OPINIÃO
13/03/2014 10:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Unir o mundo através da tecnologia

Pense em 5 coisas sem as quais não poderia viver. Provavelmente estão neste momento ao seu redor. É muito provável que o seu computador ou o seu smartphone ou mesmo ambos estejam nessa lista. Passamos uma boa parte do dia diante do computador, olhando para o visor do celular, tateando informação. O que tornou os visores onipresentes no nosso dia-a-dia foi essencialmente a necessidade de informação escrita, da sua propagação, da sua partilha. Mesmo na hiperconectividade, somos de hábitos antigos: gostamos de histórias.

Uma parte importante do que fazemos online é ler e escrever estas histórias. Lemos e partilhamos notícias e blogs, comentamos em fórums, lemos e comparamos revisões de produtos antes de os comprar, escrevemos emails, criamos a nossa própria história diariamente. Todos os dias milhões de palavras são escritas, partilhadas, "tweetadas", postadas. Partilhamos experiências (Facebook), viagens (TripAdvisor), conhecimento (Quora, Wikipedia), opiniões sobre produtos (Amazon), vendemos, trocamos e partilhamos os nossos bens (eBay), casas (airbnb), nossos carros (Zipcar ou o Huber), o nosso tempo e saber profissional de forma grátis e paga (Fiverr, oDesk, elance).

A nova economia global baseia-se na partilha sem fronteiras, e no entanto está limitada pela linguagem. A experiência de um internauta fluente em inglês é muito diferente da experiência de alguém que fale apenas português, espanhol, russo. A comunicação e partilha de informação entre pessoas não falantes de inglês é muito difícil, senão mesmo impossível.

E agora que a internet já tem várias décadas de existência, agora que encontramos tantos e tão diversos usos para ela, agora que comunicamos com pessoas do outro lado do mundo, desde que falemos a mesma língua, chega o momento de quebrar a barreira da linguagem, também através da tecnologia, também através da partilha e inevitavelmente também através do computador e do celular.

O Google Tradutor é talvez o software de tradução mais usado do mundo. Apesar de não haver dados oficiais, podemos assumir que milhares de milhões de palavras são traduzidas todos os dias neste software. O Google Tradutor usa um método estatístico para traduzir. Resumidamente isso significa que o software analisa milhões de traduções feitas por humanos de livros, documentos oficiais e websites para encontrar padrões e prever a probabilidade de que "car" seja equivalente a "carro", "apple" a "maçã" ou "star" a "estrela". Esta análise probabilística inclui elementos de inteligência artificial, na medida em que o software aprende a traduzir melhor a cada vez que o faz. Em cada palavra o software escolhe uma opção que parece ser a mais provável. A tradução automática (Machine Translation em inglês) produz hoje traduções com uma qualidade razoável em alguns idiomas. Mas razoável não é suficiente. Certamente você já experimentou isto: uma tradução automática bastou para perceber aquele email escrito numa outra língua. Mas sentiu-se confortável o bastante para confiar numa tradução automática para responder de volta sem receio de soar pouco natural ou simplesmente errado? Provavelmente não. Haverá solução para este cenário recorrente?

Várias companhias têm vindo a reinventar o trabalho ancestral do tradutor, transpondo-o para a internet. O mercado de trabalho online para tradução nunca foi tão grande e apesar de todas as ferramentas e auxiliares que estes têm ganho ao longo dos últimos anos, a tradução continua a ser, em parte, mais uma arte do que uma ciência. É um trabalho feito por uma comunidade de profissionais dedicados e experientes.

Mas existe uma comunidade bem mais extensa: existem no mundo mais pessoas multilingues do que monolingues, revela ainda a wikipedia. Surpreendente, não é?

E se houvesse uma maneira de juntar o poder de todas estas pessoas bilingues, dispostas a partilhar o seu conhecimento em línguas, cruzá-lo com a inteligência artificial de um software, criar uma plataforma capaz de traduzir milhões de palavras por dia, quebrar barreiras linguísticas e romper as fronteiras das línguas? Empresas como a Unbabel estão neste momento a desenvolver tecnologia para esta nova abordagem.

São necessárias muitas e variadas peças de tecnologia: um motor de tradução estatística que aprende com cada tradução; um algoritmo que entrega cada tarefa à pessoa certa de acordo com as línguas que fala, de acordo com a reputação que tem na plataforma, a qualidade com que traduz, os temas que lhe interessam; um algoritmo para analisar a qualidade; um programa que mostra o texto original e a tradução; um editor de texto avançado, a possibilidade de escolher uma alternativa diferente para uma palavra e isso influenciar o texto daí em diante; um software para recolher milhões de textos, pedir a tradução e postar a tradução automaticamente; uma aplicação para fazer tudo isto no computador, no tablet ou celular, aquele celular sem o qual já não sabe viver.

O desafio é grande: Imagine um mundo onde cada língua e cada cultura são capazes de se conservar, prosperar até, e onde simultaneamente sejamos capazes de comunicar universalmente. Mas as peças de tecnologia necessárias para tal já estão a ser desenvolvidas por universidades e por empresas. Elas funcionam apenas com a intervenção humana, com a preciosa ajuda da comunidade de tradutores. Esta integração é fulcral. Máquina e Homem, trabalhando em conjunto, conseguirão um mundo cada vez mais unido.