OPINIÃO
15/06/2014 15:14 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

O jogaço na Arena da Amazônia e o que podemos aprender com os ingleses

A Inglaterra começou perdendo e em nenhum momento a sua torcida mostrou sinal de descontentamento. Pelo contrário, os gritos de guerras eram constantes, variados e decorados pelos europeus. Cada tentativa de ataque, por mais frustrada que fosse, era aplaudida de pé, assim como os bloqueios, e a motivação era constante. Não houve desmerecimento dos jogadores nem tentativa de culpar alguém por algum erro.

Bruno Zanardo via Getty Images
MANAUS, BRAZIL - JUNE 14: Fans arrive before the Group D match between England and Italy during the 2014 FIFA World Cup at Arena Amazonia on June 14, 2014 in Manaus, Brazil. (Photo by Bruno Zanardo/Getty Images)

Manaus tem uma ligeira vantagem em cima da maioria das cidades-sedes desta Copa do Mundo: sua beleza natural. Dizem que o por do sol aqui na Amazônia é um dos mais belos do Brasil, e foi sob um entardecer rosa e lilás que Inglaterra e Itália fizeram suas estreias na competição, na Arena da Amazônia.

Se a ansiedade dos gringos era grande, como podia-se notar desde o início da semana -- principalmente por parte dos ingleses, que "dominaram" a noite no Centro Histórico da capital amazonense -- o mesmo podia-se dizer sobre os torcedores locais.

Muito falou-se sobre a alta temperatura de Manaus e as consequências que isso poderia trazer ao jogo, um clássico mundial, e à stamina dos atletas. A Mãe Natureza parece que pressentiu todos estes sentimentos no ar e o último sábado (14) amanheceu como é típico no verão amazonense: com poucas nuvens, uma leve brisa de vez em nunca e um sol queimando impiedosamente a pele.

Não quero entrar no mérito da polêmica criada pelo treinador do English Team, Roy Hodgson, ainda antes do sorteio final da Copa, quando ele disse que Manaus era a sede a ser evitada e teve o azar de cair aqui. Toda uma novela se desenrolou a partir daí, e os tablóides britânicos aproveitaram o gancho para criar fábulas sobre a cidade, alertando torcedores sobre que cobras e tarântulas que andavam nos arredores do novo estádio.

Nos últimos dias, o gramado da Arena da Amazônia foi o novo alvo de críticas, após o jornal inglês The Guardian publicar imagens de uma grama desgastada e com partes "carecas" e sem cor. Por todos esses motivos -- volto a repetir -- a ansiedade estava "no talo", como diz o caboclo, e Manaus respirava futebol desde as primeiras horas do dia.

A ida até a Arena foi tranquila. Trânsito lentamente fluindo, multidões se dirigindo calmamente em direção ao palco do jogo, forte presença policial e só linhas especiais de ônibus circulavam além dos bloqueios. Na entrada, uma fila menor do que esperada recepcionava os torcedores, e a entrada se deu rápida e ordeiramente.

Os voluntários estavam em todos os lugares e ajudavam bastante, com propriedade e clareza. Os torcedores ingleses eram, sem dúvidas, os mais animados num ritmo que contagiava -- e estimulava -- paradas para fotos com brasileiros. Só não eram maioria porque quase todo o resto do público presente estava de azul, em alusão à Azzurra.

Já na arquibancada, era notável a quantidade de assentos vazios, e isso a 15 minutos do início do jogo. O local só ficou realmente lotado no fim do primeiro tempo, mas não o suficiente para encher a recém-entregue Arena: o público total foi de 39,8 mil, 200 pessoas a menos do que a capacidade máxima para jogos da Copa (a lotação máxima normal é de quase 44 mil).

O jogo foi bom. Não foi espetacular, nem o mais emocionante da fase de grupos na competição. Mas certamente divertiu quem pagou para ver. O gramado realmente não estava na sua melhor condição (Rooney chegou a chutar um tufo de verde ao cobrar um escanteio, o que fez a bola ir direto para a linha de fundo) e o calor não estava dos piores. Tudo certo até aí.

Coincidentemente, sentei bem próximo de uma área composta apenas por ingleses fanáticos (leia-se "jeito de hooligans") no anel superior da Arena, e notei algumas coisas que nós, torcedores brasileiros, podemos aprender com eles.

A Inglaterra começou perdendo e em nenhum momento a sua torcida mostrou sinal de descontentamento. Pelo contrário, os gritos de guerras eram constantes, variados e decorados pelos europeus. Cada tentativa de ataque, por mais frustrada que fosse, era aplaudida de pé, assim como os bloqueios, e a motivação era constante. Não houve desmerecimento dos jogadores nem tentativa de culpar alguém por algum erro.

Mas também pude notar algo que não podemos aprender -- com ninguém! Os britânicos estavam extremamente nervosos, quando o placar estava 0 a 0, 1 a 1 e especialmente quando ficou no resultado final, 2 a 1. A provocação da torcida brasileira-italiana (composta em sua maioria por amazonenses revoltados com a falta de tato do "treinador inglês reclamão", como ouvi), ajudava a elevar os ânimos, que em momentos se tornou numa tensão. Os cânticos em coro ficavam mais altos, assim como as vaias aos ingleses quando esses pegavam na bola ou atacavam.

Um grupo, com cerca de 10 "projetos de hooligans", chegou a ser segurado por conterrâneos ingleses quando quiseram ir conversar mais perto com os rivais brasileiros. Tudo bem que os nativos não deixavam barato, e ouvir uma zoação numa língua não conhecida é bem pior, o que irritava ainda mais os ingleses. Xingamentos, gestos obscenos e caras feias fez com que alguns torcedores (casais e grupos com crianças ou idosos) deixassem a área, e os stewards - apesar de terem demorado a agir - ficaram de prontidão, mais perto da cena do conflito.

Quando foi anunciado os 5 minutos de prorrogação, dois torcedores - que faziam parte deste grupo mais exaltado - sentaram perto dos brasileiros-vestidos-de-torcedores-italianos e ficaram encarando-os firmemente. Isso foi apenas duas fileiras acima de onde eu estava, e assim como todos ao redor, levantei e me virei pra ver o showzinho, esperando o pior. Tão logo o apito do juiz soou, os dois gringos chegaram junto com o desafeto, que não se intimidou e perguntou, em inglês, "What's wrong?".

Algo que ninguém separava ocorreu em seguida. Eles forçaram um sorriso, deram as mãos em cumprimento e conversaram por alguns minutos. Os brasileiros não estavam tão à vontade mas tiraram por menos, enquanto uns ingleses continuavam tentando puxar assunto, de forma até estranha. Se não fosse pela frieza do brasileiro que indagou os gringos, poderia ter rolado um fight neste momento. Os ingleses claramente estavam ávidos por uma confusão em terras tupiniquim. No fim, deu tudo certo - apesar de uma pessoa ter sido retirada pelos seguranças e alguns outros torcedores invadirem o campo, já sem os atletas profissionais presentes.

A saída foi tão tranquila quanto a chegada, apenas com mais pessoas. O fish n'chips regional - que nada mais é do que filé de tambaqui empanado com batata frita, vendido exclusivamente em dias de jogos da Arena da Amazônia numa parceria entre o restaurante local Tambaqui de Banda e a Fifa -, porém, vai ter que ficar pra próxima. Que venha, na quarta-feira (18), Croácia e Camarões! Enquanto isso, olho vivo nos ingleses, hein?!