OPINIÃO
14/05/2015 18:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Pequena, te apresento o mito

ALE CABRAL/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Pequena mascotinha,

Aqui acaba a carreira do Rogério Ceni.

Quando você começar a se interessar por futebol, ele será apenas um nome.

Como eu sempre ouvi sobre o Pelé, Garrincha e tantos outros, você vai ouvir falar de Rogério Ceni.

Sempre que ouço sobre esses gênios do futebol de décadas atrás que nunca vi em ação, me pergunto se foram de fato tudo isso. Quer dizer, Pelé e Garrincha são meio incontestáveis. Mas tem uma lista enorme de grandes jogadores que nunca saberei se o talento condiz aos relatos. Provavelmente não. O passado, a nostalgia, a memória afetiva tendem a romantizar muita coisa. Nos esquecemos das falhas, dos dias ruins e lembramos apenas da magia e dos dias de glória.

Bom, te escrevo hoje para deixar claro que não é o caso do Rogério. Ele é "deus". O mito é real.

Veja, eu talvez seja o são-paulino mais crítico ao Rogério Ceni. Nunca curti muito as declarações dele, achava-o muitas vezes arrogante, me irritava com a postura dele em diversos momentos.

E, basicamente, como um torcedor corneta, reclamava muito. Inventava que gols inevitáveis eram defensáveis. Mas só cobrava o impossível porque sabia que apenas ele seria capaz de realizar. Só exigimos tanto de alguém em que confiamos. Eu não cobraria isso de qualquer outro goleiro.

Eu implicava tanto com o Rogério que até questionava o fato dele querer bater faltas. Veja, amo incondicionalmente todos os seus 127 gols. Mas achava um excesso egóico qualquer goleiro querer bater falta. Olha que imbecilidade a minha! Amorinha, se fosse apenas ego, ele bateria umas faltas e passaria alguma vergonha. Não. Além da vontade, o cara treinou como um maluco as cobranças. Obstinado, praticava cobranças sem fim após o término dos treinos. Isso é importante.

Ele deu o primeiro passo: querer bater faltas, o que até poderia ser interpretado como uma vaidade descabida. Mas o segundo passo foi treinar, treinar e treinar até se tornar o melhor cobrador de faltas do país. Não teve medo do ridículo, e depois se garantiu com trabalho. Lembrando outro herói tricolor recém aposentado, "Aqui é trabalho!"

Entende que é essa a diferença entre o nosso "deus" para os demais?

O Fábio, goleiro do Cruzeiro (time que nos eliminou) falou muito sobre o Deus dele após o jogo. Um discurso clássico entre jogadores de futebol e basicamente da nossa sociedade. Ao comemorar uma vitória atribuímos ao Deus que mora no céu e esquecemos que isso soa como "eu acredito mais em Deus do que o time perdedor" ou, "Deus gosta mais de mim do que deles". Eu confesso não saber se esse Deus de fato existe. Mas se existe, tenho toda a certeza de que ele não liga muito para futebol. Sabe, pessoinha, entre esse Deus do céu que decide partidas de futebol e o deus humano batalhador e suscetível a falhas, Rogério Mito Ceni, eu fico com o segundo.

Com a eliminação para o Cruzeiro, o deus dá adeus à taça Libertadores da América e provavelmente em poucos meses ao gol do nosso São Paulo Futebol Clube. É provável que ele fique no mundo do futebol, como treinador, presidente, gerente de qualquer coisa, enfim, o que quiser. Mas será outro Rogério. Uma outra história a ser construída. Nos despedimos aqui do nosso camisa dez invertido.

Foi uma noite triste, um jogo triste. Sempre imaginei/sonhei com a despedida erguendo a taça. O Rogério, uma vez mais, foi o melhor em campo. Pegou dois pênaltis e converteu um. Ainda assim, perdemos. E não jogamos bem. Futebol e a vida são assim, minha bolinha.

Por mais justo que soasse a despedida do Rogério ser levantando a taça ao lado do Muricy, a vida, os deuses do futebol, a bola que pune, o destino, a avenida sob as costas do Reinaldo e a mira do Souza, Fabuloso e Lucão não quiseram assim.

Perdemos nos pênaltis porque basicamente os jogadores do outro time cobraram melhor. Não quer dizer nada além disso. A derrota faz parte. E, na verdade, na vida, perdemos muito mais que ganhamos. O São Paulo, por exemplo, é o time brasileiro que mais ganhou a Libertadores. Mas para isso perdemos outras três finais e fomos eliminados outras 11 vezes. Ou seja, para ganhar três foi preciso competir 17 vezes. Só perde quem tá no jogo.

Isso, quero que você entenda: a vida não nos deve nada.

Temos que fazer o nosso apenas. Garantir que estamos preparados. Não podemos nunca entrar em campo sem nos doarmos cem por cento. Mas isso, infelizmente, não é garantia de vitória. É apenas o que temos que fazer. Não existe essa onda de merecimento, sabe? Estando preparados e nos dedicando ao máximo, apenas diminuímos um pouco a chance de derrota. E, bem, dormir após uma derrota, com a certeza de que fizemos tudo ao nosso alcance, é digno e menos doloroso, acredite.

