OPINIÃO
05/05/2014 15:23 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

O dia em que um time do Amazonas jogou fora de casa em Manaus

O povo amazonense é comportamentalmente estranho e dois episódios polêmicos, ocorridos em Manaus num intervalo de quase dois meses, demonstram isso ao criar situações contraditórias. Primeiro, a população bairrista se revoltou com a declaração de uma cliente em uma unidade da rede Habib's na capital: após demora na entrega de seu pedido, a mulher se irritou com os funcionários do local e reclamou da qualidade do atendimento na cidade num geral - que de tão ruim é classificado popularmente como "padrão Manaus", e ninguém se esforça para mudar isso, diga-se de passagem - e, entre algumas coisas, declarou que os amazonenses só sabem "comer peixe e descascar tucumã, bando de índios filhos da p...".

O fato aconteceu no início de março e a revolta foi geral, com sites e blogs noticiando o fato, inclusive de maneira sensacionalista, e o vídeo se tornando viral em questão de dias nas redes sociais. Posts incrédulos e repletos de ódio ao comentário preconceituoso da cliente tomaram conta massivamente das conversas ao longo das semanas que seguiram e a frase "comer peixe e descascar tucumã" (este último uma fruta típica da região amazônica - e muito deliciosa) virou bordão, tema de camisas e associação ao orgulho caboclo. A paixão pela terra falou tão alto que não houve espaço dentro da guerra virtual para a mulher se explicar - todos só conseguiam se concentrar no mal-estar que era ter o orgulho em ser amazonense ferido.

Pois bem. Quase dos meses depois, no último dia 30 de abril, o Nacional F.C., um dos times mais tradicionais do Amazonas, tinha a missão de receber em casa o Corinthians pela segunda fase da Copa do Brasil, após passar pelo São Luís (RS). O jogo aconteceu na Arena da Amazônia e serviu como o quinto evento-teste do estádio, que será palco de quatro jogos da Copa do Mundo 2014. Já era de se esperar a maioridade corintiana, não só pelos torcedores fiéis que viajaram mais de 2,5 mil quilômetros para ver seu time jogar, mas também pelos próprios amazonenses, que cultivam há décadas paixões por times grandes nacionais, principalmente os paulistas e cariocas.

Com um público pagante de mais de 35 mil pessoas, pode-se dizer seguramente que cerca de 70% vestiam as blusas do Timão. O estádio era mais preto e branco do que azul mas, como disse, isso já era esperado por todos. Os times da elite do futebol brasileiro se sentem bem em Manaus, já que todos têm torcidas certas e volumosas aqui. Mas os torcedores foram além neste dia e protagonizaram algo que entrará para o rol de vergonhas do futebol amazonense.

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Foto: Clóvis Miranda

Mesmo jogando em casa, o Nacional precisava lidar com a pressão de encarar um time da Série A, com a segunda maior torcida do Brasil, e com um público majoritariamente contrário. O que os nacionalinos não esperavam era ouvir vaias estrondosas em sua própria cidade. Não só quando entrou em campo, mas também quando trocava jogadores ou errava lances perigosos. Não só isso, a torcida também gritava "olééé" não a cada drible, mas quase a cada toque de bola do Corinthians em cima dos nacionalinos, principalmente no segundo tempo da partida. Imagina a animação dos jogadores que jogavam "em casa".

Então recapitulando: quer dizer que quando falam mal do índio que só quer comer peixe e descascar tucumã todo mundo se ofende, pois acha que o nortista merece mais respeito, mas quando chega o momento de apoiar algo da sua terra não só viram a cara mas chegam a humilhar?! Não consigo entender tal contradição. Reclamam do preconceito que eles mesmos inflamam com atitudes do mesmo naipe, mesmo que em setores diferentes. Onde estão os bairristas do primeiro episódio quando realmente precisamos deles?

Nem adianta reclamar que o público torce só para os grandes clubes brasileiros. É culturalmente assim. Com a decadência do futebol amazonense desde a década de 70 e 80, o público se viu na necessidade de prestar mais atenção para os jogos do eixo Sudeste-Sul para poder acompanhar uma partida de alto nível. Isso fez surgir no cenário esportivo o apelido de "amariocas", para aqueles que preferem torcer pros times principalmente do Rio de Janeiro, ao invés dos daqui. O cenário está mudando nos últimos anos, mesmo que a passos de formiga, mas ainda não a ponto de fazer com que os clubes locais se sintam em casa quando jogam em Manaus.

Mas vejo que, enquanto o Naça estiver representando seu estado numa competição nacional, o mínimo que poderia haver era respeito. Mesmo que fosse o clube menor na Arena da Amazônia naquele dia, com uma torcida pequena, era o time da casa e não merecia o tratamento que teve, já que a maioria dos presentes era amazonense também. Amazonenses vaiando fortemente o time do Amazonas numa competição em Manaus. Sinceramente, pode uma coisa dessa? Com a palavra, os cientistas sociais e psicanalistas.

A partida acabou 3 a 0 para o clube paulista, o que elimina a necessidade do jogo de volta. Mas, caso o placar fosse outro, o Nacional teria que jogar duas vezes "fora de casa". O que precisamos para mudar isso? Um choque cultural? Uma revolução futebolística? Um legado deixado pela Copa do Mundo na capital? Essa resposta não cabe a mim (apesar de caber bem aos dirigentes, cartolas, secretarias de esporte e federações), mas sei que faltou educação e bom senso naquela noite.