OPINIÃO
05/11/2014 09:39 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

O cérebro do meu pai

Coube, então, a mim e à minha irmã levar o meu pai ao hospital, como de fato levamos naquela sexta-feira de dezembro de 2010.

Jonathan Selig via Getty Images

Na família em que nasci, era inevitável se tornar feminista mesmo quando eu ainda não sabia muito bem o que feminismo queria dizer. Era uma família conservadora de comercial de margarina: papai, mamãe, duas filhinhas e colégio católico semi-interno. No Brasil da pornochanchada, a nossa sexualidade era inexistente e a nossa subjetividade era preservada. Freud era um charlatão, e o Foucault mais um maluco francês depravado. No Brasil que ainda era ditadura, da inflação e sem bolsas e cotas, tínhamos estabilidade econômica e educação de primeiro mundo. A impossibilidade de ser uma ilha ainda não estava latente, e eu e a minha irmã viveríamos anos dourados desde o nosso nascimento até os meus 18 anos.

Mas como nem tudo que reluz é ouro, com a entrada na PUC, a redoma de vidro deixou de existir, e as boas intenções do meu pai e da minha mãe vieram em forma de depressão: havia um mundo ultrassexualizado e analfabeto - intelectual e emocionalmente - no qual eu não sabia me colocar. Sabia que queria terminar com a proteção em que estivera a vida toda, sabia que havia mais vida no mundo do que supunha a minha vã filosofia, mas não sabia muito bem para onde ir, como fazer ou o que ser, que mulher me tornar. Pela Universidade da Católica do Rio, começavam os vários primeiros choques: quantas santas-putas com seus puritanismo julgavam tudo que havia de mais demasiado humano; quantos alunos, de fato, iam além da praia de Ipanema e eram cariocas; quando, afinal, o Rio se tornaria o cenário da minha vida? Na PUC, aprendi a escutar, a não julgar, porque queria ser diferente daqueles alunos, mas também porque esperava que haveria uma vida-filme só minha pela frente.

Depois de quatro anos de Universidade, o mestrado se tornou a desculpa para sair de casa. Se entrar na Faculdade de Comunicação já havia causado uma guerra em casa com o meu pai - "filha minha não nasceu para ser jornalista de porta de cadeira" -, sair do Rio e do Brasil foi estabelecer um rompimento total no meu posicionamento perante à vida. Filhinhas de papai não deviam sair de casa sem ser para casar ou para se estabelecer profissionalmente. E ser brasileira no exterior, viria a descobrir, era tudo aquilo que eu tinha sido educada para não ser, genticílio-realidade da qual o meu pai, talvez de forma inconsciente, tentou me proteger sem sucesso. A passagem foi comprada, Lisboa viria a ser a minha cidade, e nesse período a minha mãe me incentivava a ser o que ela não tinha conseguido: uma mulher que lê, que estuda, que podia ser algo na vida. Vinha da minha mãe o meu apoio para "ser". Havia, naquela época, a cumplicidade das mulheres dentro da casa conservadora-patriarcal.

Quando olho para trás, penso que, na minha casa "feminista", todas podíamos nos dar ao luxo de ser "Simones-de-Beauvoir-wanna-be" porque havia um pai(triarcado), um homem, consistente dando segurança por trás da escolha de cada uma de nós. Havia um Sartre de segurança. O meu pai era a nossa fortaleza. Se lutávamos por liberdade, era porque também o meu pai estava ali para nos ensinar a ter disciplina, a respeitar, a ser independente e a não precisar nunca de ninguém para nada. Se houvesse algum problema, ele estaria ali, para tudo. Ainda que reclamássemos, éramos as filhinhas privilegiadas porque tínhamos o pai que todos queriam e deveriam ter. Um pai presente, imperfeito e real, mas idealizado por muito dos nossos amigos.

Até o ano em que tudo mudou. Lembro-me do dia em que ele se sentiu mal, e as nossas vidas começariam a mudar para sempre. Eu já morava em Lisboa há 5 anos e estava no Rio para as férias de Natal. Estava indo ao oftalmologista em Copacabana, parada no trânsito carioca, tocava Kid Abelha na rádio, quando a minha mãe telefonou para o celular avisando que o meu pai não conseguia ficar em pé. Para minha mãe, a partir de então, a expressão "trabalho em equipe" passou a se resumir a telefonar e dar ordens. Para ela que já estava aposentada há um certo tempo e começava a gostar de estar morta em vida, viver passou a se resumir a reclamar e se trancar em casa, atitude que fez com que ela competisse ferozmente pela atenção que o meu pai precisava receber.

Coube, então, a mim e à minha irmã levar o meu pai ao hospital, como de fato levamos naquela sexta-feira de dezembro de 2010. A minha mãe só chegaria depois, quando saímos da UTI com um documento em que assinávamos que compreendíamos que o meu pai tinha um aneurisma e corria risco de vida caso não fizesse a operação na cabeça com urgência. Foi assim que abriram o cérebro do meu pai. Sábado de manhã, ele já havia sido operado.

Depois da operação e de uma semana no hospital, apenas mais seis meses foram normais na nossa casa, embora eu não estivesse o tempo todo lá. Eu fui para os Estados Unidos, tinha uma bolsa e aulas de Doutorado lá. Mas, quando retornei para as férias de fim do ano seguinte, os esquecimentos haviam aumentado, as habilidades tinham diminuído, o Alzheimer aparecia. O meu pai começava a se desligar das coisas, das pessoas e das obrigações rotineiras. O meu pai já nem sabia que o Lula era o presidente do país, viria eu a descobrir depois de uma consulta com o neurologista. Naquele dia, esperamos mais de seis horas para ser atendidos. O tempo se repetia para ele durante as horas de espera. Mas o tempo passava para mim, irada com a falta de respeito do hospital.

Eu não sei como seria ter um parente com um Câncer ou Parkison na família, mas o Alzheimer não nos poupou. O Alzheimer maltratou a nossa família, fortaleceu mais do que nunca a minha ligação com a minha irmã, mas passou a destruir a cada dia a minha relação com a minha mãe. Com o Alzheimer do meu pai, eu perdia ambos. Ambos começaram a se desligar em vida. Se, antes de Lisboa, já brigávamos porque descordávamos de muitas coisas, depois de Lisboa a minha mãe começou a punir a filha pródiga que nunca voltava, porque parecia injusto a filha agora ser jovem, amar, viajar, transar e viver. Mas, mais do que isso, a minha mãe que gostava de exibir uma família publicitária - uma família que nunca haveria de se desfazer como a dos meus pais havia se desfeito numa época em que não se aceitavam divórcios e separações - não aceitava mais não se comportar como filha do meu pai ou como irmã das filhas.

Para a minha mãe, o Alzhemer do meu pai era uma atitude proposital dele para irritá-la, obrigando-a a ficar com um homem que ela nunca teria amado de verdade. Depois do Alzheimer do meu pai, ela não poderia ser a irmã que ia conosco ao shopping fazer compras ou ajudar nos trabalhos escolares. Ou ter as psicólogas de plantão para os problemas de todas as ordens que ela nunca quis resolver com a ajuda de um profissional de verdade - os loucos e o inferno sempre foram os outros. A minha mãe sabia que a vida de todos estava sendo roubada pela doença, mas o que ela não conseguia compreender era que nos punir não mudaria nada. O que ela não conseguia compreender é que não desejamos pais diferentes, mas um destino diferente, em que não seja necessário fugir para ser capaz de amar.

Com o tempo, a doença do meu pai ia derrotando a minha esperança de reconciliação com ela. Porque, ao nos punir, fazia de nós também pessoas piores. Brigas e gritos e choros e falta de respeito passaram a fazer parte da rotina da minha casa. Se cada família do mundo tivesse uma pessoa com o mal de Alzheimer, não haveria civilização ou memória no mundo. Passa-se a viver na repetição, sem as boas lembranças da infância, mas no cotidiano devastado pela doença. O feminismo nega a biologia, mas eu acredito no poder do sangue, em genética. Porque família, como diria Anne Enright em "Corpo Presente", é a casa/corpo/sangue para o qual sempre voltamos. "Não há outras viagens. (...) Somos sempre refugiados peculiares a fugir do nosso próprio sangue, ou para junto do nosso próprio sangue, sangue que pulsa para trás e para frente envolvendo o mundo numa mixórdia genética". E me pergunto se ódio e ressentimento e rancor passam por sangue, assim como Alzheimer também pode passar.

Se eu fosse a Doris Lessing, reescreveria uma história de amor para cada um dos meus pais como ela fez em "Alfred & Emily", quando percebeu o legado de infelicidade que ambos carregavam e transmitiam. Daria ao meu pai uma mulher-companheira e à minha mãe um pai e uma mãe amorosos. Com vidas menos destruídas, eles poderiam ter mais alternativas. Não sendo a Lessing, quero apenas poder acordar de manhã e ter o direito de escrever a minha própria vida, sem carregar legados machucados e que machucam como se só pela dor fosse possível se relacionar.

Esta quarta retorno a Amsterdam depois de um mês no Rio. Pensei que vinha passar duas semanas no Brasil para ajudar a minha irmã com o Alzheimer do meu pai e a fazer as pazes com a minha mãe - com quem já não falava. Pensei que não precisava ter medo, porque família é o sangue que amamos também se não escolhemos amar. Mas volto sendo ajudada pela força da minha irmã mais jovem e pacificada com o amor impossível e destrutivo que há entre mim e a minha mãe, que nos une, mas que nos exaure porque só se demonstra por meio da nossa relação decadente.

Mas hoje, por 5 minutos, o universo ou Deus ou coisas que o valham pouparam o meu pai, e eu voltei a ser filha novamente. Foram 5 minutos em que pude chorar na frente dele. E, enquanto chorava, perguntei a ele o porquê de ter escolhido a minha mãe, alguém com tanto rancor e dificuldade de amar. E ele disse que isso não importava mais agora, tantos anos depois, porque ela tinha nos dado uns aos outros. Sem ela, ele não seria o meu pai. E, sem ela, nós não éramos as filhas que ele jamais imaginou ter, mas que hoje tem e que ama com adoração. Sem ela, ele não teria tido a melhor coisa da vida dele, a experiência de ser pai, de estar numa família, de pertencer. Depois disso, ele voltou pro mundo dele, repetindo as coisas, perguntando as mesmas perguntas, sem antes dizer, no meio das repetições, que um dia eu ia ter a minha família e não precisava ter medo, eu ia conseguir fazer melhor. Porque ele também melhorara em relação ao próprio pai.

Parei de chorar, voltei a rir com a minha irmã e pensei que agora tenho que aceitar ser a Simone de Beauvoir que posso ser. Com liberdade, sem segurança. Na minha versão existencialista, agora posso ir, em paz, viver ao lado do meu Nelson Algreen que me espera em Amsterdam. O amor do meu pai é incondicional, e o seu maior presente foi me fazer ver que posso fazer melhor, muito melhor, com o meu Ray. O amor, como as mulheres, também se pode construir.

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