OPINIÃO
25/03/2014 14:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

Das palavras impróprias

"Mamãe, por que a dona Irene já é velha?" Perguntou-me ele. A indagação foi feita em voz relativamente alta, enquanto a vizinha passava por nós indo depositar o lixo na portão.

"Mamãe, por que a dona Irene já é velha?"

Perguntou-me ele, naquele momento das conversas profundas e desconcertantes da volta da escola. A indagação foi feita em voz relativamente alta, enquanto a vizinha passava por nós indo depositar o lixo na portão. Olhei pra trás, constrangida, com medo de que ela tivesse ouvido, e minha primeira reação foi responder que não é assim que se diz, que ela poderia se ofender se escutasse.

Ele me disse, assustado: "mas, eu só perguntei por que dona Irene é velha!"

E foi só isso mesmo. E claro que não deveria ser ofensivo. Mas, como explicar que pra algumas pessoas ser chamada de velha pode ser confundido com indelicadeza? Ou que não é toda pergunta que se faz? E que temos que respeitar os tempos dessas pessoas, já que não é mesmo fácil escapar dessa dança das cadeiras moderna que, às vezes, cria eufemismos pra nomear o inevitável? Ou retardá-lo? As pessoas ficam velhas. A gente, se não morre antes, envelhece, caramba!

A Eliane Brum tem um texto lindo sobre o assunto que diz:

"Chamar de idoso aquele que viveu mais é arrancar seus dentes na linguagem. Velho é uma palavra com caninos afiados - idoso é uma palavra banguela. Velho é letra forte. Idoso é fisicamente débil, palavra que diz de um corpo, não de um espírito. Idoso fala de uma condição efêmera, velho reivindica memória acumulada. Idoso pode ser apenas 'ido', aquele que já foi. Velho é - e está." ["Me chamem de velha" http://glo.bo/OSTZDP]

Então, como dizer que, embora possa soar indelicado, não deveria sê-lo? Chamar alguém de velho não deveria ser grosseria, xingamento. Querer saber por que ela envelheceu tampouco (é até belo, pelo tanto de significado que possui). E que também para ele a velhice chegará (seguida da morte, mas, isso é outra história...), e que isso não deve ser razão de temor. Ou vergonha.

E como tornar tudo isso simples para uma criança de 5 anos, naquele átimo de segundo que dura sua expectativa de resposta?!

Olha, tarefa difícil essa de educar.