OPINIÃO
24/05/2015 23:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

A alma do corpo

Podemos reclamar que o mundo é cruel. Mas, para se ter afeto, para se tocar a alma com o corpo, para se ter o contato físico do qual o amor também depende, a pele é a fronteira.

Andreas Kuehn via Getty Images
Nude young woman laying on her side in a pond almost submerged by water, front view and cropped.

"Só os fúteis não julgam pela aparência."

Oscar Wilde

Não somos tão modernos assim. Ainda estamos na Grécia de Platão e ainda vivemos num mundo construído por bipolaridades: homem/mulher; razão/emoção; prazer/trabalho; corpo/alma.

O mito do amor e do afeto também não fugiu à teoria platônica que fortaleceu na história da humanidade a busca pela metade da laranja, outra dicotomia. Fala‐se de amor como se falava há mais tempo do que podemos pensar. E, nessa história toda, não apenas o sentimento "mais importante" adquiriu ares de "natural", como se tornou o objetivo de vida da espécie humana.

Trazendo de volta à dicotomia, Luiz Felipe Pondé, filósofo e professor da USP, reafirma que somos a única espécie que, para amar, enfrenta não apenas o ambiente externo, como o interno. Enquanto o primeiro seria o material, o físico, o do corpo; a alma ou o psiquismo seriam o espaço interno. Este, nas palavras dele, é aquele composto de experiências particulares como o afeto, o medo, as esperanças e as reflexões. Mas é possível refletir ou resistir fora da sociedade?

Afinal, ainda seguindo Pondé, é pelo mundo externo que virão as leis nas quais estabeleceremos as manifestações da nossa alma, nossos pensamentos e o nosso psicológico. Veja o Nepal. É possível chorar sem a catástrofe?

Nessa busca por aquele que nos vai trazer a felicidade completa, fala‐se de amor, mas fala-se ainda de algo que é mais do que atração sexual, fala‐se do corpo. Fala‐se de um ambiente externo que vai operar toda essa complexa rede de regras que por nós é interiorizada quando pensamos que estamos apaixonados. E aqui, numa sociedade que impõe o amor e, então, as suas regras, amar é pertencer. Pertencer ao discurso dominante e ter os seus valores, os seus gestos, as suas roupas e o corpo que se deve ter. Tudo isso são processos de práticas coletivas que nos valorizam no mercado de afetos em que buscamos o amor ideal. É só isso? Não tem mais jeito? Acabou? Boa Sorte. Pois é.

Nunca devemos esquecer a lição de Lacan: um ato de comunicação, um ato de vestir, um ato de comprar, qualquer ato em sim mesmo, é o consentimento reflexivo (reflexivo?) de que queremos estar naquela sociedade, de que assentimos aquela sociedade, mas não apenas compartilhando os seus valores, mas, de preferência, nos localizando no lugar mais alto da escala social. Aqui, Oscar Wilde tem razão: não subestimar o poder da aparência. Romper com a cultura acerca do corpo é impedir as opções da alma numa sociedade em que tudo é reflexo do capitalismo. A troca entre os seres humanos parece só ser mais possível apenas se estivermos dentro do pacto da linguagem, da imagem necessária a ser exposta aos outros de forma a ser desejada.

Na apresentação do eu na vida de todos os dias, não é possível uma alma descolonizada. Milan Kundera já sabia disso quando, no livro "A Insustentável Leveza do Ser", afirmou pela boca de Sabrina que nunca há intimidade real possível porque sempre estamos atuando com as nossas mascaras sociais na ficção simbólica. Somos todos castrados, não só as mulheres. Ninguém ri por ultimo ou melhor. As suas fantasias parecem tão transgressivas assim? Até onde? Até o ponto onde se permite transgredir?! O pessoal e o desejo sempre foram políticos (ou econômicos), já diziam as feministas dos anos 60. Não, nós não somos tão modernos e criativos assim.

Aquilo que causa o desejo, o afeto, aquele "je ne sais quoi" é mais do que nunca inseparável do bombardeamento de demandas acerca do corpo. A publicidade da nossa individualidade, da nossa unicidade e da nossa alma especial que vai ser reconhecida por uma troca de olhares como insistem em mostrar as propagandas da televisão, todas essas coisas estão muito longe do campo do amor. Fora do corpo ideal e da beleza ideal, como amar?

O mundo é cruel. Não que o amor seja para os ricos, mas o conceito de amor, de alma, é inseparável de toda uma estrutura operativa como já havia dito Michel Houellebecq, o enfant terrible da literatura francesa porque nos joga na cara, mesmo antes do "Je suis Charlie" e do "Submissão", aquilo que não queremos ver. Quem é capaz de renunciar o sistema de diferenciação que se baseia no sexo, no poder ou no liberalismo econômico quando escolhe o parceiro? O mercado de afetos é justamente onde dinheiro se coloca de forma mais agressiva, em que "o mais livre dos sentimentos" só se manifesta na ordem normalizadora do mundo.

Podemos reclamar que o mundo é cruel. Mas, para se ter afeto, para se tocar a alma com o corpo, para se ter o contato físico do qual o amor também depende, a pele é a fronteira. No Brasil sem racismo, uma boa pele branca bronzeada, de preferência. Nada será realizável no mercado das almas se você estiver fora do mercado dos corpos, das aparências.

É preciso de uma boa embalagem, do rosto certo, do corpo em forma, do estereótipo definido e definidor, para se manter na roda na qual o capitalismo, ops, o amor, vai se realizar. Só tem chances de amar quem consome. Portanto, é melhor parar de ler isso aqui ou estudar e ir malhar. O essencial parece ser muito visível para os olhos.

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