OPINIÃO
10/03/2014 17:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Arena da Amazônia: é preciso mais do que críticas para não transformá-la num elefante branco

A impressão que algumas pessoas têm é que o Amazonas não é bom suficiente para sediar jogos da Copa do Mundo. Por que não? Omar tomou as dores e eu estou com ele.

Não há como um nortista falar "imprensa sulista" sem soar clichê ou extremamente bairrista. A declaração do governador Omar Aziz durante entrevista com a ESPN na inauguração da Arena da Amazônia pegou todos de surpresa, até porque ele aparentava calma durante todo o evento - eu estava lá e pude conferir isto. O que vimos depois, principalmente nas redes sociais, foi uma divisão de opiniões: enquanto uns acham que Omar falou o que há anos estava entalado na garganta de quem só ouve críticas quanto ao estádio em Manaus e seu legado incerto, outros desaprovaram a postura do governador, a qual classificaram como "grosseira", principalmente por ele ocupar tal cargo e incitar ainda mais o preconceito.

Na minha opinião, eu gostei da resposta, apesar de ter saído um pouco agressiva demais. Tudo bem que Manaus não tem um cenário futebolístico forte (o Nacional F.C., mais tradicional time daqui, não aguentou nem na quarta divisão na temporada passada), mas há diversos outros motivos que levaram a cidade a ser escolhida como sub-sede, que vão além do campo político. Seu potencial ecoturístico, suas fronteiras com vários países da América do Sul e ter um representante da Região Norte do Brasil, mais especificamente na Amazônia, que corresponde a pouco mais da metade do território nacional, são alguns. Mas, voltemos ao termo "imprensa sulista", pois as críticas vêm justamente dos maiores meios de comunicação que estão sediados no eixo Sul-Sudeste do país.

A impressão que algumas pessoas têm - e sim, principalmente as que cultivam o bairrismo - é que o Amazonas não é bom suficiente para sediar jogos da Copa do Mundo. Por que não? Só porque não temos times nas principais divisões do campeonato brasileiro? Porque não conseguíamos lotar um estádio de 5 mil pessoas que era usado durante a construção da Arena? Não vou nem entrar no mérito de que o estádio é multiuso e pode servir para sediar shows e outros eventos, mas que ele pode ser o empurrão que falta para fazer ressurgir o futebol local, tão glorioso nas décadas de 70 e 80. Temos hoje clubes centenários que não têm patrocínio ou público fiel, mas a grandiosidade da Arena da Amazônia e a visibilidade que ela traz pode reverter isso. A verdade é que o Omar tomou as dores pelo Amazonas.

Ele também com certeza assistiu alguma entrevista com o ministro Aldo Rebelo, o que deve ter aumentado sua raiva, já que Rebelo se alterou em diversas entrevistas quando o assunto era o legado do futebol em cidades como Manaus, Cuiabá e Natal - na maioria das vezes, foi cutucado pelo jornalista Mauro Cezar Pereira, da ESPN. Então a mágoa com essas críticas já vinham sendo acumuladas. Tudo bem que o jornalista, neste caso, estava cumprindo sua função. Mas Omar ser abordado, durante o que para ele era uma grande festa, por um cara com "ESPN" bordado no peito e que tem como primeira pergunta "Qual o legado deste estádio?", o tirou do sério e ele explodiu. Eu consigo ver os dois lados da situação. Do repórter que, trabalhando, focou na questão do legado e do governador, que se irritou com a pergunta que veio de um veículo com o histórico de criticar seu Estado.

Ninguém quer que a Arena da Amazônia vire um elefante branco, mas precisamos mais do que críticas de quem não mora, trabalha e nem sequer visita aqui. Precisamos de apoio e projetos que funcionem além do papel. Acho que esse deveria ser o foco da conversa. Os custos foram altos? A cena esportiva aqui não é forte? Falta incentivo? Falta visibilidade? Falta respeito? A realidade é que o estádio está pronto, daqui a três meses vai sediar quatro jogos da Copa e depois precisa focar em alguma coisa que se faça valer. Vamos ver no que vai dar.