OPINIÃO
26/09/2014 18:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:56 -02

Amor palestino

Riou via Getty Images

Estava eu curtindo a fossa de mais uma relação que flertou com a possibilidade, mas se desmanchou no ar antes que pudesse ser qualquer coisa do mundo inteligível ou sensível quando fui assaltada por uma mensagem de chat do facebook. O som metálico da missiva me deixou zonza e o aviso brilhava como um letreiro de néon. Não podia acreditar que o nome "Mazen Muhammad", que já havia se tornado uma abstração para mim, voltava agora como uma realidade virtual.

O que houve entre mim e Mazen Muhammad foi algo breve em 2001. Tudo para ele era breve, pois só a vida após a morte era eterna e repleta de sentido. Em 2003, juntei informações e concluí que Mazen, palestino do norte da Cisjordânia, havia sofrido uma fatalidade. Seu corpo nunca foi encontrado, mas a certeza da sua morte era meu único alento para o desaparecimento repentino daquele sujeito magrelo, com nariz que desafiava as leis da física (e qualquer tentativa de descrição), olhar longo e inglês primitivo: "I neime Mazen". Mazen Muhammad e eu não precisávamos de léxico.

O chat nonchalant que recebi dos confins da web, há dois meses, dizendo ter saudade, assim em português, você pode imaginar, me pareceu algo assombrado.

Mazen, como você pôde estar vivo todo esse tempo e não dar notícias? Não me lembro o que ele respondeu, mas que importava? O fato era que ele tinha renascido, mesmo que virtualmente.

Me mandou fotos suas tiradas no Burning Man, vestido apenas com pequena sunga de pele branca. Eu implorava por uma conversa no Skype. Impossível. Mazen tinha péssima conexão em Tulkarm, onde agora cultivava olivas, algumas cabras e recepcionava canadenses entediados.

Mazen havia aprendido a escrever um português semiperfeito, considerando a sua palestinidade. Eram erros bonitinhos de concordância e ortografia que conferiam a ele um charme lumpen. Do dia para a noite ficamos noivos. O casamento entre homem muçulmano e mulher cristã era permitido, mas e sendo eu metade judia? Na dúvida, resolvemos postergar a união religiosa. Alá entenderia. Mazen viria ao Brasil e nós moraríamos juntos em Salvador, onde ele daria aulas de ciências e eu rodaria a baiana.

O WhatsApp fazia a autocorreção de texto das minhas neuroses enquanto planejávamos nosso reencontro em Amã. A curiosidade de Mazen por mim era infinita. Ele decorou até meu CPF. Logo não tínhamos mais segredos: quem volta dos mortos sabe que amanhã é só uma possibilidade. Por precaução, dividimos todas as nossas senhas.

(continua no próximo post)

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.


Para saber mais rápido ainda, clique aqui.

TAMBÉM NO BRASIL POST:

38 músicas que salvam qualquer festa