OPINIÃO
07/03/2014 19:18 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Vestir onça pintada é a roupa que desejo

Carminha é vendedora de frutas lá em Pirapora, minha cidade natal, no interior de Minas Gerais. Conhecida como "Mulher-Tigre", na verdade, ela é mesmo uma onça. Há mais de 20 anos ela só se veste com roupas de estampa print animal, "inclusive nas peças íntimas", me confessou, da vez que conversamos.

Vestir-se assim é sua missão de vida. Não quis entrar em detalhes sobre o motivo da tal missão (decerto pela falta de intimidade que temos), mas a lenda que corre, que ninguém sabe ao certo como nasceu, é que ela teve um marido abusador, que a maltratava física e emocionalmente. Parece que este homem, metido a caçador, um dia saiu pela mata e foi comido por uma onça. Desde então, Carminha assumiu essa espécie de luto perpétuo subvertido.

Tentei confirmar. Ela nada disse. Apenas riu.

Uns dois anos atrás foi publicado um texto apócrifo em Pirapora ridicularizando "personagens curiosos" da cidade. Carminha estava lá, num contexto de galhofa que misturava comentário sobre sua aparência e piada homofóbica sobre seus filhos.

Com que facilidade uma mulher se torna alvo de patrulha por não seguir um padrão, qualquer que seja ele, né? O do dress code cotidiano, por exemplo, sobretudo aquele apontado como o "mais adequado" a uma senhora. Ainda mais se tratando de uma senhora que, no folclore local, ao invés de render homenagem ao marido morto decidiu homenagear a onça que o teria devorado!

E por mais que eu fique tentada a escrever um conto sobre essa história, por todas essas nuances, o caso é que, no final das contas, qualquer elucubração pretensamente literária esbarra mesmo nas perguntas mais simples: por que Carminha não pode se vestir da maneira que quiser sem contar ora com a condescendência, ora com o desprezo disfarçado de ironia por parte das pessoas? Por que Carminha foi parar num panfleto covarde, porque sem autor, por sua maneira de vestir?

Por que ainda não podemos sair na rua com a roupa que quisermos, com o tamanho que quisermos, com a estampa que nos diverte sem que isso seja motivo de piada ou, num extremo, justificativa para um assalto sexual, um estupro? Por que ainda somos submetidas a essa violência simbólica e/ou real sobre a nossa aparência, sobre o nosso corpo? Sobre como deveríamos ser, parecer, atuar?

O que me consola no caso da Carminha é que é que ela não parece se importar tanto assim com a opinião alheia. Quer conhecê-la, é só ir lá em Pirapora. Da rodoviária mesmo basta perguntar onde fica a banca de frutas da "Mulher-tigre". Qualquer um sabe. Porque ela passou ao largo do disse-me-disse e do texto barato e continua se mantendo fiel ao estilo que resolveu adotar.

Recebe muitos presentes, de bichos de pelúcia a livros, de todos os lugares. Em um desses livros, me disse ela, aprendeu que há vários tipos de onça: grande, pequena, albina, mas que a mais valente é a onça pintada. "Mais valente que o leão!"

Quero mais é valentia! Quero crescer pra ser Carminha.