OPINIÃO
06/05/2014 15:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

De Rosa e flores

Uns meses atrás assisti um ensaio do espetáculo Rózà. Fiquei muito emocionada. Não sabia o que nos esperava, e parecia encomenda. Parecia feito pra gente. E era mesmo, de alguma maneira.

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Uns meses atrás assisti um ensaio do espetáculo Rózà. Fomos dois grupos convidados, a gente da Casa de Lua e um grupo do MST. Foi a primeira vez que cheguei num lugar e me apresentei como "Vanessa, da Casa de Lua". Fiquei muito emocionada. Não sabia o que nos esperava, e parecia encomenda. Parecia feito pra gente. E era mesmo, de alguma maneira. Chorei do começo ao fim.

Bianca Santana, também da Casa de Lua, descreve brilhantemente do que se trata o espetáculo (agora, já na montagem final) e suas nuances, nesse lindo texto para o Opera Mundi.

Três Rosas, Rosa plena: utilizando cartas, peça em SP revela força feminina da revolucionária

Rosa vibrante. Rosa doce. Rosa densa. Nos corpos de três atrizes. "Que Rosa está em você?", pergunta Lowri Evans, que encarna Rosa Luxemburgo (1871 - 1919) na versão mais sutil da revolucionária no espetáculo multimídia Rózà, em cartaz em São Paulo desde 18 de abril. Na atriz Martha Kiss Perrone, ganha vida a Rosa intensa, enquanto Lucia Bronstein carrega a profundidade de uma das mulheres mais conhecidas da história política mundial. Olhos nos olhos dos espectadores, elas interpretam cartas escritas por Rosa na Alemanha do início do século XX. De sua casa e da prisão. Sobre a revolução e o partido. Com borboletas, folhas e seus sentimentos.

(...)

A Rosa dos textos políticos aparece pelo avesso no espetáculo. Também pelo avesso. Sem negligenciar as construções públicas, a peça resgata as revoluções internas da polonesa, como nos conflitos sobre o companheiro, no 'amor radical' e na busca por felicidade.

"Suas cartas não têm nada a não ser o movimento, as manifestações, o partido (...) Instruções sobre o que devo fazer, como devo me vestir, o comprimento da minha saia, como devo me comportar. Não preciso de palavras açucaradas, não se trata disso. Mas, será que você não pode falar sobre sua alma? Sobre seus sentimentos?", pergunta ela.

Rosa lembra, com alegria, das mais de mil mulheres que a esperavam na porta da prisão com presentes, como caixas de flores, chás e bolos. "Tudo preparado por elas mesmas!", vibra. Ela comemora a autorização para cultivar um jardim na prisão.

Eu, do meu lado, não consigo me esquecer da roda de conversa que rolou depois do ensaio. Falávamos sobre a delicadeza e força do espetáculo, do feminino em Rosa e de como nos emocionava estar ali, naquele momento. Quando uma das pessoas (que não era nem da Casa nem do MST) comentou que o aspecto político parecia negligenciado, que não dava pra entender muito bem quem foi a Rosa somente por aquela narrativa.

A sensação que nos deu foi que, para ele, era como se aquela mulher não fosse inteira em si, nas suas cartas, na delicadeza de suas alegrias e pequenas vaidades, que ela procurava manter, mesmo na adversidade. Como se, no caso da Rosa especialmente, sua trajetória política fosse o importante. Como se tudo não fosse ela, dela, da mesma mulher.

E antes mesmo que respondêssemos, uma das pessoas do assentamento (que, infelizmente, não me lembro o nome) destacou o quanto o feminino era fundamental para elxs, expressando-se na relação com a terra, com a lua comandando o tempo de semear e o tempo de colher, por exemplo. Precisava falar mais? <3