OPINIÃO
08/09/2014 20:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:53 -02

A seleção brasileira me representa

Getty Images

Claúdia Leite não me representa; Pitbull e JLo não me representam; estádios que se chamam Arena não me representam. O Flamengo não me representa; Ricardo Teixeira não me representa; e a CBF não me representa. Analfabetismo não me representa; Brasília não me representa e o carnaval não me representa. Mas o futebol e a seleção brasileira me limitam dentro do estereótipo mais básico que um brasileiro pode estar: eu amo o maior esporte do mundo. De certa forma, foi a canarinha que moldou o meu amor ou tentativa de amar o Brasil e consolidou de vez a minha paixão pela literatura e a língua portuguesa.

A primeira Copa do Mundo de que consigo me lembrar, sendo filha dos anos 80, foi a Copa da Itália, em 1990. Eu não tinha nem dez anos e tive que assistir, já naquele ano, a Alemanha vencer a Argentina pela primeira vez quase aos 45 minutos do segundo tempo com um gol de pênalti contestável. Para aqueles que, como eu, aprendiam as regras do jogo, foi o começo do meu espaço de expressão nacionalista. Porque, com toda a dificuldade que é saber-se ser brasileira, é muito difícil se identificar com o futebol italiano ou argentino.

De fato, depois disso, o Brasil quebraria um jejum de 24 anos sem títulos mundiais com doze anos de vitórias: duas taças (1994; 2002) e uma final inacreditável contra a França, em 1998. Sim, ainda não sabíamos o que estava por vir em 2014. De qualquer forma, eu cresci e me formei aprendendo - não com o Pelé, mas com o Romário e os Ronaldos - que, no esporte mais popular do mundo, o Brasil era elite. Depois de 1990, vi, em 1992, a seleção masculina de vôlei ganhar o primeiro ouro coletivo da história olímpica brasileira e que hoje gerou um país que não só é do futebol, mas também do Zé Roberto e que, mais tarde, seria ainda o país do Guga. Antes da Espanha do Nadal, do Guardiola e do Alonso, "yellow were the old red".

Foi durante essa década que passei a sair de casa para comprar todos os jornais e revistas disponíveis nas bancas e comparar estilos de escrita e ver como o esporte precisava também da linguagem para resumir a vida. Obviamente, dali para a literatura, foi um pulo. Numa casa em que ninguém gosta de futebol, mas lia-se bastante, eu iniciei a minha vida literária com jornalismo e cultura esportivos. Era incentivada a ler, mas lia sobretudo aquilo que começava a amar: o futebol. Num país de corrupção endêmica, eu virei as costas para a política e me refugiei no imaginário esportivo nacional, aprendendo o quanto era bom vencer e o quanto a escrita esportiva podia ser metáfora da minha futura vida de sucesso.

Nos anos 1990, o Brasil saía de uma ditadura e vivia os seus anos Collor: poupanças confiscadas, inflação nas alturas, falta de empregos. Era difícil reaprender a ser livre e daí muitos sentirem saudade dos militares. O esporte era, então, a vida que dava certo, era onde ganhávamos, válvula de escape e alienação. O futebol, principalmente, era o Brasil que as pessoas viam ou queriam ver. O Brasil era o país do futebol errado, do português errante, das raças misturadas, mas que saía vencedor. O Brasil era a enceradeira do Zinho e suas voltas irritantes e infinitas, mas que dava resultados. Serviria mais tarde como tática a ser utilizada por Guardiola, com mais beleza e reconhecimento, é verdade, já que a Espanha se localiza um pouco mais acima da linha do Equador.

Nos anos 2000, o Brasil viria a se tornar fashion e bombava: Copa do Mundo, Olimpíadas, inflação controlada, novos poços de petróleo, um presidente operário e uma mulher na presidência. Tudo muito bom para ser verdade. O Brasil tentava, de uma forma ou de outra, entrar no hall das nações civilizadas, colocando de lado o seu passado vira-lata, passional, impontual e selvagem. No Brasil da Dilma, a democracia seria tão democrática que o Itaquerão pôde se dar ao luxo de vaiar em peso a sua líder principal para o mundo todo ver. Mas o Brasil da Dilma, como o mundo viu, é ainda o Brasil de sempre: ninguém se importou com os bons modos e a educação que uma Angela Merkel imporia à sua Alemanha. De fato, quem sai aos seus não degenera - seja para que lado for.

Na onda do BRICS e do sucesso brasileiro, até o Romário ficou sério e se tornou deputado. Dunga, por sua vez, tentou unir disciplina e talento ao seu time, em 2010, explicando que trabalhar também é preciso. Porém, como o Brasil muda, mas é ainda o mesmo Brasil de sempre, a disciplina foi logo cortada quando a Seleção foi eliminada pela Holanda e o talento de Kaká já há muito não era exclusivo da Globo. E o Felipão voltou.

