OPINIÃO
10/07/2015 14:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Sobre a mesma nova estrada

tharso/Flickr
Férias: minha primeira visão do mar na Rio-Santos

Estamos descendo pro litoral, pequena. Você na sua cadeirinha ao meu lado, ora devorando todas as imagens com seus enormes olhos famintos, ora dormindo, enquanto mamãe dirige - uma providência graças ao Detran que colocou papai de castigo, sem dirigir por dois meses.

Ah, quantas vezes papai já pegou essa estrada. A mesma estrada. Mas uma coisa você vai logo sacar, nunca é a mesma estrada, assim como aquela historinha sobre o rio. Você e o rio nunca serão os mesmos a cada reencontro. E isso torna o tempo (embora cruel e implacável) delicioso.

Nesse mesmo espaço geográfico que passamos agora, um outro papai já passou centenas de vezes em outros tempos.

No início, quando tinha uns 7, 8 anos, sua vovó ou seu vovô quem dirigiam enquanto íamos, papai e titia atrás brigando e atazanando. "Tá chegando?, Falta muito?, Tô com fome..."

Vovó tinha uma fala clássica pra fazer a gente calar a boca, "Olha, eu vou virar a mão e em quem pegar, pegou" Era uma ameaça que mesmo sabendo que não se concretizaria, funcionava. Acho. Até um dia em que todos caímos na risada diante do ridículo. Foi quando eu, vovó e titia sacamos que éramos todos velhos demais praquela frase. Não tinha mais efeito. Éramos a mesma família, mas éramos outros e ríamos do que antes nos assustava.

O que permanece daqueles dias é a ansiedade pelo mar.

Aquele cheiro de praia que transforma absolutamente tudo. Não sabia bem o motivo e até hoje não sei. Mas o cheiro do mar muda todas as outras relações e sensações. E é bem legal, você vai ver.

Pouquinho adiante, com uns 11 passei a ter a parceria de amiguinhos nessas aventuras. Época de criatividade intensa. Formulávamos histórias, enredos alucinantes do que iríamos vivenciar quando terminasse a descida ao encontro do mar.

Nossas cabeças a milhão pensando no que estava por vir. De vampiros, ETs, dinossauros, tesouros perdidos a viagens no tempo. A paisagem da janela do carro era o convite ideal pra devaneios.

A partir dos 12, a estrada inspirava futuros gols, jacarés, ondas. E um naquinho mais tarde pensava nas meninas que possivelmente encontraria na praia. Fantasiava os primeiros beijos e romances. (A partir daí meninas seguiriam, de diferentes formas, a ocupar esse papel. Até hoje. Só a menina que é sempre a mesma, a mamãe)

Depois, o tempo cruel e implacável tirou a vovó e o vovô dessas trips praianas. Já não tinha a menor graça viajar com os pais. O rolê agora era em galera. Período que sempre ansiei quando criança olhando os jovens cabeludos. Bem Belchior mesmo. Papai sempre pirou nessas de cabelo ao vento.

Essa mesma nova estrada sempre foi parte da viagem, os primeiros capítulos da experiência toda. Íamos viajando de São Paulo até o mar. Quando tinham meninas no carro, a parada era mais legal. Os olhares e sorrisos eram pistas do que poderia rolar. Expectativa. Adorava esse jogo que misturava ansiedade e ingenuidade. A estrada era um prenúncio do que poderia ou não. Inúmeras vezes papai, durante a estrada, nutria esperanças mil não concretizadas e voltava, pela mesma estrada, lamentando o romance e possibilidades não vividos. Mas às vezes, poucas e especiais vezes, rolava algo lindo. E a estrada de volta era só sorriso/lembrança.

Com amigos o trajeto era animado. Ninguém calava a boca. Música alta. Aquelas teorias que até fazem sentido careta, mas se prolongavam à exaustão no entusiasmo chapado de nossas cabecinhas. Ainda assim, nesse lindo caos, sempre rolava, no auge da brisa ou das cores nas janelas, meu momento em silêncio. E como você faz hoje, olhava pela janela com meus olhos famintos, vermelhos, e bem menores que os seus, e delirava em mundos particulares. Pela janela, sonhava com todas as possibilidades que a praia reservava.

O tempo seguiu sua estrada natural e papai, idem. Passei a ir à praia povoado por essas memórias e muitas vezes acompanhado por algum amor. Viagens mais calmas e igualmente deliciosas. Agora, a esperança era pegar uma praia vazia pra ficar com a companheira sossegado e nadar pelado (melhor jeito de entrar no mar, viu pimentinha. Sempre que possível: pelado) Atrás de praias mais vazias, a estrada e a viagem se alongavam.

Nessas teve muito pneu furado, chave dentro do carro trancado, carro atolado, quase batidas, acidentes testemunhados, brigas com namoradas, amigos, pastéis deliciosos, pastéis horríveis, caganeira, sono, multas, infrações, trânsito sem fim, luzes estranhíssimas no céu, tempestades. A estrada, metáfora perfeita da vida, realmente reserva mil fitas. Mas o delírio pela janela é o que mais comove.

Teve, mais recentemente, a fase de ir com a mamãe a praia. Inesquecíveis, porém poucas vezes só nós dois, você logo veio e somou outra realidade. E agora viajamos assim. Com você, pimentinha, no banco de trás e o carro atolado de tudo que é coisa de bebê. Além da Caetana, nosso violão, que ocupa bastante espaço.

Essa é nossa primeira viagem, amor, e mesmo que não se lembre de nada ela estará pra sempre contigo. Essa e todas as outras milhares que pretendo fazer ao seu lado. Espero que você logo entenda que sempre que cair na estrada, mesmo sem companhia alguma, você nunca estará sozinha.

No meu caso, a estrada junto de todas essas memórias, sempre estão comigo. Passei a desbravar estradas mais longas, mas olha, assim como nunca é a mesma estrada, curiosamente, é sempre a mesma estrada. Não sei te explicar direito. Fato é que essa viagem que você faz hoje pela primeira vez, ao meu lado, você fará pra sempre. Toda vez que cair na estrada meu amor, todas as outras vezes, você levará junto.

Sua bagagem mudará. Do carrinho de bebê e berço passará a piscininha e bóia. Depois, bicicleta com rodinha, sem, prancha de surfe, e todas aquelas coisas que inventam pra fazer no mar. Até o dia em que viajar com os pais será chato a valer. Ainda, assim, pequena, você vai me levar de alguma forma. E seguirá levando, mesmo quando o carro voltar a ser ocupado por berço, piscininhas e bóias dos seus possíveis filhos. (se assim quiser)

Em pouco estaremos no mar.

06.11.14

Trilha para leitura: