia Erick leva Vitória para casa, eles fumam haxixe e trepam loucamente. Dormem, exaustos. L.Z. aparece e, enlouquecido, pega uma faca de cozinha e ataca os dois enquanto dormem (ele era psicótico, mas Vitória não sabia). Em seguida, joga-se do 5o andar do prédio na Bela Vista. Não há sobreviventes.

Ana, a viúva psicanalista, casa-se com um homem grisalho, maquiador da TV Record e continuam a vida como em A., mas com nomes diferentes.

D.

O homem grisalho e Ana são felizes. Eles se entendem, se completam, dão likes um para o outro no facebook e celebram seu amor a cada instante nas redes sociais. Eles sofrem um terrível incêndio, mas como não precisam de muito para viver, já que o amor é tudo e apoiam os guarani-kaiowás, continuam vivendo virtuosa e dignamente como em A., mas com nomes diferentes, numa aldeia digital.

E.

Tudo seria perfeito e o amor reinaria se o homem de cabelos grisalhos, maquiador da TV Record, não decidisse voltar a ser gay. Ana é compreensiva e leal e aceita a paixão do maquiador de cabelos grisalhos, seu marido, por Lázaro, um assistente de 22 anos. Ana se foca no trabalho e na observação da constelação da ursa maior. Escreve um livro que mistura a história de sua vida com a arte de observar estrelas que é um sucesso de vendas.

F.

L.Z. abandona tudo para se tornar um mídia ninja e Vitória não pode se orgulhar mais do seu homem. Ela começa a escrever um blog de política barra pesada e posta todos os links no Facebook. Eles logo se cansam de ser revolucionários e procuram atividades menos exaustivas, como catar coquinhos. Um dia, eles morrem e suas contas de Facebook permanecem in memoriam.

O final das histórias A, B, C, D, E e F é o mesmo, não importa de que ângulo você olhe.

O único final verdadeiro é: Vitória e L.Z morrem. Ana e L.Z. morrem. O homem grisalho e a mulher de cabelos curtos do restaurante morrem. Até Lázaro, o assistente de 22 anos, um dia morre.

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