OPINIÃO
28/04/2015 12:19 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Só consegui te conhecer, minha filha, nas nossas primeiras férias juntos

E agora estou apavorado de voltar pro trabalho. Apavorado com o fim desse momento único em nossas vidas. E mais apavorado ainda com a possibilidade de ter essas migalhas, chamadas direitos, aniquiladas pelos engravatados do dinheiro. Apavorado que a rotina cansativa me massacre e eu não consiga ser seu pai e companheiro.

Geoffrey Archer/500px
A young father walks in the early morning light carrying his baby.Father and Child. I have posted a story on my blog about how I got this shot. You can see it here:http://archerimagingphotography.blogspot.com/

"Suas férias estão acabando, amor"

Foi assim, com essas exatas palavras, que minha alma gêmea, companheira de vida e sua mãe, acabou comigo.

Foi como ouvir de um velho conhecido, que há muito não vejo, dizer: "nossa, como cê envelheceu".  Sim, é inevitável. Mas nem por isso é menos doloroso, pequena.

Envelhecemos e férias acabam. Sempre. Todo carnaval tem seu fim, dizem.

Até você, coisinha pequena, envelhece. Outro dia, quase ontem, parecia uma ratinha com dois meses. Agora, já é uma mini pessoinha linda que sorri, se expressa, faz manha, e ama.

Quando você ler isso, será mais velha e provavelmente fará essas coisas melhor ainda, tomara.

 

Sabe, pequena, nunca me conformei muito com isso. Essa lógica da vida. Sempre achei que tinha que ser o contrário, tipo Benjamin Button, saca? Começaríamos velhinhos dependentes e iríamos nos aprimorando. O corpo rejuvenescendo, ganhando força e vitalidade até o auge. Quando chegássemos a sua idade, finalmente, após desfrutarmos de toda nossa sabedoria, saborearíamos a infância sem dor ou medo. Até voltar pra barriga da mamãe, no quentinho e aconchego. Seria lindo. 

 

Na real, pimentinha, queria falar sobre o fim dessas nossas férias. Se falo de vida e morte é porque assim que tô lidando com a coisa. Papai é que nem você, um tanto quanto dramático.

 

Vejo pessoas passando por essas coisas da vida, tipo o fim das férias, com uma dignidade invejável. Eu, pessoalmente, tenho vontade de espernear, chorar, largar tudo. É, entendo de onde vem esse teu temperamento, minha pessoinha.

Essa tchurma que lida super bem com o fim das férias, plantões sem fim,  horas extras não remuneradas  e acha justo "afinal, escolhemos essa profissão" costuma ser bem pequena, formiguinha, resignada mesmo. É o tipo de gente que não sabe sonhar. Só amam carros grandes e o mais novo modelo novo da mais nova coisa nova. Eles também costumam valorizar muito a ideia de um super-herói que mora no céu e tem o controle de tudo, mas acham inconcebível a ideia de outras formas de vidas fora deste planeta.

Não me dou muito com essa galera, cigarrinha.

 

Escrevo isso enquanto você se esgoela ao meu lado no colo da mamãe. E temo pela intensidade com que possa encarar a vida. Já te falei, esse caminho é perigoso. Quem vive assim tá sempre `a beira da insanidade. Do abismo da loucura. É o preço que se paga: se decidir ser uma maluca beleza corre o risco de virar uma maluca varrida, entende? Você precisa aprender a ter equilíbrio nessa corda bamba louca, pra poder tirar o máximo de tudo, não se conformar com os absurdos cotidianos e, ainda assim, não pirar. (Agora, além de seu choro, ouço o Caetano cantando com sotaque português de Portugal, "navegar é preciso, viver não é preciso". Ilustra bem. Seu choro e o Caetano)

 

Eu sei que ficar reclamando feito um doido o fim das férias e comparar isso à morte não é bem um exemplo saudável de como se levar a vida. Talvez o caminho seja o meio termo entre a infantilidade vitimista de odiar o sistema e a conformidade obediente do gado.

