OPINIÃO
17/03/2015 18:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Fernweh

No dia em que o Rio comemorou 450 anos, lembrei-me da única história que sei sobre Jorge Amado. Ao ser perguntado porque havia deixado a Bahia e ido viver na Europa, se ser baiano era tão bom, ele respondeu: "É bom, mas há muita concorrência."

Deise R./Flickr
Só para atualizar mesmo!Foto antiga, porém nunca postaada!Beijos

No dia em que o Rio comemorou 450 anos, lembrei-me da única história que sei sobre Jorge Amado. Ao ser perguntado porque havia deixado a Bahia e ido viver na Europa, se ser baiano era tão bom, ele respondeu: "É bom, mas há muita concorrência."

No dia anterior aos 450 anos da cidade, decidi que queria ficar em Amsterdam. Mas senti-me culpada: se todos falam tão bem do Rio, por que só eu não consigo viver ou querer viver na minha cidade?

Eu, que havia deixado o Rio 11 anos antes para fazer um mestrado no exterior, nunca mais voltei para ficar. Mesmo em 2013, quando estive pronta para apostar num retorno definitivo, deixei Portugal, tatuei Lisboa na pele, e cheguei ao Galeão - para abandonar, mais uma vez, o Rio um mês depois.

A minha mãe gosta de justificar que, desde que fui concebida, estive na barriga viajando. Foi no oitavo mês de gravidez, depois de meses entre Lisboa e Madrid, que ela decidiu que eu nasceria no Rio. Escolheram o meu nome e também o gentilício que eu carregaria para o resto da vida: carioca.

No dia em que o Rio comemorou 450 anos, fui ver os jornais portugueses para ler mais do mesmo: o Rio é sexy, o Rio é o lado feliz dos portugueses, o Rio é a selva que o mundo acha que não é, como se o purgatório mundial estivesse apenas reservado ao terceiro mundo. Na visão metrópole-colônia, o Rio é o slogan pelas quais as mulheres brasileiras são conhecidas: maravilhosas.

Depois de morar em cinco países e ter a sorte de conhecer gente de todos os lugares do mundo, comecei a ter inveja das pessoas que faziam o caminho do filho pródigo: voltar para casa apaixonadas pela cidade de origem, protegidas por família, amigos e língua - e reconhecendo as boas coisas que só na nossa casa podemos ter.

Sofrendo também da síndrome de anti-Doroty, foi João Paulo Cuenca na Folha de S. Paulo da última quinta (5 de março) que acalmou o meu coração e explicou aquilo que os alemães chamam de "fernweh" como sendo uma saudade não da nossa casa, da cidade em que nascemos, mas de tudo aquilo que vamos deixando para trás depois de todas as viagens que fazemos e dos lugares pelos quais passamos. Ele, como eu, sofre desse mal.

Aqui vale lembrar que o Rio, ainda que lindíssimo, tem como símbolo máximo um Cristo Redentor gigantesco eternamente de braços abertos. Sempre pronto para receber, ele, no entanto, nunca consegue abraçar, prender, permitindo chegar, mas sobretudo deixando partir. O meu Rio e o meu Cristo, paradoxalmente, parecem saber que é quando partimos que nos tornamos ainda mais aquilo que somos.

Jorge Amado tem razão. Se, na Cidade Maravilhosa, descobri que adquiri um certo sotaque luso, fora do país sou sempre mais brasileira. É no contato com várias nacionalidades que o meu carioquês é mais intenso e o meu amor pelo Rio e pelo Brasil se torna óbvio e possível.

Fora do Rio, continuo não gostando de sinais fechados, canto MPB e bossa nova, sinto falta do calor arrasador, das conversas nas filas e até do jeitinho carioca, da malandragem que tanto critico. Sinto falta de ouvir e falar português. Sem sotaque, para mim. Com sotaque carioca, para o resto do Brasil.

No Rio, eu que sempre quis ver os Jogos Olímpicos de perto, eu que sempre torci por 2016, as obras atrasadas e infinitas me irritam, o trânsito me incomoda e as diferenças econômicas e sociais me revoltam. O português pobre e gritado das pessoas que assassinam a língua, cheio de gírias embrutecidas, não me permite pensar: passo o tempo a corrigir os erros de forma mental. E, ok, no Rio ou fora dele, eu detesto carnaval, ainda que, como boa carioca, quando estou fora do Brasil, acho que sei sambar.

Gosto de lembrar de Flaubert, quando me sinto assim. Gosto de pensar que ele, sendo também a sua Madame Bovary, é um eterno contraditório de si mesmo: no meio da plebe, sente falta da burguesia. No meio da burguesia, quer ser plebe e viver a boemia.

A minha relação com o Rio é um pouco dessa forma, quase como um amor platônico, que só é perfeito quando nunca é concretizado, possível. Quando estou na cidade, sinto falta das coisas que estão fora dela, critico tudo e todos. Mas, fora do Rio, eu posso, enfim, ser a mais carioca das não-cariocas, vendo as suas belezas e defendendo as suas fragilidades. Ao contrário do que diz Vinícius, eu preciso sentir saudade.