O que não quer dizer que ver o Rogério se despedir assim seja fácil. Dói também. O desempenho do time foi pífio, a diretoria são paulina e seu presidente parecem viver em outro mundo. Mas essa carta não é sobre essas coisas feias. É sobre o fim de uma história linda. É sobre a despedida do mito.

Neste momento de despedida, é inevitável não pensar no que fica.

E o que fica é muito. É o que importa: Tudo o que o Rogério já fez pelo e para o São Paulo. A trajetória dele mistura-se com inúmeras lembranças do papai, minha pequena tricolor. (Assim como com a de milhares de outros tricolores) Na memória levo um zilhão de títulos e vitórias. As derrotas também. Umas mais dolorosas que outras. Defesas mágicas, alguns frangos. E os momentos que se cristalizaram em minha memória por motivos afins.

Alguns anos atrás, o São Paulo jogou contra o Corinthians e eu assistia junto ao titio Pedrão. O São Paulo não estava lá muito em alta, existia um tabu de não vencer os caras, e o Rogério estava a um gol da marca do centésimo. O tio Drão estava com o coração partido por conta de uma moça. Pouco antes do jogo, conversávamos lamentos, fossa de amor e essa coisa toda. O Drão me disse meio entre o angustiado e o esperançoso que se ganhássemos o jogo de virada com gol de falta do mito, ele voltaria a acreditar no amor. Achei que aquela fala colocava muita coisa em jogo e poderia zicar. Mas respeitei a dor alheia e não falei nada. Assistíamos ao jogo sob aquele peso quando rolou uma falta próxima a área mas não no local preferido do nosso goleiro artilheiro.

O Rogério foi bater mesmo assim. Trocamos olhares, e eu quis prevenir o Drão. dizer, "cara, se não entrar não significa nada. Você vai superar essa. A falta nem é no local ideal. O amor está aí, blá, blá, blá" Mas diante do mito ajeitando a bola, calei. E o amor venceu. Foi gol. O centésimo. Uma marca história para o futebol e também para o Pedrão que saiu gritando pela janela "Eu acredito no amor!!! Eu acredito no amor!!!" E ganhamos aquele jogo de dois a um, como o amor quis. Ah, e por acaso, ou não, depois de alguns anos e desencontros, ele e a moça estão juntos.

A final do mundial de 2005 é algo épico e indescritível. As defesas daquele jogo merecem um museu exclusivo para elas. Coisa de cinema. De super-herói. Do mito. Qualquer tricolor sabe exatamente onde estava naquele jogo. Como foi difícil ficar acordado após a balada até as 8h. Cada jogo, uma recordação, um pedacinho de quem somos, meu amor. Independente da vitória ou não.

A carreira dele é gigantesca e tão longa que nem lembro direito de como era torcer sem ele lá. Quando pra mim o futebol ainda era uma coisa exclusivamente lúdica e nem sacava direito o que rolava, amava o Zeti, goleiro antecessor do Ceni. Gritava Zeeeeeti, por aí o tempo todo. Mas desde que comecei a entender o que era impedimento, era o Rogério quem tava lá. Sempre.

O mundo profissional do futebol permite que um jogador vista a camisa de um time e a do rival na temporada seguinte. O cara que tava beijando o escudo aqui, beija outro acolá sem cerimônia. Odeio essa lógica, mas as coisas são assim. Nem dá pra criticar um cara por aceitar a melhor oferta de trabalho. Mas o mito, não. O mito é São Paulo Futebol Clube. Ainda que fosse um jogador medíocre, sua fidelidade já bastaria para reverenciá-lo.

Nenhum outro time do mundo pode dizer que teve isso. Nenhuma outra geração. Palmeirenses adoram comparar o Marcão, o santo deles, ao nosso deus. Mas não é igual. O Marcos é um goleiro incrível. E parece ser uma pessoa bem bacana. Mas o ponto alto da carreira dele foi com a seleção brasileira. Eu comemorei o Marcos junto com os palmeirenses. Ou mesmo o Pelé com o Santos. A relação é outra.

O fato do Rogério nunca ter emplacado na seleção, contraditoriamente só o enaltece para nós tricolores. É uma lógica maluca, mas real. Ele é coisa exclusivamente nossa. Ganhou o mundo conosco. Para nós.

A comparação com o Marcão é clássica. Ambos criaram uma relação linda com seus clubes, são goleiros, são caras fora de série, e tudo o mais. Mas novamente, o Marcão é meio consenso. Todos o acham gente boa, boa praça. Já o Rogério é odiado. E isso, mais uma vez, por mais contraditório que soe, só o enaltece. É como se o Marcão fosse querido por ser meio "inofensivo" aos demais clubes. (Na real, não pretendo me estender nessa comparação absurda pois é óbvio que mesmo o Marcos sendo o São Marcos que de fato é, não chega e nunca chegou aos pés do Mito Deus Ceni)

Acredito que torcedores de outros times jamais entenderão o que nós tricolores sentimos nessa despedida. É como a já eterna frase diz: "Todos têm goleiro. Só nós temos Rogério".

Ps: Sei que papai sempre enfatiza que é libertário e respeitará todas as suas escolhas. E pretendo respeitar mesmo. Agora quanto a isso, apenas isso, não há dúvidas ou escolhas: Você, mascotinha, é são paulina.

Amor e beijos tricolores,

Papai.

14.05.15

Trilha para leitura: Los Hermanos - O Vencedor: