OPINIÃO
15/12/2014 19:25 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Bicicleta é só uma coisa

A bicicleta está finalmente ganhando o caráter utilitário para o qual é perfeita, em um ambiente urbano: leva do ponto A ao ponto B com eficiência e praticidade. Sem nem emprestar a quem a pedala virtudes e caráter, nem más intenções e trapaça no jogo do trânsito. E sem se limitar a grupos com viés ideológico.

circuito fora do eixo/flickr/creative commons

A promessa é de 400 km de ciclovias em São Paulo, de acordo com a gestão atual da cidade - as vias entregues já passaram de 200 km. As faixas exclusivas se multiplicam em lugares como Sorocaba e Santos, no interior, Rio de Janeiro, no estado vizinho, para ficar em poucos exemplos. Pipocam bike cafés, inspirados nos modelos americanos e europeus, com temática de bicicleta, serviços de oficina e bons cafés e cervejas artesanais. Sistemas de aluguel permitem que você saia pedalando sem nem mesmo a necessidade de comprar uma bicicleta. O trânsito infernal nas capitais dispensa a hora do rush para dar as caras.

Esse cenário praticamente empurrou muitas pessoas para cima de um selim. Quem já pedalava, acostumado a driblar a selvageria de um trânsito cada vez pior, aplaudiu as mudanças. Quem tinha vontade e medo ao mesmo tempo está curtindo as condições mais seguras que uma malha de verdade proporciona. E, sobretudo em São Paulo, algumas pessoas são extremamente críticas ao que consideram quase uma "imposição" da bicicleta como parte de uma agenda política. Como se o fato de oferecer infraestrutura a uma população engarrafada e que respira um ar de péssima qualidade fosse um desfavor. Ou ainda como se no apocalipse motorizado fosse possível achar unilateralmente um culpado que não seja o excesso de carros.

O discurso alinhado com a mobilidade sustentável defende que a bicicleta é responsável por criar um ambiente mais rico de trocas entre as pessoas, de contato com a cidade, de favorecimento de distâncias mais humanas. Sem uma carapaça de metal, a convivência é mais olho no olho. O cicloativismo se emaranha com outros movimentos urbanos de ocupação do espaço público, resgatando praças, jardins, e muitas vezes esbarrando com outros coletivos e movimentos sociais, como direitos animais e feminismo. Outras vezes se entrelaça com estilos de vida mais filosóficos e minimalistas, como a simplicidade voluntária.

Os opositores reclamam da suposta falta de planejamento na implementação da malha cicloviária; reclamam da "gente que não presta" que passa a usar as ciclovias e frequentar o bairro; de que a faixa retirada dos carros rouba vagas para estacionar e espaço de circulação. Muitas críticas estereotipam o ciclista: privilegiado de classe média que não se acanha em se apropriar da rua, trabalhador desassistido que pedala por pura falta de opção na periferia, agitador que pretende causar problemas na ordem pública, esportista de fim de semana que não deveria nunca ter prioridade contra quem está a trabalho ali.

No fim, o que tenho visto nas ruas não é nem um extremo nem outro, felizmente. A bicicleta está finalmente ganhando o caráter utilitário para o qual é perfeita, em um ambiente urbano: leva do ponto A ao ponto B com eficiência e praticidade. Sem nem emprestar a quem a pedala virtudes e caráter, nem más intenções e trapaça no jogo do trânsito. Sem se limitar a grupos com viés ideológico. Sem escolher eleitos que tenham forma física de atleta e dons mágicos para domar as ladeiras da cidade. Em bairros com alta concentração de empresas, dá para ver na mesma via executivas, trabalhadores, estudantes, seja com bikes próprias ou aligadas. Parece ser um primeiro flerte com o transporte de massa, ou ao menos uma opção para milhares de trajetos diários. Mais uma opção, que se conjuga com transporte público ou particular. Não precisa ser a salvação da lavoura para ser parte da vida da cidade e útil para quem vive nela.

Afinal, bicicleta é só uma coisa. Uma ferramenta, um instrumento. Como carros. Não precisam salvar o mundo, pecisam apenas cumprir sua função.

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