OPINIÃO
19/05/2014 10:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Ressaca indigesta!

A julgar pelo maior poder de investimento das agremiações nacionais frente aos seus rivais latino-americanos, não era para isso acontecer.

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Como o santo de Francisco é forte, o Brasil na quarta-feira viu seu último representante dar adeus à Libertadores. Pela primeira vez desde 1991 (é isso mesmo, desde 1991), um time brasileiro não está na fase semi-final do principal torneio do continente. Azar, incompetência, má gestão ou acomodação? A safra de jogadores é ruim? Sim, não, talvez... sei lá. Certo é que, a julgar pelo maior poder de investimento das agremiações nacionais frente aos seus rivais latino-americanos, não era para isso acontecer.

Para ser ter ideia da abissal disparidade financeira entre os times brasileiros e sul-americanos, outro dia saiu na imprensa que Ignacio Piatti, meia do San Lorenzo que marcou o gol que praticamente sepultou as chances do Cruzeiro, ganha aproximadamente R$ 70 mil por mês. Se compararmos com o que é pago aos atletas dos principais clubes do país, descobriremos que o salário de Piatti equivale a de um reserva ou mesmo de um jovem promissor recém-subido dos juniores. Reserva no Fluminense, o lateral-direito Wellington Silva recebe só R$ 100 mil mensais - e mal (e mau) joga. Execrado pela torcida e dispensado outro dia pelo Flamengo, Carlos Eduardo via generosos R$ 500 mil todo mês pingar na sua conta.

Mas, afinal, só grana torna as eliminações de Atlético Mineiro, Cruzeiro, Flamengo, Grêmio, Atlético Paranaense e Botafogo injustificáveis? Obviamente que não, mas orçamento, meus caros, faz muita diferença. A Champions League mostra isso para nós ano após anos. Os finalistas e favoritos são sempre os mesmos, salvo raras exceções: Bayern Munique, Chelsea, Barcelona, Manchester United... não por coincidência os quatro últimos campeões e habituais líderes de arrecadação no futebol mundial. E olha que nem citei um dos finalistas de 2014, Real Madrid, primeiro no ranking de faturamento.

Bom, então o problema está relacionado à gestão, só pode ser... Em parte, é verdade. A maioria dos clubes brasileiros ainda engatinha no que tange a administração do negócio futebol. Para piorar, há ainda passivos - trabalhistas e previdenciários, além de credores mil - que inviabilizam a maioria dos times. Mas se no Brasil é assim, tenta imaginar, meu caros, o nível de profissionalismo dos clubes bolivianos, uruguaios, colombianos, paraguaios e até mesmo argentinos, que têm fontes de receitas ainda mais minguadas? Uma olhadinha no salário do craque do San Lorenzo nos mostra que dificuldades orçamentárias e de gestão são compartilhadas por todos na América do Sul.

Então tá, o problema só pode ser técnico. Temos uma boa safra de jogadores e observamos uma renovação do quadro de técnicos no país? Em realidade, as respostas são obviamente negativas. De fato, os principais treinadores são os mesmos há anos e o nível técnico do Brasileirão, habilmente chamado por um amigo de o "campeonato dos chuveirinhos", indica que a coisa está feia. Para quem se acostumou a ver nos gramados daqui Rivaldo, Juninho Pernambucano, Júnior, Zico, Edmundo, Evair, Raí e Thiago Silva, entre tantos outros nomes que não saíram para o exterior tão jovens assim, o torneio está realmente sofrível.

Ainda assim, se mais uma vez compararmos o nível técnico do Brasileirão com os campeonatos boliviano, uruguaio, colombiano, paraguaio e até mesmo argentinos, que, sem grana, vendem seus principais jogadores por qualquer mariola, veremos que ele não pode ser muito pior!

Em paralelo, tampouco posso acreditar que os treinadores hermanos estejam em um patamar absurdamente mais avançado que os tupiniquins. Embora vejamos atualmente técnicos argentinos e chilenos brilhando na Champions League, prefiro não acreditar que o gap é tão grande assim. Portanto, material humano definitivamente não é a causa principal do insucesso.

Onde reside, então, o problema? É um pouquinho de cada coisa que abordei brevemente aqui - carências técnicas, má gestão, dirigentes amadores... Há, no entanto, uma questão central relacionada ao mau momento do futebol brasileiro, que vinha de quatro títulos consecutivos na Taça Libertadores (Internacional/2010, Santos/2011, Corinthians/2012 e Atlético Mineiro/2013), que a imprensa de uma forma geral pouco comenta - não sei se por estafa de falar sobre assunto ou mesmo por rabo preso.

Refiro-me à organização do calendário e, especificamente, à extinção dos campeonatos estaduais. Inegavelmente, a questão é longa e complicada - e devidamente a abordarei em outros posts daqui para frente -, mas considero uma revisão completa do calendário como vital para o futebol brasileiro. Mais ainda, vendo o fracasso técnico, financeiro e de público dos campeonatos Carioca, Gaúcho, Mineiro e até mesmo o Paulista, tido como o mais organizado e rentável do país, percebe-se que estes torneios se tornaram um filme mudo e preto e branco.

Falarei aqui agora sobre a questão esportiva - há muito mais a ser debatido. Não resta dúvida que o Brasileirão, disputado acertadamente por pontos corridos, é o principal torneio do país. Mais ainda, ele classifica para a Taça Libertadores, menina dos olhos de 11 de 10 clubes do continente. Fora o troféu (normalmente feio) o estadual dá vaga para alguma coisa? Até onde eu sei, só para os clubes pequenos... e só para quem navega nas divisões inferiores do Brasileiro.

Ah, mas os estaduais mantêm a rivalidade regional acesa e etc e tal... Ué, esses times também não jogam no Brasileirão? Honestamente, vocês acham que uma rivalidade construída ao longo de um século se apagará só porque os clubes brasileiros, em vez de jogarem cinco, seis vezes ao ano como ocorre atualmente, passarão a se enfrentar duas, três vezes? É óbvio que não!

Por fim, para acabar nosso papo por agora, há o calendário em si - datas, dias, semanas e meses. Hoje, os estaduais são disputados do final de janeiro até o final de abril, forçando a barra quase quatro meses. Restam, portanto, sete meses para a disputa de um campeonato - na verdade, o principal campeonato - de 38 rodadas. Meus amigos, é MUITO pouco tempo para isso.

Só para efeito de comparação, os clubes europeus disputam uma campeonato igualzinho ao nosso, ou seja, com 38 rodadas, durante 11 meses (a maioria de julho a maio). Qual a consequência disso? Temos um festival de partidas quarta-feira e domingo, quarta-feira e domingo, quarta-feira e domingo, quarta-feira e domingo ao longo da competição...

Em resumo, nossos jogadores meia boca (ou todos vocês não concordam que a safra brasileira não é das melhores?) são submetidos à uma indigesta maratona de partidas em sequência e, obviamente, não conseguem - nem querendo - render tudo que podem. Para piorar, nossos técnicos incompetentes (ou eles não são realmente ultrapassados?) simplesmente não têm tempo para treinar suas equipes, visto que, entre viagens e descanso para os atletas, eles dispõem de no máximo um dia para treiná-los - e normalmente, para evitar contusões, eles usam e abusam do tradicional rachão antes das partidas.

Tudo isso contribui decisivamente para um torneio ruim tecnicamente, que influencia negativamente na qualidade do espetáculo, provocando um efeito em cadeia dali em diante: menos público nos estádios, audiência da TV em queda, perda de interesse comercial pelo campeonato e por aí vai.

Meus caros, a discussão é longa... Espero que tenham paciência...