Pegar as coisas boas e úteis de cada lado: nunca aceitar como irreversível a opressão diária e também não se torturar tanto quando tiver que se submeter a vontades alheias a sua. Tipo, encarar com sabedoria possíveis passos pra trás. Desvios estratégicos pra um objetivo maior podem ser necessários, sabe? E, bem, inúmeras vezes você terá que fazer coisas não tão legais para conseguir emplacar coisas incríveis. O lance é calcular bem essa matemática e pesar o que vale sua momentânea rendição ou não. É uma conta difícil sem números exatos, mas você tem que estar sempre atenta.

 

Veja, o modelo atual já é absurdamente cruel para a maioria da população, os trabalhadores. E bem confortável para minoria, os patrões. Absurdamente cruel, mas poderia ser ainda pior. Temos uma série de direitos garantidos, com muita luta, por uma coisa chamada Consolidação das Leis de Trabalho. Pois bem, assim como esses direitos existem, existem também mil maneiras de driblar essas leis e lucrar em cima do suor alheio. Um dos jeito mais populares de esmigalhar a vida dos trabalhadores e aumentar o lucro chama-se terceirização.

 

E olha que curioso, enquanto te escrevo essa carta, neste exato instante, os senhores do poder, comprometidos com a galerinha privilegiada, querem aprovar um projeto de lei que regulamenta todo tipo de terceirização. O tal projeto é polêmico. Eles, os poderosos, argumentam que muita gente já é terceirizada (triste verdade) e por isso é necessário regulamentar a situação (faz sentido). Mas para isso, no balaio, querem autorizar uma terceirização quase irrestrita, incluindo a atividade fim de uma empresa. Você é um bebê e não tem a menor ideia do que é terceirização. Basicamente, e simplificando, terceirização, segundo estatísticas, quer dizer salários menores, maiores jornadas de trabalho, mais acidentes e menos direitos. 

 

Imagina que, no modelo atual "não terceirizado", só consegui te conhecer, minha filha, nas nossas primeiras férias juntos. Não fosse isso, seríamos apenas um barbudo sempre atrasado, atrapalhado, irritado carregando você - uma carequinha feliz e curiosa observando tudo sem sacar muito bem nada.

 

Nessa nossas primeiras férias juntos fizemos tanta coisa. Vivemos.

Foi curioso que eu demorei uns 10 dias pra conseguir finalmente relaxar. Descomprimir e aprender a respirar sem as correntes do mundo de lá. A liberdade é um troço complicadíssimo. Tanto que eu me assustei com ela e só depois de uns 10 dias e muito esforço me entreguei e relaxei. Não foi fácil, mas valeu a pena.

 

No primeiro dia, você conheceu a estrada e o mar (!!). Ouvimos a discografia toda do Caetano umas 800 vezes. Lemos, quer dizer, eu li uns 10 livros, dez vezes mais do que li desde que você chegou. Corri zilhões de quilômetros na praia. Nadei da única forma que deveríamos nadar no mar, pelado. Nadei de sunga também. Você ficou numa nice  tirando onda na piscininha. Tomou mais sol do que o recomendado. Foi picada por mil pernilongos pra loucura da sua avó. Conheceu um aquário enorme de peixes jurássicos. Experimentou sua primeira fruta, melancia. Depois açaí e por fim umas lambidas num sorvete de goiaba. Brincou com a sua priminha, Lina. Fizemos musicas. E mais um montão de coisa. Você só não aprendeu a dormir (embora papai e mamãe estejam estudando um método que promete devolver o sono a nossas vidas).

 

Mais importante que tudo isso, goiabinha, nos conhecemos.

Vi sua evolução. E foi brutal, em menos de um mês você aprendeu tanto. Cresceu tanto. Dá pra ver no seu jeito de olhar pras coisas, como mudou. Quando eu fiz a barba e você demorou a reconhecer quem era esse novo rosto. Você tem opinião e gostos agora. Coisas que no dia a dia do trabalho alienante, lá na selva de pedras, passavam despercebidas agora explodem na minha cara. E é lindo de ver e viver. Ouso dizer, que nasceu um pai aqui. Mamãe já sabia disso tudo graças a licença dela do trabalho. (seis meses contigo de licença maternidade mais um de férias, direitos garantidos pela tal CLT e sob ameaça pela terceirização e por um devaneio do senhor que governa São Paulo que aparentemente não gosta de trabalhadoras grávidas)

Infelizmente não existe (ainda) licença paternidade, portanto, conheci você apenas agora, minha filha. Pra além do bebêzinho chorão que não me deixa dormir, conheci a pessoinha de personalidade forte que sorri com os olhos e o corpo todo. E já aprendi um tantão contigo.

