OPINIÃO
28/10/2014 19:05 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

A mágica de transformar sonhos em realidade

Nos últimos anos, atuando com consultor para a inovação nas maiores empresas do Brasil, vivi rodeado de adultos. Foi nesse cenário que as crianças entraram no meu radar de consultor.

Justin Lewis via Getty Images

"As pessoas grandes aconselharam-me a deixar de lado os desenhos de jiboias abertas ou fechadas e a dedicar-me de preferência à geografia, à história, à matemática, à gramática. Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma promissora carreira de pintor. (...) As pessoas grandes não compreendem nada sozinhas, e é cansativo, para as crianças, ficar toda hora explicando."

Extraído de O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry (ed. Agir)

Nos últimos anos, atuando com consultor para a inovação nas maiores empresas do Brasil, vivi rodeado de adultos. Meu trabalho, sob a batuta de líderes inspiradores e visionários, consistiu quase sempre em reacender a chama da inovação em equipes competentes, que, no entanto, atuavam de forma automática perseguindo metas em processos cristalizados e sem espaço para o novo.

Foi nesse cenário que as crianças entraram no meu radar de consultor. Observando-as, e comparando-as com os times com que trabalhávamos, dei-me conta, a certa altura, de que nelas a capacidade de inovar é inata e potente. Nos cursos de inovação que levávamos às corporações, era comum virem à tona depoimentos comoventes de pessoas sobre o cerceamento de sua criatividade quando pequenas, com reflexos duradouros e não raro traumáticos. Eu ainda não sabia, mas ali começava a nascer o projeto mais importante da minha trajetória profissional. Um projeto de educação para a inovação no qual as crianças são protagonistas, e que poderá contribuir para salvar a nossa competitividade como país.

No dia das crianças e na mesma semana em que foram comemorados o dia da inovação, da leitura e dos professores, 6 mil exemplares do livro chegaram gratuitamente às mãos de estudantes de escolas da rede pública, ONGs e entidades de apoio a crianças de todo o Brasil. Em São José dos Campos, graças ao apoio do Dr. Ozires Silva e da administração municipal, 20 mil tablets serão entregues a alunos das escolas da rede com a versão digital de "A Verdadeira Mágica" carregada. Estamos realizando palestras nas escolas que receberam o livro para reforçar o valor da inovação. Por meio de um hotsite, professores e pais podem baixar a obra sem custo e ter acesso ao conteúdo e às bases conceituais do livro. Pretendemos atingir 100 mil crianças nessa primeira fase. Aos poucos, formar uma revolucionária rede de ação para um Brasil mais inovador, envolvendo crianças, suas famílias e comunidades de professores.

Falamos com esses meninos e meninas sobre inovação. "A Verdadeira Mágica" conta a história de um garoto diante de um desafio que parece intransponível. Ele não desiste e, usando suas atitudes de inovador, identifica pessoas de diferentes perfis para ajudá-lo a solucionar o problema. Vai além: reúne essas pessoas em um time que, se estivéssemos numa organização, chamaríamos de "time de alto desempenho"! Disso resulta a "mágica". Vem o encantamento, a descoberta, o uauuuuu! O desfecho não vou contar...

Nosso leitor tem entre 8 e 12 anos e dispõe de uma enorme capacidade de inovar que está prestes a ser encoberta. Nas escolas, muitas vezes, as crianças começam a ser enjauladas em regras sem sentido, e o diferente perde a voz. É assim que se começa a sufocar as atitudes do inovador. Não porque os educadores e os pais sejam maus, e sim porque eles acham que estão fazendo o melhor para seus pequenos. Pretendemos avisá-los dos riscos desse engano, mostrando-lhes a importância de preservar e estimular tais características nas crianças. Dar-lhes a chance de, daqui a uma década, destacarem-se pela inovação, criando, por exemplo, novas vacinas e medicamentos, melhorando nossa qualidade de vida por meio dos produtos que utilizaremos, do alimento que comeremos e até da forma como aprenderemos.

O Brasil tem 18 milhões de crianças nessa faixa etária. Sabe-se lá quantos Santos Dumonts em potencial! Queremos contribuir para salvá-los. Se no livro "A Verdadeira Mágica" nosso pequeno herói descobre a inovação, quem sabe no volume 2 ele possa tornar-se um empreendedor... No 3, um líder transformador do bem. Ele terá, certamente, muito a dizer às nossas crianças!

Há um pouco de mim nesse projeto. Estudei em escolas públicas em Santo André, na Grande São Paulo. Aos 8 anos, ainda falava português com sotaque e era visto como "diferente" - minha família trocou a Itália pelo Brasil quando eu tinha 5 anos. Certa vez, durante uma situação caracterizada como "bagunça que eu liderava", fui trancafiado na sala do diretor e inquirido por um policial armado, que ameaçava me prender (eu era tão pequeno que, sentado, meus pés mal tocavam o chão). As lágrimas encharcaram minha camiseta. Após esse episódio, passei meses em profunda introspecção. Aprendi a lição de que o melhor, para mim, era ter "atitudes de adulto". Evoluímos, claro, mas não o suficiente para valorizar o direito supremo e a capacidade que as crianças têm de inovar e experimentar. De expressar-se, de fazer diferente, arriscar e ousar.

Às vezes me chamam de sonhador, mas não sou o único, como disse John Lennon. E meu sonho está vivo, sendo folheado e lido por milhares de crianças Brasil afora. Que esse sonho incentive o surgimento de futuros líderes inovadores, preparados para construir, de verdade, um país melhor. A verdadeira mágica.

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