OPINIÃO
14/01/2015 18:49 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

A misteriosa 'morte em massa' de periquitos continua em Manaus

Após inúmeros absurdos e pontas soltas, surgiu nesta semana mais um capítulo naquilo que parece ser uma brincadeira que só reforça a expressão "seria cômico se não fosse trágico": um projeto de lei que tramita na Câmara Municipal de Manaus quer mudar o nome da avenida Ephigênio Sales para "Avenida dos Pássaros" - para lembrar (?) a população de um incidente que está longe de ser esclarecido.

Manaus sempre foi uma cidade de contrastes, seja como uma metrópole improvável no coração da Floresta Amazônica, construída com cuidado por europeus nos séculos 19 e 20, ou como uma capital urbana que, em pleno século 21, ainda sofre com internet precária, limites físicos que impedem uma integração nacional e interrupções constantes no abastecimento de energia. Tão difícil quanto acreditar que uma capital de dois milhões de habitantes localizada literalmente em cima da maior bacia hidrográfica do País sofra com a falta d'água é crer na novela mexicana que se formou em torno da misteriosa morte de quase 250 periquitos-de-asa-branca numa importante via urbana da cidade - e do "capítulo final" que querem nos empurrar goela abaixo.

Como de praxe, um assunto tão delicado e intrigante não passaria despercebido por nossa sociedade, que adora o bafafá alheio, e o cenário controverso que se desenhou é o de que uma minoria, rica e esnobe, parece não querer conviver com um espetáculo da natureza, mesmo morando no meio da Amazônia.

Para entender esta complexa trama, precisamos recapitular ao início. A verdade é que o drama começou em 2012, quando moradores do condomínio Ephigênio Sales, localizado na avenida homônima, importante artéria da zona Centro-Sul de Manaus, decidiram instalar "telas de proteção" nas palmeiras da avenida Ephigênio Sales, que supostamente estavam morrendo por causa da presença constante de periquitos que sobrevoavam e pousavam no local. A revolta tomou conta das redes sociais, órgãos foram acionados, as telas foram colocadas, retiradas e colocadas de volta. Foi levantado que isso mataria, ou no mínimo expulsaria, as aves do local e que não seria benéfico à nossa biodiversidade. Na época, uma analista ambiental do Ibama chegou a dizer: "As palmeiras imperiais plantadas no condomínio não são nativas da Amazônia e estão na rota de deslocamento das aves. Essa é uma consequência que o plantio de árvores exóticas e o desmatamento trazem para a fauna da região". Na escolha entre as árvores ou as aves, os condôminos escolheram as árvores. Por mais que a situação soasse como um contrassenso da natureza, a previsão não se cumpriu e, pelos próximos dois anos, as aves continuaram a ocupar o topo das palmeiras. (Relataram que "deu certo", mas tenho minhas dúvidas).

Dois anos se passaram e quase nada mudou. As palmeiras ficaram cabisbaixas e cobertas por um verde escuro artificial. Os periquitos continuaram sobrevoando em seu ritual paisagístico, ao passarem sob cabeças humanas em inúmeras revoadas gigantescas. Até que, quase um mês e meio atrás, 200 das aves surgiram, da noite para o dia, caídas pela rua, calçadas e jardins da avenida, bem em frente ao condomínio - que abriga casas de empresários e políticos, como a do ex-governador e agora senador Omar Aziz - e suas imponentes palmeiras imperiais.

Por toda a via, era possível ver as aves mortas, muitas delas atropeladas nas sarjetas, esmagadas como um papel A4. Imediatamente, maquiavélicas teorias de conspiração foram sendo montadas: a mais difundida diz que alguém colocou veneno na copa das palmeiras imperiais que enfeitam a entrada do local apenas para acabar com o alto e característico ruído que os pássaros emitem, todo dia entre 17h e 18h. Há, no entanto, quem defenda que as aves foram atropeladas por um caminhão (por mais absurdo que possa parecer, até tem fundamento teórico e é o argumento predileto de quem mora no condomínio, apesar de quase não encontrarmos muito desses emitindo opiniões).

A questão é que as palmeiras imperiais - espécie que não se adapta muito bem ao clima tropical "mas é bonita", então autoridades plantaram/plantam mudas e mais mudas da árvore em todo lugar da cidade (tirando espaço de outras espécies tão bonitas e mais típicas da região, como as castanheiras) - servem como um oásis no meio do caos urbano para cada vez mais periquitos, que segundo especialistas acharam abrigo e comida no local após terem seus territórios naturais invadidos ou destruídos. Particularmente, acho emocionante ver que o fenômeno natural e instintivo produzido pelos periquitos ainda sobrevive numa região tão movimentada e populosa da cidade, recheada de antenas de emissoras de TV e rádio devido à elevação geográfica do bairro Aleixo.

