OPINIÃO
02/02/2015 16:02 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Segundo lugar em concurso, Sheislane errou ao arrancar a coroa da Miss Amazonas 2015? Pelo visto, não

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(Foto: João Lira)

Eu ainda estava na fila de passageiros que se preparavam para sair do avião, ao chegar em Manaus após três semanas de férias entre o Rio de Janeiro e São Paulo, quando liguei o celular e visualizei o vídeo de 36 segundos em que a segunda colocada do Miss Amazonas 2015 arrancava a coroa da candidata vencedora no meio da cerimônia, em mais de um grupo de conversa que participo no aplicativo Whatsapp. Não muito tempo depois, já esperando as minhas bagagens na esteira número 2 do aeroporto internacional Eduardo Gomes, vi os primeiros memes postados nas redes sociais móveis.

Márcio Braga, um dos mais conhecidos humoristas de Manaus e meu colega de trabalho na Rede Calderaro de Comunicação (ele na TV e eu no Portal A Crítica), que voltava de São Paulo no mesmo voo que eu após participar de um espetáculo com Marcelo Serrado e Paulinho Serra, estava do meu lado vibrando com cada novo detalhe do "babado" ocorrido durante a 60a edição do evento e já postava em suas redes o vídeo que correria o mundo ao longo as próximas horas.

Na manhã seguinte ao incidente, trágico se não fosse cômico, as timelines de Facebook, Twitter e Instagram estavam recheadas de memes, frases e observações satíricas sobre o ocorrido. O sábado em si deve ter sido exaustivo para a Sheislane Hayalla, de 23 anos, agora vice-Miss Amazonas 2015. Mas aquela exaustão boa, satisfatória - afinal, foi uma maratona de entrevistas concedidas para jornais, sites e emissoras de TV, locais e nacionais. Além disso, a bela deve ter passado bastante tempo em frente ao computador, conferindo as diversas matérias a seu respeito, publicadas em veículos de grande porte como o próprio Brasil Post, O Estado de S. Paulo e até o britânico The Mirror. As meras opiniões, rachadas entre apoio e condenação, já não importavam mais.

Ainda no sábado a noite, fui para uma festa de aniversário que disponibilizava aquelas plaquinhas engraçadas para os convidados segurarem nas fotos e, para minha surpresa, já tinha uma que dizia "Somos todos Sheislane!" (Eu, claro, achei muito engraçado e até tirei foto segurando-a, assim como quase todos presentes na festa). No domingo, um food truck local já anunciava o "X-Lane", sanduíche feito com hamburguer artesanal, queijo e batata frita, e que ainda dava como brinde uma coroa de plástico. Cansada, a segunda menina mais bonita do Amazonas deve ter dado um profundo suspiro antes de dormir, já pensando no que diria na segunda-feira, quando deve dar entrevista em rede nacional. Não havia mais nada a ser feito - Sheislane Hayalla já tinha alcançado seu objetivo e estava famosa.

Não pude evitar de me perguntar como tudo isso aconteceu. A rapidez já nem espanta mais: em tempos de internet móvel, nada se perde, tudo se publica. Os memes são, atualmente, uma reação natural ao que se torna viral. Mas, será que ela agiu por impulso, no calor do momento sem perceber seu arredor, ou foi tudo calculado, do tipo "se eu não ganhar o título, ganho visibilidade"? Impossível não lembrar da trajetória da Andressa Urach, ex-vice-Miss Bumbum e atual subcelebridade brasileira. Vocês lembram a vencedora daquele concurso? Nem eu, mas todos nós sabemos quem é Urach e sua lista de "conquistas". Sheislane pode ter ganhado o ódio da Miss Amazonas Carol Toledo, mas também saiu do palco naquela noite com algo único: visibilidade nacional. Está feliz com isso, principalmente por saber usar bem esta chance, e tem a nós, brasileiros ávidos por barracos, a agradecer.

Ela pode ser tudo, menos burra. Ainda com o vestido usado na premiação, ela compartilhou um vídeo em que explicava o ocorrido e agradecia o apoio que vinha recebendo - afinal, ela desceu do palco aplaudida até mesmo por outras candidatas. "Já fui para concurso internacional sozinha, representei muito bem o Brasil e o meu Amazonas e, realmente, não acredito que uma candidata que não consegue ficar sem seu maquiador, ficar sem sua mãe ou ficar sem qualquer pessoa 24 horas ajudando possa ganhar o concurso e representar o Amazonas e o Brasil", provocou, acusando a família de Toledo de ter comprado a tão cobiçada faixa.

Em entrevista exclusiva ao Portal A Crítica, ela disse que essa foi a forma que encontrou para protestar, "para que futuramente o concurso aconteça de forma limpa". "Eu tive um relacionamento tranquilo com todas as candidatas. Muitas viraram amigas. A Carol sempre foi muito antipática com as outras meninas, não conversava, não sorria, falava pouco. O que eu sou aqui, sou na frente de qualquer pessoa", desabafou, tranquila, dizendo que há mais de um ano já ouvia que a Carol é quem ganharia o concurso.

Colegas jornalistas que encontraram com ela neste dia a classificaram como "um amor de pessoa" e que "fala muito bem". Pouco depois de revelar que tinha investido cerca de R$ 10 mil neste concurso, ela já posava para fotos sorridente, simulando que arrancava coroas falsas das cabeças de "fãs", sem nenhum tipo de constrangimento. "As meninas (outras candidatas no Miss Amazonas 2015) me procuraram sim, para agradecer. Recebi mensagens das mães delas dizendo que eu fiz o que elas tinham vontade de fazer", acrescentou, ainda na entrevista.

Segundo outro portal de notícias local, Sheislane já possui um assessor que monta toda a sua agenda. "O telefone não tem parado com pedidos de entrevistas e as mensagens nas redes sociais - tanto de apoio como de repúdio - multiplicam a cada instante. Com a visibilidade, segundo a vice, nada calculada, a hora agora é de olhar para o futuro", diz o texto, revelando que ela, agora, planeja uma carreira como atriz no Rio de Janeiro. Jackpot!

Em que ponto, e por qual motivo, uma atitude errada se torna certa? Os fins justificam os meios - ou seja, a ação vai dar início a uma investigação para acabar com concursos de belezas comprados -, ou foi apenas uma estratégia de marketing acertada, quando uma menina bonita não via outra forma de ficar famosa? Dá até vontade de iniciar um parágrafo indagando que país é este, em que um ato indecente e que deveria ser taxado como vergonhoso, ganha tanta repercussão e apoio, mas num Brasil às avessas, com problemas tão mais sérios, só nos resta rir junto. Nós sabemos que a mídia não vai ignorar isso, apenas publicando o vídeo sem ir atrás de exclusivas com Sheislane. As pessoas vão deixar de clicar no post, para ter a curiosidade saciada? Não. Ao invés de ser virtualmente apedrejada, a vice se tornou forte candidata a participar de programas como o reality show A Fazenda, da Record. Com essas reflexões deixadas no ar, só posso perguntar mais uma coisa: quem somos nós para julgar? Sucesso, Sheislane, mas cuidado com o hidrogel!

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