OPINIÃO
31/08/2015 19:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:25 -02

Sou pai e me preocupo MUITO com a publicidade infantil

A TV tem bastante força para ditar valores na sociedade de consumo, rivalizando com a educação dada pela família e escola.

Thinkstock

Querida baratinha,

Papai morre de medo de um dia acordar de sonhos intranquilos chamando a mamãe de patroa, metamorfoseado em um desses caras de propaganda de cerveja, sabe?

Não. Imagino que você, com seu um aninho e dois meses, não saiba. Te explico:

Um homem bebe cerveja com amigos em um bar. Geralmente, todos são brancos e estão felizes. Pegada happy hour ou férias na praia.

O protagonista costuma ser um cara "divertido", barba rala e barriguinha saliente. O típico machinho passível de empatia e não inveja.

O machinho chama sua companheira, a parceira com quem divide a vida, de patroa. A "patroa" é sempre chata, censurando e limitando a alegria do machinho e seus amigos.

Embora "bonitinha", a beleza da "patroa" é ofuscada pela "gostosona" com poucas roupas e muitas curvas. O machinho sempre flerta com a "gostosona" que, sem muita opinião, está relativamente disponível como um produtor na prateleira.

A "patroa" mela o esquema. Todos bebem cerveja e dão risadas.

Essa historieta cretina é base de um tanto de propaganda de cerveja desde que me entendo por gente, minha loirinha.

Outro exemplo: dois atores famosos e bonitos se comportam como dois imbecis histéricos ao verem uns chinelos numa prateleira. Duas atrizes famosas e bonitas, representando suas namoradas, sentam de maneira masculinizada e reclamam da demora dos dois.

Entediadas, decidem ir ao bar tomar uma. A piadinha aqui é a suposta inversão. No caso, as duas moças entediadas seriam os machinhos, e os dois que se comportam como imbecis estão interpretando mulheres.

Manja que para tal publicidade, se comportar de maneira imbecil é se comportar como uma mina?

Papai, preocupado com os possíveis efeitos nocivos da publicidade em sua cabecinha levou um papo com a psicóloga e ativista pelos direitos da infância, Lais Fontenelle Pereira. A Lais, que é consultora do Instituto Alana e coordenou durante muitos anos o projeto Criança e Consumo, me disse:

"Sem dúvida, essa é uma questão muito importante nos dias de hoje: a publicidade que vende uma imagem distorcida da mulher promovendo valores machistas e sexistas. E vale destacar que a publicidade infantil é aquela que se destina a um público menor de 12 anos, mesmo que seja de produtos adultos. Sabe-se que as crianças influenciam em 80% dos processos decisórios das compras da família. Então, vende-se de tudo para crianças: de carros a produtos de limpeza. Por isso, devemos ficar bem atentos a todo tipo de comunicação destinada a esse público."

Outro dia, vi em uma entrevista um publicitário bem-sucedido falar que a campanha é boa quando vira cultura. Quer dizer, quando aquela peça faz parte do repertório cultural de determinada geração. Ou um bordão que passa a ser usado, ou uma memória afetiva relacionada aquele conteúdo.

Minha geração lembra até hoje do tio do refrigerante-laranja-menos-famoso-que-o-concorrente. Quando um carinha tá meio velho paquerando moças mais novas é chamado assim, do "tio do refrigerante". Um caso de sucesso, sem dúvidas.

A publicidade bem feita vende não só aquele produto. Ela vende um estilo de vida, uma ideia. No caso de crianças, isso é mais dramático, pois, conforme minha nova amiguinha Lais:

"Sabemos hoje que a publicidade e o conteúdo das mídias, de forma geral, têm o papel não somente de entreter e vender, mas funcionam como educação informal na formação da subjetividade e identidade. As crianças brasileiras estão entre as que mais assistem tv no mundo - segundo últimos dados do Ibope passam em média 5 horas e 22 minutos na frente das telas (sem mediação do adulto). Isso nos mostra a força que essas mídias têm para ditar valores na sociedade de consumo, rivalizando com a educação dada pela família e escola."

E olha só, muito dinheiro é gasto nisso, portanto, devo crer que funcione. E funciona!

Eu, com quase 30 anos, ainda caio nessas armadilhas: entre uma bobagem e outra na televisão, me flagrei incrivelmente incomodado com minha vidinha em comparação ao que via na TV. Lá, gente linda e jovem curtia a vida adoidado na praia.

Era uma propaganda de outro chinelo (não sei se as propagandas de chinelos são muitas ou apenas eu que me ligo nelas). Queria muito aquele lance de cachoeira, praia, mar etc. Então, comprei o chinelo. Não, brincadeira. Não comprei nada. Mas desejei a valer aquele "estilo de vida".

Ó, vou te contar um segredo, papai começou a fumar o cigarro de determinada marca por conta da propaganda. Adorava aquele estilo meio alternativo dos comerciais que sempre terminavam com os dizeres, "baixos teores".