Quando veículos locais começaram a noticiar o "periquiticídio" (aliás, o caso foi e continua sendo um prato cheio para quem adora piadinhas de duplo sentido), foi fácil notar quem parecia ter mais culpa no cartório: os milionários do condomínio de luxo, que poderiam simplesmente colocar veneno nas telas para acabar com um barulho que impede o "sono da beleza" do fim da tarde. Rapidamente, uma manifestação foi convocada nas redes sociais e o amazonense, tradicionalmente avesso à ideia de ir pra rua empunhando cartazes, apareceu em bom número - cerca de 300 - para cobrar respostas sobre as misteriosas mortes.

E as notícias foram bombando. Nós, jornalistas, agradecemos as pautas, mas também não conseguíamos chegar a uma conclusão lógica, de saber quem causou as mortes e o motivo daquilo tudo. Boatos davam conta de testemunhas relatando a presença de um homem com um saco ao redor das palmeiras na noite anterior, mas nada foi confirmado. Depois surgiram imagens de uma câmera de segurança de uma casa do condomínio Ephigênio Sales que flagrou, bem na noite em que as primeiras centenas de periquitos apareceram mortas, um caminhão transitando em alta velocidade na altura de uma grande revoada, o que teoricamente justificaria o atropelamento. Duas semanas depois, mais 50 aves apareceram mortas pelo chão.

Com o circo montado e a zoada feita, órgãos competentes decidiram investigar. O Ministério Público abriu inquérito e o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) mandou os corpos de 40 aves para exames toxicológicos em Minas Gerais (mais um contraste: cidade que abriga sedes de órgãos como do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Inpa, e Universidade Federal do Amazonas, Ufam, não tem laboratório que faça exames deste tipo). Foram semanas de espera, com a expectativa no teto, para o resultado. Só que, quando enfim saiu, o laudo não dizia muita coisa: inconclusivo, descobriu níveis residuais de agrotóxicos no organismo das aves, mas isso não poderia ser apontado como fator principal da morte devido à alimentação dos periquitos-de-asas-brancas, que têm vida livre e se comem nos mais diversos locais.

O Ipaam, no entanto, afirmou que a tese de envenenamento não estava descartada e ainda era trabalhada em paralelo com outras duas linhas de investigação: atropelamento e doenças microbiológicas. As únicas providências tomadas até agora? A retiradas das telas de proteção (que "devolve parte do habitat natural a milhares de periquitos, além de preservar as 20 palmeiras imperiais, cujas folhas que já estavam em estado de deteriorização", segundo agente de fauna do Ipaam) e a instalação de placas indicativas improvisadas, com uma arte que faria qualquer estudante de design cair para trás, para alertar motoristas da presença de aves nas proximidades e pedindo para eles reduzirem a velocidade.

Enquanto uma resposta digna não surge, o palco para a discussão continua montado, com pseudo-ambientalistas acusando o condomínio de luxo e seus moradores de um lado e pessoas usando vídeos como argumentos sendo taxadas de burgueses inconsequentes do outro. Mas os fatos estão aí, e perguntas pertinentes continuam no ar: se foram atropelados, porque isso só aconteceu agora, se os periquitos sobrevoam o local há anos? Caminhões de médio e grande porte transitam constantemente por essa avenida e outras, então se fosse isso, atropelamentos de aves seria algo comum em Manaus, o que não é. O agrotóxico detectado no laudo não pode ter sido intencional?

Após estes inúmeros absurdos e pontas soltas, surgiu nesta semana mais um capítulo naquilo que parece ser uma brincadeira que só reforça a expressão "seria cômico se não fosse trágico": de autoria do vereador Professor Bibiano (PT), um projeto de lei que tramita na Câmara Municipal de Manaus quer mudar o nome da avenida Ephigênio Sales, um reconhecimento ao ex-governador do Amazonas e palco da "morte em massa" das aves, para "Avenida dos Pássaros" - para lembrar (?) a população de um incidente que está longe de ser esclarecido.

O projeto já foi deliberado pela Câmara e deve começar sua tramitação em breve. De acordo com o parlamentar, ele quer cimentar o fato na consciência coletiva. "Acolhemos ao pedido desses grupos justamente por entendermos, como eles entendem, que um fato desses não pode ser esquecido. Compreendemos que há todo um histórico que acompanha a pessoa homenageada com o atual nome da avenida, que já foi até governador, mas entendemos também a necessidade de ressaltar a gravidade do ocorrido, gravidade essa só reforçada pelo fato de ter acontecido aqui em Manaus, capital localizada no meio da Floresta Amazônica", explicou Bibiano.

Entendo que o caso é curioso, mas o nobre político realmente acredita que isso vai reverter a situação e servir como um alerta sério? E a mobilidade urbana, infraestrutura para turismo, segurança, educação e saúde manauara, que não recebem 1/3 desta atenção, também não precisam ter suas importâncias cimentadas, principalmente na cabeça de vereadores e deputados estaduais, que podem (mas não querem) se mobilizar para mudar tudo isso?! Ao invés de sugerir mudança de nome de uma avenida - e acumulando, assim, prejuízos também para o comércio -, que tal cobrar respostas dos órgãos competentes? Bem-vindos à cidade da controvérsia. (E só para constar, os periquitos continuam sobrevoando diariamente o local, fazendo mais barulho do que nunca).

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