OPINIÃO
01/12/2014 09:52 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Wag the dog

Como todos aqueles que estudaram jornalismo sabem, notícia é aquilo que teoricamente possui um impacto diferenciado na realidade ou cotidiano da sociedade e precisa ser comunicado.

AFP via Getty Images
TO GO WITH AFP STORY by GERARD AZYAKOU - A group of crack cocaine addicts gather to smoke, in 'Cracolandia' (Crackland in English), in downtown Sao Paulo, Brazil on January 14, 2012. AFP PHOTO / Yasuyoshi Chiba (Photo credit should read YASUYOSHI CHIBA/AFP/Getty Images)

Desde que a "modelo" dependente química Loemy se transformou em matéria de capa da "Veja São Paulo", não apenas os meios de comunicação começaram a caçá-la para novas entrevistas. Já nos dias 25 e 26 de novembro - três dias depois de a revista chegar às bancas - militantes pelos direitos negros não resistiram a colocar a boca no trombone para se queixar da atenção que mais uma "branca" recebia da mídia. Segundo eles, enquanto todos os dias negros e negros chegariam à Cracolândia sem virar notícia, se tonando apenas mais um número no total de "zumbis", Loemy seria diferente por se tratar de um caso de uma mulher "branca" e de classe média cujo sucesso teria sido interrompido pelo uso de drogas.

Como todos aqueles que estudaram jornalismos sabem, notícia é aquilo que teoricamente possui um impacto diferenciado na realidade ou cotidiano da sociedade e precisa ser comunicado. Trata-se daquilo que o filme "Wag the dog" ("Mera Coincidência", em português; 1997) tenta explicar com a expressão título, ao mostrar que não são os cachorros que balançam o rabo que vão parar na capa dos jornais. São, portanto, os cães cujo rabos são capazes de chocalharem os seus donos que recebem destaque e atenção. Ou seja, notícia é qualquer coisa que esteja fora do cotidiano.

Politicamente corretos vão logo vestir a carapuça, mas o fato é que o casos como o de Loemy chamam atenção e viram notícias porque saem do comum. Como a própria Cracolândia é sempre notícia porque sai e destoa da realidade de São Paulo. Dentro dessa lógica, supondo que, de fato, Loemy seja "branca", seu destino jamais deveria estar entre os de vários miseráveis a quem a vida só reservou a realidade das drogas. Mas, como pode-se ver na foto que Rodrigo Faro divulgou da mãe da "ex-modelo", Loemy está muito longe de ser ariana e a sua família muito longe dos ideais paulistas de classe média. Aqui, poderíamos voltar ao eterno debate de raça que o Brasil começa a trazer para as ruas e nos perguntar o que é ser branco, pardo, negro e mestiço no país. Como já disse Chico Buarque, Loemy é só mais uma a confirmar que a princípio a única branca que o Brasil possui continua a ser a Xuxa.

Entretanto, supondo que Loemy seja de fato "branca", a questão que nunca se pode colocar para os movimentos sociais no país é: que direito tenho eu, você ou qualquer um de ir chorar os problemas todas as semanas na terapia pertencendo a um país com tantas questões sociais? Que direito tem a "Veja" de expor que ninguém sai ileso desta vida, sejam brancos, pardos, negros, modelos ou classe média? Dentro da lógica das minorias sociais, parecem existir sofrimentos que são mais importantes do que outros. É isso?

Luiz Felipe Pondé também tocou na ferida na "Folha de São Paulo" de segunda (24 de novembro; "Relatos Selvagens") ao comparar o cinema brasileiro ao argentino. Como ele explica, enquanto nós continuamos validando o espaço social do país com as duas versões do "coitadismo" (ou seja, "pobre/favelado é lindo" ou "coitado do pobre/favelado"), a Argentina - que afunda a passos largos sob o comando da Cristina Kirchner - não abre mão do seu cinema de humanidade subjetiva.

De fato, no Brasil, para ter a sua trajetória de vida validada, uma pessoa precisa ser coitadinha. No entanto, trata-se de um sofrer justificado socialmente enquanto parte de uma minoria e não como ser individual. Se você não passou fome, não estudou em colégios públicos, não morou na favela, se você não quase morreu cinco vezes no Acre por causa das condições precárias de atendimento hospitalar ou se você quase não perdeu o dedo da mão pelas condições subumanas de trabalho, você não pode ter uma experiência suficientemente humana digna de compaixão.

É compreensível e necessário que todas as minorias falem por si próprias e defendam seus direitos. Mas é importante que elas também não reajam contra o outro da mesma forma como detestam que façam com ela: invalidando ou invisibilizando experiências diferentes. E, aqui, enquanto seres humanos únicos, caberia a cada um de nós perguntar: sofrimentos são comparáveis? Uma história é mais válida porque vem direto da Cracolândia? As histórias das mortes dos filhos do novelista Manuel Carlos são menos dolorosas porque ele vive no Leblon? Se eu não entrar na faculdade pela janela, usando o bolsa família, o meu esforço terá sido menor ao concluir um curso? E o esforço do Lula terá sido maior por ele ter alcançado a presidência sem diploma? Se eu tiver câncer, é "na boa" porque posso teoricamente pagar pelo plano de saúde? De que forma se mesura a dor?

Tendo sempre estudado em escola e universidades privadas e estrangeiras, cansei de escutar que o meu sofrimento era menor porque não era judia, negra, pobre ou analfabeta. No Brasil (e mesmo no mundo), se você é classe média, estuda e trabalha (ou ao menos tenta encontrar um emprego), você tem quase que pedir desculpas por ter problemas pessoais. No Brasil do coitadinho social, o sujeito não pode existir, não pode ser simplesmente alguém que acorda todas as manhãs e tem que encarar a vida de todos os dias, com suas complexidades, lutas e conquistas. Ou melhor, vão culpar o seu prazer, invejar as suas "vitórias facilitadas" e ver as suas conquistas como "o cumprir com a sua obrigação". Ou então, criticar o seu fracasso injustificado: "não consegue emprego porque não quer" e por aí vai.

Queria saber de que forma esse tipo de discurso ajuda as minorias em geral. O Brasil não é Ferguson, e nem a "modelo branca" tem o apoio da sociedade por ter matado negros tão drogados quanto ela. A questão é que, por ser supostamente "branca", ela não pode falar ou reclamar. Ela não tem o direito de pedir ajuda ou não saber o que fazer. Por ser "branca", Loemy tem que carregar o seu sofrimento calada porque optou pelo caminho das drogas. E loiros de olhos azuis não sofrem jamais se não for por vontade própria.

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