OPINIÃO
24/04/2015 17:26 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

A partida de quem fica

A partida do Galeano me fez lembrar da minha viagem, que me lembrou o conto do pai apresentando o mar ao filho, que me lembrou quando te apresentei o mar, que me lembrou seu nascimento. Espero que quando você ler, lembre coisas bonitas. E o que não lembrar, carregue de cor.

Mariela De Marchi Moyano/Flickr

Pequena indiazinha,

No dia 13 de abril o titio Eduardo Galeano morreu. Ele já tinha uma certa idade e, bem, essa história de morrer vai acontecer com todos nós, maiazinha. É bacana tentar evitar que isso aconteça cedo demais, embora, não caiba a nós. Mais importante que se preocupar com a partida, é não vivermos uma vida morrida. Estarmos vivos no presente, entendeu? Atentos a miudezas gigantes da vida. Longe da resignação e da má preguiça - aquela que imobiliza- e perto da boa preguiça -aquela de deitar na rede no fim de tarde sem culpa nenhuma ouvindo "Desde que o samba é assim" com os tios Cae e Gil.

Suspeito que o tio Galeano tenha feito isso durante sua passagem por aqui. Não posso afirmar com toda certeza. Não o conhecia, e sei pouco sobre sua vida, mas posso dizer que ele definitivamente ajudou o papai a colocar essa "sabedoria" em prática.

Sabe, minha astequinha, papai não é um grande leitor do Galeano. Li pouca coisa e há muitos anos. A primeira vez que tive contato foi na faculdade. Olha que tarde! Por isso, farei questão que você o conheça antes disso. Na época, durante o curso de jornalismo, montamos um grupo de estudo sobre "As veias Abertas da América Latina". Fui pouquíssimas vezes aos encontros, mas li o livro. E bateu forte. Por conta desse livro, quis fazer uma segunda faculdade no curso de História, mas acabei no de Letras. Pra você ver o poder dos livros e como eles podem determinar meio anarquicamente nossa trajetória.

Mais tarde, recém formado em jornalismo, sem ideia do que fazer com o diploma e comigo, papai planejou uma coisa e fez outra. Combinei de ir de carro pra Bahia e passar o ano novo no melhor estado que há no planeta. Acabei mochilando por três meses pelo norte e nordeste do Brasil. Durante esse período, muita gente passou pelo caminho do papai. Eu tava aberto e essa é uma maneira linda de viver, de peito aberto. Às vezes, inquinha, a engrenagem, obrigações e tretas em geral, fazem nos fecharmos, nos escondermos. Isso é um sintoma de vida morrida. Cuidado. Quando viajamos é mais fácil notar esse processo. Por isso, também é bem mais fácil se abrir. Se jogar.

Encontrei um tantão de gente nessas. Hippies harebous, micróbios de estradas, seres de luz, trabalhadores locais, turistas gringos, gente tentando se achar, tentando se perder, malucos funcionais, disfuncionais, revolucionários, burgueses, junkies, religiosos, etc. Todos influenciaram nos rumos dessa jornada de três meses, que, ainda nem sabia, deixaria profundas marcas em quem sou até hoje.

Toda essa turminha que papai esbarrou pelo caminho, nunca mais vi. Lembro de vários, outros nem tanto. Lembro de uma menina bonita e serena. Dessas pessoas que fazem a gente questionar todo nosso modelo de vida apenas com o jeito que dizem oi", sabe? Ela mantinha uma tenda de trocas onde improvisávamos acampamento. Não lembro o que dei pra ela. Só o que ela me deu: "O Livro dos Abraços" do Galeano.

Nunca mais a vi. Mas o livro me acompanhou a viagem inteira e está no meu colo agora enquanto escrevo essa carta a você. Tenho a impressão de que o Galeano iria adorar o fato de o ter chegado a mim (e agora, consequentemente a você) através de uma troca. Hoje, sensibilizado com a partida do Titio Galeano, abri o livro pela primeira vez em muitos anos exatamente em uma página que tinha marcado a lápis um asterisco. Não saberia precisar o que queria dizer com o asterisco que ficava bem acima dessas palavras:

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovakloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Pai, me ensina a olhar!

Eu só lembrei dessa historinha, quando terminei de rele-la agora pouco. Com toda certeza, essa ideia do pai mostrando o mar ao filho ficou enraizada em mim. Mesmo eu não lembrando, tava aqui dentro. Igual a todos os amiguinhos que compuseram meu mochilão. Igual a tudo na vida. Esquecer é, de um jeito torto, uma maneira de lembrar.

A partida do Galeano me fez lembrar da minha viagem, que me lembrou o conto do pai apresentando o mar ao filho, que me lembrou quando te apresentei o mar, que me lembrou seu nascimento. Espero que quando você ler, lembre coisas bonitas. E o que não lembrar, carregue de cor.

Ps: Na Folha de S. Paulo de 16.04 o grande Almino Afonso - homem que teve papel decisivo na luta pela democracia no País e que o papai teve o prazer de entrevistar algumas vezes - fez um relato lindo, sobre como lá por 64 teve sua permanência no Uruguai, durante seu exílio negada. O então jovem jornalista Galeano, com apenas uns 23 anos de idade, mobilizou seu jornal e seu país a lutar contra o absurdo. E foi vitorioso. Veja, minha guevarinha, ele tinha apenas 23 anos. Não importa nossa idade, ou o que fazemos, a vida desse cara deve ser sempre um exemplo e inspiração para todos nós.

Para ler ouvindo Todo Cambia, Mercedes Sosa: