OPINIÃO
29/05/2015 16:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

Sobre doenças, maconha e ETs

Colette Saint Yves/Flickr
Collage.

Pequenina febrinha,

Você, pela primeira vez, está doente. Digo primeira vez com pesar, porque, sim, você ficará doente outras tantas vezes. Assim como papai, mamãe e todo mundo nesse planeta, todos ficamos doentes um montão. É difícil, eu sei, mas é assim que funciona. A boa notícia é que quase sempre nos curamos.

E mesmo sabendo que você ficará bem, nossa, você não tem ideia do que está sendo difícil esse processo.

Minha função como pai, em tese, é resolver tretas e te ensinar coisas. Porém, a cada dia que passa, saco que minha principal função aqui é estar atento e aberto aos ensinamentos que você me passa. Isso sim é transformador. É como se eu fosse um tradutor de conhecimento que está todo dentro de você intuitivamente. Você me ensina, e eu tenho que ter a sabedoria/humildade/sensibilidade para apenas absorver e então, te passar de volta, mais mastigadinho, o que já tava aí dentro. Cê deve pensar "papai sabe das coisas", mas no fundo já tava tudo aí, geniazinha. Mas não se iluda, não é fácil ensinar o papai. Eu sou "psicótico, neurótico, todo errado" e cheio de vícios da época pré-você, quando apenas eu protagonizava minha existência.

Essa tua primeira doença foi mais um aprendizado nessa nossa nova vida.

O tormento começou quando planejava ir à marcha da maconha, que os amiguinhos do papai organizaram. Você estava chatinha, chorando. E eu irritado contigo. Desculpa, meu amor, fiquei bravo, mas entenda, são mais de onze meses sem dormir com você chorando no meu ouvido. Papai se irrita às vezes. Bom, infelizmente, dessa vez você tinha um grande motivo. Mamãe, sempre mais calma e sensata que o papai, sacou que você não estava legal.

Medicamos tua febre com acompanhamento do médico, aquela coisa toda. Eu fiquei triste, era uma das minhas raríssimas folgas. Todos os amiguinhos do papai iriam estar na marcha. Você bem sabe, papai está sempre, sempre, sempre trampando. Quando vi que teria que passar uma das únicas folgas do mês de olho na tua febre, em casa, fiquei de bode. Puro egoísmo, obviamente. Quando, mesmo após os remédios, tua febre bateu quarenta graus, esse desapontamento egoísta desapareceu por completo e saímos correndo para o hospital.

Curiosamente, eram quatro e vinte da tarde e a marcha dos amiguinhos do papai, a da maconha, estava começando e por pouco não ficamos presos no trânsito. É irônico, papai sempre foi em tudo que é passeata e já ouviu muito o blá blá de que a Avenida Paulista não pode parar jamais.

Que dá acesso a muitos hospitais e por isso, manifestações ali são irresponsáveis. Eu sempre refutei esse argumento dizendo que protesto é justamente para causar na cidade e assim pressionar por mudanças. Do contrário, não teria sentido. Foi louco estar do lado do cara dentro do carro que precisava chegar o quanto antes ao hospital. De qualquer forma, mudamos o caminho e ok. Talvez tenha rolado uma multa de trânsito no caminho.

É importante frisar, minha enferminha, não mudei de opinião. Aquelas pessoas estavam lutando pelo fim de uma guerra, apelidada de "guerra às drogas" que na verdade trata-se de um extermínio de populações negras e pobres. E mesmo papai não fumando maconha, acha essa pauta fundamental.

Além disso, acabo de ver no jornal que a Receita Federal apreendeu 116 frascos de canabidiol mesmo após a autorização da ANVISA.

O canabidiol, substância extraída da maconha, tem propriedades medicinais importantíssimas e vários pais, muito mais desesperados que eu, com crianças muito mais doentes que você, precisam desse remédio. Veja, aquela turma na Avenida Paulista, além de atrapalhar o nosso caminho, estava também abrindo caminho para tantos outros pais. Hoje, o canabidiol é liberado muito graças a esses corações libertários que tão nessa luta e "atrapalhando o trânsito" há tempos. E se o canabidiol segue enfrentando burocracias cretinas, cabe a nós, na rua, pressionarmos por mudanças. Ou seja, minha ervinha: precisamos pensar além de nosso umbigo sempre. Se o preço para mudanças concretas é parar a Avenida Paulista, que seja. A culpa é dos governantes que trabalham de mãos dadas com a burrice e o preconceito e não dos manifestantes que são nosso farol contra a escuridão que permeia as decisões politicas por aqui.

No pronto socorro, eu estava transtornado. Você já deve ter percebido que eu absolutamente odeio ir aos hospitais. Me remetem lembranças tristes e difíceis. Tenho sérias dificuldades em saber que o sistema público de saúde não dá conta da demanda. E mesmo usufruindo de um hospital particular, sigo sonhando um mundo em que saúde seja um direito universal.

Pois bem, lá, ouvi a médica e seu tom professoral: "Papai e mamãe podem levar a doentinha a sala ao lado e aguardar os exames". E lá fomos para a tal sala que, na realidade, se tratava de um cubículo com quatro poltronas bem próximas, duas de um lado e duas do outro. E umas oito crianças doentes tossindo pra tudo que é lado.

Diante daquela salinha da infecção, eu perguntei a médica se não tinha outro local para esperarmos, que aquilo ali não podia ser um bom plano. Mesmo não sendo médico, papai não achou muito prudente te jogar naquela ciranda dos mais variados tipos de vírus. Ela respondeu, "Papai, isso aqui é um hospital. Não tem como fugir". Uma enfermeira ,bastante gentil, concordou comigo e explicou que o hospital estava mesmo com pouco espaço e sugeriu que ficássemos no carro e ela poderia ir lá fora nos chamar. Achei a postura dela genuinamente solicita. Agradeci, mas diante o frio lá fora e sua febre aí dentro, ficamos na salinha.

E reclamei e esperneei, que nem você costuma fazer. Os outros pais, mais calmos, concordavam comigo. Ainda assim, eu era uma pedra no sapato daquela turma. Obviamente, eu tinha razão. Isso ninguém me tirava. Mas estava causando um mal-estar geral e piorando o cenário de todos ali. E mesmo sendo óbvio que os profissionais ali nada tinham que ver com a estrutura do local e que, bem, hospitais, são de fato lugares cheios de doenças, eu seguia frustrado.

Então, olhei pra você. E você não parava de sorrir e cativar todo mundo. As outras crianças doentes pareciam melhorar, querendo brincar contigo. Os pais antes de semblante preocupado e abatido se derretiam e eram só risadas para sua gratuita simpatia.

Eu, vendo sua mágica acontecer, me acalmei. Você me acalmou. E lá ficamos naquele infecto cubículo, fazendo amizades com todos os pais e crianças. Trocando experiências, unidos e desejando melhoras uns aos outros. Você fez aquilo, sabe? Foi um lance bonito de ver. Se antes, nos olhávamos como potenciais portadores de doenças contagiosas, depois de você, passamos a sacar que estávamos todos juntos nessa.

O teu olhar, tua capacidade de conquistar qualquer um, me arrebatou e decidi que tinha que ser mais forte que aquilo. Quando eu estava lá esperneando, no fundo, eu estava puto com seu sofrimento. Apavorado mesmo. E naquele contexto de impotência, canalizava de maneira infantil e nada produtiva todo aquele medo e frustração.

Mais tarde, já em casa, você piorou. E eu tive que sair correndo e comprar remédios. Na farmácia, me dei conta o quão caro é ficar doente. Pedi um frasco da droga lá. A moça disse, "o senhor precisará de dois frascos segundo a receita. Esse aqui dá só pra nove dias. A médica receitou para dez dias". E eu comecei novamente meu showzinho. Disse pra mulher que era caro demais. Perguntei sobre as pessoas que não tinham dinheiro. Fiquei alguns segundos indagando a funcionária que nada tinha com nada daquilo. A moça ouviu todos os meus palavrões pacientemente. Eram mais de uma da manhã num sábado. Ela trabalhando e aguentando o chilique do playboy aqui. Então, lembrei do seu sorriso e me acalmei. Tentei ser doce com a mulher. Conversamos alguns poucos minutos. Rolou um mini desabafo/desculpa da minha parte. Ela foi compreensiva, solidária. Me desejou sorte. Eu desejei o mesmo e segui um pouquinho mais corajoso pra casa.

Veja, sigo achando insana a ideia de pacientes serem clientes. Acho tremendamente caro os medicamentos. Os planos de saúde, infelizmente necessário para alguns, fazem um papel cruel em aprovar ou não exames, consultas, etc, toda uma matemática difícil quando falamos em vidas humanas. Não passei a aceitar essa lógica. Mas você me ensinou que brigar naquele instante, não faz o menor sentindo. E se queremos mudar alguma coisa, o caminho é aquele lá do início, parando a Avenida Paulista, por exemplo. E naquele momento, o foco era tua saúde, minha bacteriazinha.

