OPINIÃO
13/12/2017 17:53 -02 | Atualizado 13/12/2017 18:38 -02

A seca que atinge 100% de Portugal mostra que não levamos a mudança climática a sério

"Se não fizermos nada a respeito, a tendência é só piorar. Como estará o mundo no final deste século?"

Seca num braço do rio Guadiana, em Portugal.
António Carrapato/Agência Lusa
Seca num braço do rio Guadiana, em Portugal.

Depois dos incêndios florestais que arrasaram diversas regiões de Portugal e cobraram dezenas de vidas, o país na ponta ocidental da Península Ibérica enfrenta agora outro problema ambiental: a seca. O mais preocupante é que, aparentemente, os cidadãos portugueses estão à margem desta preocupação climática, mesmo que 100% da parte continental do País esteja em alerta severo ou extremo.

O assunto passa despercebido porque os níveis dos principais reservatórios de água ainda devem garantir um ano de abastecimento mesmo se a seca continuar, e o governo só agora planeja iniciar campanhas de sensibilização e educação.

Para nós brasileiros, que sabemos de perto as consequências de uma seca, seja em São Paulo ou na Amazônia, ver um país com pouco mais de dez milhões de habitantes passar por uma situação dessas sem se desesperar (por enquanto, pelo menos) é surpreendente. E mostra o quanto o papel da água precisa ser cada vez mais o foco nas discussões climáticas.

Essa situação não começou de uma hora para outra - pelo contrário, foi se agravando com o passar do tempo e, desde o ápice do verão europeu do ano de 2017, começou a ficar fora de controle.

No inverno europeu, entre 2016 e 2017, choveu pouco e a precipitação ao longo deste último ano foi também muito baixa. Este recente verão foi mais quente e seco que o normal, e prolongou-se para os meses seguintes.

Segundo dados do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), entre os dias 1º e 15 de novembro, o valor médio de precipitação em Portugal continental foi muito abaixo do normal, correspondendo a apenas 24% do valor médio mensal. Já no dia 15 de novembro, houve um aumento da área em seca extrema em todo o território continental de Portugal: cerca de 6% do território estava em situação severa e 94% em situação extrema.

O IPMA confirmou que Portugal está há seis meses em situação de seca severa e extrema. Isso porque, ao longo deste período, choveu apenas 30% da quantidade aguardada. O mês de outubro de 2017 foi o outubro mais quente dos últimos 87 anos, desde que os dados começaram a ser registrados em 1931, com uma temperatura média cerca de 3°C acima do valor normal.

Há regiões onde a água já é escassa. Grande parte do interior e da região sul de Portugal apresenta valores de água no solo inferiores a 20%. Nas regiões do litoral norte e centro, os níveis variam entre 20 e 60%. Na região do Alentejo, a situação pode chegar a ser ainda mais crítica, já que a falta água paralisa quase tudo numa área onde a agricultura é primordial.

Há quase 100 anos que Portugal não enfrentava uma seca tão severa. E as más notícias não acabam por aí: o IPMA não prevê chuva para breve, com a situação mais provável para o final de novembro sendo a continuação da severidade da seca, tendo em conta a previsão mensal do Centro Europeu de Previsão do Tempo a Médio Prazo, e especialistas alertam para a possibilidade de secas mais frequentes no futuro.

Esta seca é uma das mais intensas já registradas. Pesquisadores também dizem que essas secas tornaram-se mais prolongadas em Portugal, acompanhando a diminuição da precipitação média anual. Quando se comparam os dois períodos de 30 anos anteriores, pode-se notar que a precipitação média anual tem diminuído em toda a Península Ibérica. No caso de Portugal, a chega a ser de 40 milímetros por década – ou seja, 200 milímetros de chuva em meio século, diz matéria da RTP.

As poucas chuvas tendem a ser muito negativas até o fim do século 21, preveem estudos. Com as alterações climáticas, Portugal enfrenta um dos dois cenários "mais dramáticos" previstos pelos modelos físico-matemáticos: as estações vão se diluir, as ondas de calor tendem a prolongar-se e as secas serão mais intensas, de acordo com reportagem do Observador. Ou seja, há risco de o país lusitano perder a estação da primavera. De acordo com as projeções, as ondas de calor podem multiplicar-se por dez ou até durar mais de um mês.

Como já ficou óbvio, o fenômeno deve afetar toda a Península Ibérica. O El País fala em "mínimos históricos" nas reservas de água das bacias hidrográficas do Douro e do Minho, que atravessam as duas nações fronteiriças. Dados do Ministério da Agricultura da Espanha revelam que o Rio Douro está a 29,8% da sua capacidade total e o Rio Minho a 38,6%. A seca afetou ainda a nascente do rio Douro, nos Picos de Urbión, na província espanhola de Soria. O El Mundo afirma que a nascente, localizada a 2,15 mil metros da altitude, está seca e nem descendo até aos 1,8 mil metros de altitude se vê água.

A agricultura é o setor mais afetado pela seca, pois em Portugal é o setor que mais consome água. Como as chuvas de outono, que deveriam estar rolando agora, nunca chegaram, as produções do próximo ano estão a ser afetadas. Segundo texto do lusitano Shifter:

"Até agora, é garantido que em 2018 terá menos cerejas, amêndoas e azeitonas. E se a chuva não tardar, vai faltar o milho e o arroz agulha nacional, porque não chegam sequer a ser semeados. Os queijos da Serra da Estrela estão em fase incerta, a carne está numa situação crítica – como não há água para regar os campos, o alimento não cresce, o gado não come, fica sensível e fraco, e dá-se uma depressão na carne. (...) As castanhas, contrariamente aos anos anteriores, estão pequenas e secas, porque não tiveram água para crescer. Assim como os dióspiros, que não tiveram água para ganharem sumo e perderem o bicho que teima em não sair da coroa. Ou então as laranjas, que também ficaram pequeninas. Ou as azeitonas que em pleno verão, ainda verdes, apresentavam sinais de secura".

Com tudo isso, como ainda é possível vermos pessoas e autoridades negando a existência das mudanças climáticas?! Se não fizermos nada a respeito, a tendência é só piorar. Como estará o mundo no final deste século?

De acordo com cenários traçados pelo Painel Intergovernamental para as Alterações climáticas, o RCP 4.5 e o RCP 8.5, a atual trajetória das concentrações de CO2 infelizmente tende a enquadrar-se num cenário mais dramático e do qual só sairíamos se houvesse uma política de redução de emissões de gases de efeito de estufa a nível global, muito mais revolucionárias do que as que estão atualmente abertas para discussões.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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