Não sabia o que "baixos teores" significava, mas me soava algo meio poético. E os cowboys da outra marca não me diziam nada, sabe? Veja, eu morro de vergonha disso. É óbvio que não existe nada de poético em uma propaganda de cigarros, mas eu era um pivete. Era ainda mais suscetível do que sou hoje.

Ou seja, quanto mais jovem, mais exposto e mais desigual é essa relação.

Uma vez mais, citando a tia Lais:

"Os maiores teóricos do desenvolvimento infantil vão nos dizer que é, mais ou menos, em torno dos 12 anos que maioria das crianças começa a ter o pensamento crítico e a abstração de pensamento necessária para compreender a persuasão contida no discurso publicitário. Antes disso, elas ainda são mais vulneráveis a esses apelos por não terem as ferramentas necessárias para driblá-los. Até os oito anos, a maioria ainda mistura conteúdo da programação com publicidade."

Tá vendo, minha esponjinha? Semana passada, você começou a tossir a valer. Eu, preocupado, fui ver o que estava rolando, e na TV a Peppa e seus amiguinhos estavam doentes e tossindo, enquanto o Doutor Urso Marrom tentava curá-los. Você imitava os bichinhos simpáticos. Entende aonde quero chegar?

A Lais alerta que os perigos desse contato prematuro com publicidade são muitos. Como "obesidade infantil, diminuição do brincar criativo, estresse familiar, sustentabilidade, violência, distorção de valores".

Ela explica:

"Na infância as crianças estão numa fase essencial de desenvolvimento físico, cognitivo e emocional. Estão formando seus hábitos e valores para toda a vida. Ou seja, crianças que aprendem a consumir, desde cedo, sem reflexão serão adultos cada vez mais consumistas contribuindo para insustentabilidade ambiental, social e econômic, em que priorizam o ter e não o ser."

Você deve estar se perguntando: "que mundo é esse que permite propaganda para crianças? Não faz sentido". É, eu pensei o mesmo. E a Lais me respondeu o seguinte:

"Não existe hoje uma lei específica que proíba a publicidade infantil, mas sim um projeto de lei 5921/21, do deputado Luiz Carlos Hauly que tramita há mais de 12 anos no Congresso. Mas, nossa legislação já traz um entendimento de que a publicidade infantil é abusiva e portanto ilegal. No ano passado o Conanda (Conselho Nacional dos Diretos das Crianças e Adolescentes) soltou a resolução 163 em 04 de abril jogando luz e esclarecendo o que já estava previsto no artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor: 'A prática do direcionamento de publicidade e comunicação mercadológica à criança com a intenção de persuadi-la para o consumo de qualquer produto ou serviço é abusiva e, portanto, ilegal'. E esse artigo lido junto com o 227 de nossa Constituição Federal, que diz que a criança é prioridade absoluta em nosso país, sendo dever da família, sociedade e Estado protegê-la dos abusos, chegamos à conclusão de que a lei está clara. O que falta então? Efetividade!"

Enquanto não rola a tal efetividade, o ideal seria não deixar você ter contato com a televisão. A Lais me contou que até os 2 anos de idade - segundo associação de pediatras - a criança não deveria ter contato algum com nenhuma tela. Infelizmente, no nosso caso é praticamente impossível.

Preciso tomar banho antes do trampo, e esses minutinhos só existem por conta da Peppa que te distrai. Fazemos o que dá pra fazer, né, amorinha? Sendo assim, a Lais me deu os seguintes conselhos:

"Os pais devem dar exemplos e limites. E o diálogo é a chave para transformação. Conversar e explicar é de suma importância."

As principais dicas para os pais são:

- Estejam mais presentes e deem menos presentes;

- Desacelerem a rotina de suas crianças;

- Não ofereçam duplos comandos, ou seja, tenham um comportamento coerente com o discurso;

- Não terceirizem a educação de seus filhos;

- Limitem o número de horas que as crianças passam se relacionando sozinhas com as mídias;

- Promovam atividades alternativas ao consumo;

- Fomentem uma cultura de consumo colaborativo (envolvendo doações, trocas e afins).

Eu pretendo seguir essas dicas todas, meu amor. Mas, ainda assim, você terá contato com publicidades mil e outras tantas coisas que não poderei evitar. Por isso, preciso te fazer entender que não precisamos de tantas quinquilharias.

A satisfação não está bem aí, sabe? Existe todo um sistema baseado nisso, em fazer crer que só seremos completos após consumir tal parada. Bom, amorinha, o vazio não será preenchido por isso, não. Nem por nada, sinto lhe dizer.

O vazio faz parte da existência, nos acompanha e não precisa ser preenchido. Precisa ser compreendido e não temido. Pelo menos eu acho. Mas olha, não acredite em tudo que te dizem. Nem mesmo em mim e muito menos na TV.

Papai sabe quase nada. Só posso garantir que manter distância dos machinhos que falam "patroa" te poupará tempo, viu? Mas isso, também é com você.

Amor,

Papai.

Trilha sugerida:

P.S.: O Instituto Alana é uma ONG que "atua com a missão de honrar a criança". Se quiser saber mais clique aqui e sobre o Projeto Criança e Consumo aqui.

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