 

E agora, tô apavorado de voltar pro trabalho. Apavorado com o fim desse momento único em nossas vidas. E mais apavorado ainda, com a possibilidade de ter essas migalhas, chamada direitos, aniquiladas pelos engravatados do dinheiro. Apavorado que a rotina cansativa me massacre e eu não consiga ser seu pai e companheiro que estou sendo aqui. De perder as novidades (cada dia tem mil coisas novas que cê aprende e me ensina. É muito foda.)

E é nessa toada que não consigo achar normal trabalhar o tanto que papai e mamãe trabalham. Não é justo. É um modelo cruel, desumano. Perdemos  o que importa na vida. Que é você, o mar, e essa coisa toda.

 

Sei que dirão que não fosse o trabalho e a opressão cotidiana, as férias não teriam tanta graça. Pode até ser, mas foda-se. Eu quero uma vida lazer ao seu lado. Quero aprender a viver assim e te ensinar.

Nada parece mais importante que isso. 

 

Olha, não quero te apresentar becos sem saída tão cedo, amor. Temos que dar um jeito, né? Ganhar dinheiro suficiente, e viver o tanto que quisermos. Tentando ser otimista, eis meus conselhos:

Faça algo em que acredita muito. Papai realmente acredita na força transformadora de  contar boas histórias (minha profissão) e vou focar nisso. Ou seja, encontre um trampo que faça sentido pra você. Independente de grana. Você tem que se divertir e acreditar no que faz. Do contrário, o vazio ganha.

Outra coisa, e talvez a mais importante, não tope trabalhar mais do que cinco dias seguidos. Finas de semana fazem toda a diferença do mundo. Juro. Muda toda a qualidade de vida. Um fim de semana perdido, sempre será um fim de semana perdido e irrecuperável. Trabalhar só é legal se você gosta e vê sentido no que faz. Vão tentar te convencer que trabalhar enobrece. É mentira. Vão maquiar de todo o jeito a opressão usando nomes distintos, mas que nunca deixará de ser o que é, exploração. Não existe esse lance de sacrifício. E nenhum céu pós morte vai te compensar pelos esforços vividos aqui. Ou até vai (afinal, o que o papai sabe?) mas você definitivamente não pode contar com isso. Cê tem que tirar o melhor do aqui. Dessa vivência nesse planeta. Depois, o que vier, se vier, será lucro. 

Ah, uma ideia interessante , porém mais complicada de explicar, é romper com essa a dicotomia viver versus trabalho. Essa oposição é tola. Tem que ser uma coisa só, saca? Viver é seu trabalho. Seu trabalho é viver. Uma vez que apenas existir já é nosso papel no mundo, já é o que fazemos, e é nossa função social, ter prazer vira trabalho. Tudo ao seu redor e toda experiência alimentam seu trampo e vice versa, pois essencialmente trata-se de uma coisa só. Acho que isso fica mais claro nas profissões "criativas", mas bem, qualquer profissão pode ser criativa se você for uma pessoa afim de ser criativa. (Talvez tenha ficado confuso, né, amorinha? Prometo me esforçar pra entender e te explicar melhor no futuro)

 

E por fim, trabalhe e viva a valer, mas não deixe de lutar pelo seus direitos.  Alias, trabalhe e viva pelos seus direitos e os dos outros. Seja você patroa ou funcionária, cigarra ou formiga, nunca deixe de velar pelo que importa.

 

E como eu não vou terceirizar minha paternidade, ficarei com você todas os segundos possíveis, sonolentos e escassos fora do trabalho, mesmo que isso me leve a insanidade por estafa. Cada segundo contigo vale um trilhão de infinitas vezes mais que qualquer tempo.

 

Beijos e muito Amor. O sempre trabalhoso Amor.

 

Papai. 27.04.15

Para ler ouvindo: Legião Urbana - Música de Trabalho