Naquela mesma noite, quando fomos te dar o remédio, você vomitou tudo em cima de mim. Pela primeira vez, vomitou muito. Saiu do seu corpinho muito mais do que imaginei que coubesse. Assim, não foi a primeira mocinha que vomitou em cima do papai. Mas eu sempre segui um protocolo que aprendi com a experiência. Sempre que uma moça vomitar devemos segurar o cabelo dela. Fingir que aquilo é natural, deixá-la menos constrangida e procurar um local ideal, tipo sarjeta mais próxima.

Você ainda não tem cabelo, não estava constrangida e o local ideal foi eu mesmo. E toda a experiência que acumulei com vômitos (meu ou de outros) em nada me ajudou. A mamãe, uma vez mais, com calma e sabedoria tranquilizou a situação e conseguimos enfim te medicar.

Sabe, pessoinha, esse meu despreparo para lidar com sua doença não é exclusividade minha. Imagino que nenhum pai está pronto para isso de doença dos filhos. Você já tinha ficado com febre, gripadinha. Mas essa foi a primeira mais séria. Infeção, antibiótico, febre, hipotermia. Um combo desesperador.

Ser pai, meu bichinho, é a coisa mais difícil que já fiz na vida. De longe, é o maior desafio que já encarei. E eu não paro de me surpreender. Bem, eu tô meio sem chão ainda tentando digerir.

E, nesse processo, não consigo deixar de pensar em quem está em situações mais críticas.

Quer dizer, hoje é nosso terceiro dia doente, e a febre baixou. Fomos atendidos em um hospital renomado. Compramos os remédios caros sem grandes dramas orçamentais. E tudo indica, e assim espero, que a partir de amanhã tudo melhore mais e mais e sua doença seja apenas essa cartinha, uma lembrança e algumas lições de vida.

Mas a grande maioria dos outros pais não tem um hospital fera, estão em filas para serem atendidos, sem grana pra remédios, e muitas vezes a doença é mais insistente.

Tem uma moça que todo dia procura o papai. A filha dela precisa de um transplante de medula urgente. Ela não tem grana e não sabe mais a quem recorrer. Ela procura o papai pois sabe que faço matérias para televisão e imagina que eu possa ajudar. Mas não há nada que possa fazer. E toda vez que leio os pedidos de ajuda, é um tapa na minha cara. Mas entendo cem por cento o desespero e faria o mesmo, obviamente.

Por isso, pequenina, aproveito esse espaço aqui, para divulgar a situação. Ela precisa de ajuda. Quem tiver lendo essa cartinha e quiser ajudar, o contato dela no facebook e a página da para ajudar a pequenina Mayara. Quem puder ajudar, por favor. Vamos tentar achar um doador compatível.

Quando eu era pequeno, achava que meus pais, seus avós, sabiam tudo.

E me recordo que meu primeiro medo real, foi no caso de uma invasão alienígena. Quer dizer, era um medo bizarro, mas pensei que se os ETs chegassem determinados a extinguir a raça humana, ninguém - nem meu papai ou a mamãe - iriam me salvar. Fiquei apavorado. Com o tempo, e a demora dos ETs, deixei de ter medo. Mas saber que seus pais não são super-heróis é mesmo apavorante, coisinha. Eu pretendo seguir te enganando mais um tempinho e fingir que sou sim o super-papai (e o meu espinafre é o café). Até o momento que você tiver uma idade pra sacar que não, eu não sou um super-herói e tudo bem. Sou apenas teu pai tentando fazer o melhor e o café apenas me ajuda a acordar e trocar umas fraldas.

Mesmo sem superpoderes, farei de tudo para te ajudar sempre. E se os ETs chegarem aqui com as piores intenções, tentarei levar um lero e convencê-los que aqui na Terra tem um lance chamado amor. E isso vale a pena. Pode dar certo, mas não garanto. Só garanto que estarei sempre contigo. Ajudando nas pequenas gripes ou convencendo ETs. Na real, suspeito que se os aliens colarem aqui, não precisarei fazer nada. Basta eles verem teu sorriso que aprenderão na hora, como eu aprendi, o que é o amor e ficará tudo bem.

Amor e saúde sempre, minha terraquinha.

Papai.

27.05

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