OPINIÃO
16/01/2015 10:43 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Quando é com os outros, toda forma de humor vale a pena

Sim, por que, afinal, o que há de errado no humor "cáustico que precisa ser explicado" da "jornalista" Silvia Pilz? Achando que é o Caco Antibes dos anos 2010, Platz criou o seu "Je suis Thayanne" e fez o mesmo Brasil que sempre riu com Falabella odiá-la por mostrar como é "digno de inveja" ser pobre e estar doente. Afinal, que país é esse que queria ser Charlie, mas não é, e que aceita a piada com o povo-outro, mas não tem senso de humor para rir da sua própria desgraça?

Dino Henderson/Creative Commons

Contardo Calligaris tem razão quando fala na "Folha de S. Paulo" desta quinta-feira, 15 de janeiro, que ouviu-se tudo acerca do ser ou não ser Charlie. Que era uma publicação islamofóbica, que meia dúzia morreram pela liberdade de expressão, que o Islamismo toma conta da França. No meio do toma-lá-dá-cá de opiniões, Calligaris acredita que o movimento "Je suis Charlie" que tomou conta do planeta é a celebração de um mundo que é capaz de identificar a sua falta de valores absolutos - talvez, ironicamente, o único valor absoluto do Ocidente. Ou seja, a "Charlie Hebdo" seria uma publicacão mais do que necessária porque brinca contra a cretinece do mundo e com o politicamente correto, permitindo que tudo que é levado muito a sério seja dessacralizado com humor. Assim, se não há valores, nada é tão absoluto que não possa ser inclusive insultado. Mais do que nunca, todo mundo tem direito à liberdade de se expressar - ainda mais se a expressão vier de mídias como a francesa. Explica-se.

Oui, dois mil e quinze começou em Paris - e só por isso falamos de Charlie. Se no mesmo dia foram assassinadas 2000 meninas pelo grupo terrorista nigeriano Boko Haram, viemos a saber do massacre bem depois. Isso porque as meninas não estavam na redação da "Charlie". Ou nas páginas dos jornais que falavam sobre a "Charlie". Se, mais um dia depois, mais algum carioca foi assassinado na Zona Sul - vejam bem, falo da Zona Sul, a única zona que importa no Rio -, isso também não é tão relevante porque, no mundo, o Rio é Zona Norte. Se todos estão indignados e lutam pela liberdade de expressão, bastava ver a linha de políticos (sendo bem politicamente correta aqui) que defendem o movimento "Je suis Charlie", quando "Charlie" é sempre "Je", nunca "nous", um movimento que valida a defesa dos valores parisienses, franceses, valores que se tornaram universais porque o Universo é aquilo que é definido por uma certa Europa.

Num domingo que levou historicamente milhões de franceses às ruas, o mundo cantava a Marselhesa, o hino mais imperialista que todos amam conhecer e cantar, colonizadores e colonizados. E, infelizmente, a Marselhesa não é um charge de humor. Numa tradução barata encontrada na Internet, basta lembrar que o hino que espelha o imaginário nacional francês diz bem claramente "Às armas, cidadãos/ formai vossos batalhões/ marchemos, marchemos! / Que um sangue impuro / banhe o nosso solo." Misturando futebol e política, não parece ser por acaso que o maior jogador de futebol francês de todos os tempos, Zidane, muçulmano e argelino, jamais o cantou.

Mas voltando ao Brasil, onde mesmo a morte de Tim Lopes - repórter da Globo!!! - nunca mobilizou tanta gente da elite brasileira, muitos foram os jornalistas que nos fizeram ver a influência da publicação francesa no cartunismo verde e amarelo. Laerte, Caruso, quantos mais? Aqui, nada se cria, tudo se copia ou se adapta ao calor, até no humor. Aliás, era um pouco óbvio que depois do "Je suis Charlie", as adaptações brasileiras começassem a aparecer.

Nós, o maior país católico do mundo (essa piada que gostamos de contar para nós mesmos), não entendemos, como explicou Leonardo Boff, que, "na religião muçulmana, há um princípio que diz que o Profeta Maomé não pode ser retratado, de forma alguma. Esse é um preceito central da crença Islâmica, e desrespeitar isso desrespeita todos os muçulmano." Numa comparação religiosa, seria para os católicos como colocar um desses pastores do Bispo Edir Macedo novamente chutando a imagem de Nossa Senhora. Apesar dos anos todos que separam os dois atos, refresquemos a memória. Na época, eram os anos 1990, ninguém achou muita graça.

Também não deixa de ter paida que, também nesse começo de ano, Renato Aragão tenha usado as páginas da "Playboy" para afirmar que "naquela época", a época em que as pessoas se contentavam com o humor dos Trapalhões, "essas classes dos feios, dos negros e dos homossexuais, elas não se ofendiam. Elas sabiam que não era para atingir, para sacanear." Ele próprio nordestino, Renato sabe que piadas são "brincadeiras de circo" (afinal, somos todos macacos) e provavelmente não imaginava que uma declaração dessas fosse gerar na Internet uma chuva de críticas. Nessa mesma entrevista, enquanto ele ainda critica o humor "pesado" dos meninos do "Porta dos Fundos", todo o povo brasileiro charlista se chocava com as declarações do eterno Didi. Obviamente, o humor de Aragão não é "uma merda" como o do "Porta dos Fundos", como ele próprio diz. Da mesma forma que, para todo bom brasileiro, nosso humor termina quando voltamos da Cidade Luz.

Sim, por que, afinal, o que há de errado no humor "cáustico que precisa ser explicado" da "jornalista" Silvia Pilz? Achando que é o Caco Antibes dos anos 2010, Platz criou o seu "Je suis Thayanne" e fez o mesmo Brasil que sempre riu com Falabella odiá-la por mostrar como é "digno de inveja" ser pobre e estar doente. Silvia-Thayanne - nome estrangeiro que pobre brasileiro tanto gosta de dar para os seus filhos - não economizou nas piadas: se o plano cobre, se o jantar é de graça, se a praia é para todos, o pobre esta lá. Por que dela ninguém ri? A coerência brasileira charlista é tão embaraçosa que é preciso que alguém não faça humor, mas faça a guerra, para ver até que ponto podemos ir com a nossa "liberdade de expressão". É preciso que outra "jornalista", Hildegard Angel, termine com a sua credibilidade e afirme que "em dias de grande concentração de pessoas nas ruas e praias, nos fins de semana e feriados do verão, a circulação de linhas de ônibus e metrô no fluxo Zona Norte - Zona Sul seja "drasticamente" diminuída" para que o buraco fique mais embaixo. E agora? É rir para não chorar? Afinal, que país é esse que queria ser Charlie, mas não é, e que aceita a piada com o povo-outro, mas não tem senso de humor para rir da sua própria desgraça? Não era Charlie Hebo para cima de todo o mundo? Sem descriminar? Eu sei, pimenta no olho dos outros é refresco.

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