Voltou e voltou em 2013, ano em que o país estava nas ruas, protestava e gritava em toda a sua dimensão geográfica por muito mais do que vinte centavos. O futebol celebrava esse momento de "consciência" da classe média depois de anos de paralisia. Porque, embora os nacionalismos sejam construções imaginárias, a Seleção estava ali para provar que teoria constitui realidade, sim. E Felipão voltou e fez aquilo que talvez nenhum outro conseguira: venceu a invencível Espanha na Copa das Confederações e ensinou uma nação a cantar o hino nacional como se fosse uma canção pop fácil de memorizar. Antes calados, os jogadores da família Scolari fizeram o que nenhuma escola no país consegue com facilidade: ensinar o povo a cantar o infinito hino brasileiro - e a lágrima é, sim, verdadeira, como diria o Renato Russo.

E o Brasil, mais uma vez na sua imperfeição, desrespeitava as regras da FIFA e continuava a cantar à capela também quando a música era cortada. O momento era tido como histórico e aquela forma de cantar passou a ser tradição. Cantar e chorar. No novo Brasil civilizado e moderno, ainda não se respeita minutos de silêncio e não se evita o choro que tanto parece ter incomodado Lothar Mattheus, pobre menino rico alemão. Mattheus que não conseguiu "compreender o comportamento dos joagdores brasileiros que choraram por tudo e por nada". Mattheus que provavelmente não vê problema algum quando Benzema, o novo Zidane-argelino-francês-tudo-junto-e-misturado, se cala cada vez que a "Marselhesa" é tocada celebrando a morte de sangues impuros e sugerindo a dominação de povos sob outros.

Sendo brasileira e latino-americana, também sou chorona profissional. E já dei "beijos" uruguaios - expressão de Calligaris - muito antes do Suarez, quando os ditos civilizados se acharam no direito de declarar desamor com palavras. Na Europa unificada, Zidane já havia terminado a sua carreira denunciando Materazzi com uma cabeçada que, para muitos, mancharia a sua história. Toda uma vida de profissionalismo e genialidade é apagada em um segundo contra o racismo. Diga não à violência - mas apenas quando ela for física, claro.

Talvez a cabeçada de Zidane, a mordida de Suarez e o choro dos brasileiros sejam essa fragilidade e violência humana - mas sobretudo masculina - que não podem ser visibilizadas ou problematizadas. Muito menos em escala mundial. Se as declarações de guerra são "na boa", o choro nacional paralisador que irrita a tantos talvez seja mais um lado desse Brasil, mais vira-lata do que nunca porque tenta expor a artificialidade das construções discursivas sobre as nações, gêneros e afetos. Os brasileiros choramos. E se tornamos o nosso choro melhor ou pior - porque mais visível - talvez seja porque futebol é sempre mais do que futebol. Futebol é a vida, é pertencer e não pertencer, é ganhar pouco (vitórias obviamente) e perder muito. Muitas vezes mais.

Na selvageria dramática brasileira, na "excessiva emocionalidade" em oposição à frieza vencedora e civilizada alemã, os meninos de Scolari estão tentando dizer com dificuldade "that boys do cry" e "girls wanna have fun" no Clube do Bolinha do mundo. E haja Maracanãs de lágrimas - porque ninguém nos ensina a perder, cair, levantar e recomeçar. Sejamos homens ou mulheres. A derrota do Brasil é a exibição do choque que é falhar num mundo que exige padrão FIFA de sucesso e felicidade para ser exibido no Facebook, mas entrega vidas com as condições de estádios terceiros mundistas sem que se possa reclamar ou mostrar. O futebol, como o sexo, seria aquilo que Houellebecq definiu como "extensão do domínio da luta". Daí, a Alemanha ser a campeã invicta e absoluta num torneio e num mundo que não aceita perdedores - embora estes estejam por todas as partes. Daí, as pessoas se sentirem humilhadas por serem vistas na sua humanidade, na sua nudez, na sua imperfeição - como se perder ou errar ou cair fosse uma falha de caráter.

Calligaris tem razão: o Brasil não é a Seleção e começa aos trancos e barrancos a ser um país além do futebol, tentando, com a derrota, problematizar o imaginário internacional que nos é dado - obrigada! - para sermos conhecidos como país de favelas, corrupção, violência e putinhas de 12 anos disponíveis para gringos europeus. Mas o Brasil também é a Seleção, o Brasil nunca poderia ter tanto orgulho de ser a Seleção: porque é impossível vencer sempre, porque é preciso saber perder, porque alguém precisa expor a melancolia do homem ocidental perdido, perdedor e cambaleante, no futebol e na vida, numa retórica de modernidade civilizatória que funciona mais para uns do que para outros e muito menos para todos.

Todo o carnaval (e Mundial) tem o seu fim, agora sei. E ainda bem. Afinal, como diria Vinícius, para fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza, senão, não se faz um samba, não.

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