OPINIÃO
23/06/2014 10:10 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

Após críticas, Manaus surpreende e se torna referência na recepção de estrangeiros

A opinião era praticamente unânime: Manaus deu uma bela de uma acolhida aos turistas, principalmente aos estrangeiros. O Largo de São Sebastião, no Centro Histórico e lar do mais famoso cartão-postal do estado, o Teatro Amazonas, virou uma espécie de quartel-general para os gringos e um clima festeiro tomou conta do local.

"Manaus não tem infraestrutura para receber uma Copa". "Porque construir um estádio novo se a cidade não tem tradição futebolística?". "Não vai ter procura por jogos, por ser uma cidade na selva, isolada". Essas frases eram algumas das prediletas entre a imprensa nacional e internacional, a turma do #nãovaitercopa e dos pessimistas de plantão quanto à Manaus sediar jogos da Copa do Mundo 2014. Mas essas teorias vão cada vez mais por água abaixo, começando no momento em que os primeiros dos 15 mil ingleses desembarcaram na capital amazonense, ainda na primeira semana do torneio internacional - e afundou ainda mais com a acolhida aos croatas e, agora, aos norte-americanos. A receptividade da capital amazonense camuflou até o tão temido calor e, aos poucos, vai mudando a face da única cidade-sede no Norte do país.

Fotos: Evandro Seixas

A opinião era praticamente unânime: Manaus deu uma bela de uma acolhida aos turistas, principalmente aos estrangeiros. O Largo de São Sebastião, no Centro Histórico e lar do mais famoso cartão-postal do estado, o Teatro Amazonas, virou uma espécie de quartel-general para os gringos e um clima festeiro tomou conta do local. Todo este contexto inspirou a capa desta semana da The Weekly, revista semanal da Fifa lançada em seis idiomas, que traz a "Magical Manaus" como principal história, além de ser o foco do seu editorial. Clichês e "a Fifa vendendo seu peixe" à parte, "a experiência de assistir uma partida da Copa do Mundo em Manaus é uma odisseia incomparável", começa o texto.

A matéria, assinada pelo editor Thomas Renglii - que conferiu in loco o "rumble in the jungle" - faz uma comparação dos avisos dados antes do início do torneio com o que os estrangeiros realmente encontraram, faz um panorama do contexto histórico e social da capital, destrincha a primeira partida do Mundial na Arena da Amazônia, entre Itália e Inglaterra, e aproveita depoimentos de amazonenses para ilustrar a atmosfera vivida nas últimas semanas. "Quem conseguiu desviar os pensamentos de uma possível visita de emergência ao hospital teve a sorte de descobrir um lado diferente e surpreendente da Copa do Mundo, e também do Brasil", diz.

Segundo o jornalista, a localização isolada parece moldar o caráter dos manauaras, vistos por ele como donos de uma "simpatia reservada, que contrasta com o típico clichê barulhento e espaçoso dos brasileiros". Bom, não é tão por aí, mas nós realmente temos uma característica única frente à todas em comum com nossos irmãos nacionais. Ao invés de apenas descrever o calor vivido entre os jogadores ingleses e italianos, a matéria cita o exemplo de Pirlo, mostrando que é possível, com inteligência e determinação, superar as adversidades climáticas e se sobressair em campo. Nada de mimimi por aqui. "Manaus não é um típico palco de futebol, como muitos visitantes descobriram - para suas alegrias. Nenhuma cidade-sede é tão empolgante do que esta metrópole florestal", conclui.

Os gringos chegaram num aeroporto internacional Eduardo Gomes ainda em obras, tiveram que usar táxis para chegar a seus hotéis ou hospedagens alternativas - já que a capital não tem metrô nem trens, e apenas duas vias com um Bus Rapid System funcionando parcialmente - e com certeza tiveram que encarar, em algum momento do trajeto, o trânsito caótico resultado de vias estreitas de uma cidade que tem apenas dois ou três bairros planejados. Sem falar do calor, umidade e diferença de idioma. Nenhum desses fatores alteraram a vontade de conhecer os principais pontos turísticos de Manaus nem de matar a sede com uma cerveja gelada. Os gringos, aliás, até lançaram moda por aqui: eles bebem as cervas de 600 ml ou até de "litrão" direto da garrafa, como se fosse uma long-neck, o que entusiasmou os locais a fazerem o mesmo.

Ocorrências na Fan Fest foram poucas e de mínima relevância. Muitos, porém, foram os momentos de prestatividade dos manauaras, que são geralmente sorrisos para os estrangeiros e estão sempre dispostos a ajudar. Eu, por exemplo, sempre pergunto "Need help getting somewhere?" se vejo algum branquelo com ar de perdido (a gente aprende a ser assim depois de morar por mais de uma década a um quarteirão do Teatro Amazonas) e uma conhecida já deu mais de cinco caronas sem cobrar nada a turistas que perguntaram como chegar ao Centro da cidade - isso só para citar exemplos mais práticos. Quando um canadense perdeu a carteira com documentos, cartões de crédito e dinheiro, recebeu o objeto de volta em menos de 20 minutos. O fato surpreendeu a todos, inclusive a quem anunciou a perda no microfone do Largo. "Se fosse um amazonense que tivesse perdido antes da Copa, talvez não tivesse recebido de volta", disse o mestre de cerimônia bilíngue do local, Fraklin Thompson.

As declarações do técnico inglês Roy Hodgson, que desencadeou uma longa novela polêmica sobre a sede, ficaram esquecidas entre bate-papos em diferentes idiomas regados a cerveja, e nem a imprensa sensacionalista internacional conseguiu reaver as discussões em torno do clima tropical e da presença (inexistente) de animais perigosos pelas ruas da cidade. A nossa gastronomia nortista, com tambaqui, jaraqui, açaí, tucumã, tacacá, guaraná e cupuaçu (esta última, bebida eleita a predileta entre os turistas), ajudou na conquista, onde amazonenses foram guias, professores e amigos dos estrangeiros. A nossa simpatia ganhou manchetes e matérias ao redor do mundo, do local A Crítica ao Miami Herald, da Rede Globo ao britânico The Telegraph.

Nephi Henry, uma webdesigner norte-americana, relatou em uma reportagem: "Conhecer o manauense (ou manauara ou baré, os três termos estão corretos) é uma maravilha, todo mundo é muito amigável, a comida é tudo de bom, a população abre a casa para nós e abre para todos que estão vindo para cá. As pessoas que moram na cidade podem ser exemplo para o resto do mundo em relação a como ser um excelente anfitrião". Ainda segundo a matéria, Nephi encontrou com dois outros norte-americanos que vinham de Salvador e "eles disseram que não foram muito bem tratados por lá e é notável a diferença entre lá e Manaus, onde estão gostando mais".

De acordo com a Empresa Estadual de Turismo do Amazonas (Amazonastur, que nada mais é do que a secretaria estadual), 15 mil ingleses passaram por Manaus, além de cerca de 13 mil croatas e quase 35 mil americanos. O entrosamento entre os turistas de todos os cantos do planeta e os manauaras ficou basicamente restrito à farra nas praças e principalmente nos bares da cidade, mas já promoveram um intercâmbio cultural tremendo (será o nascimento de uma nova mentalidade baré?). Os bares do Armando e do Caldeira, no Centro, a loja de conveniência do posto de combustível em frente à Arena e o Bar do Bigode, ambos na avenida Constantino Nery, foram eleitos os "points" mais frequentados pelos gringos. E que a festa continue. Até depois que a Copa acabar. Thank you for your visit (e não entremos em discussões sociais ou de legado, pode estragar a festa).

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